Análise: 1ª Temporada de The Terror (2018, de Edward Berger e Sergio Mimica-Gezzan)



A um primeiro momento, a série me surpreendeu por mostrar que apesar do nome (terror) me remeter a filmes ruins e sustos prontos, ela tem muito mais a oferecer do que um simples sustinho para os amantes do gênero. The Terror ao meu ver pode ser definida como: a série de terror que fala mais sobre as emoções humanas do que um terror sobrenatural de fato. Há uma mistura certeira entre o místico e o real, o palpável e o invisível que torna essa série simplesmente única. Ao decorrer da crítica, tentarei me abster de spoiler, pois não teria graça nenhuma entregar uma ideia pronta à vocês. 

The Terror que foi produzido pelo canal AMC, responsável por grandes sucessos como Breaking Bad, The Walking Dead e Mad Men, e nos presenteia com mais uma série, que infelizmente, passou desapercebido do grande público mesmo chegando à plataforma Amazon Prime, o que é uma pena. Tudo na produção beira a perfeição, temos um elenco de primeira, uma fotografia excelente e principalmente um roteiro pontual, que usa e abusa de expressões e conversas curtas e com muito peso.

Para você entender, a princípio conhecemos algumas peças importantes, como a história ser baseada em um fato que realmente aconteceu, na metade do século 19, por volta de 1845, dois navios saíram em missão, para explorar e tentar encontrar a Passagem do Noroeste, que era uma lenda entre os navegantes, caso ela realmente existisse, seria uma nova forma de navegação, pois seria possível chegar do Atlântico ao Pacífico sem ter que dar uma tremenda volta na América do Sul.


Os dois navios, batizados como HMS Terror e HMS Erebus, mal sabiam o peso de seus nomes, já que ambos são personificações da mitologia grega, Terror = escuridão e Erebus é o nome de uma ala no mundo dos mortos. E sob o comando de John Franklin (Ciarán Hinds, Game of Thrones) e Francis Crozier, (Jared Harris, Chernobyl) eles saíram para alto mar.

Interessante notar que os diretores já são antigos no mundo da cinematografia, sendo que diversos trabalhos conhecidos como Falling Skies, Prison Break e Under The Dome fora dirigidos por Sergio Mimica-Gezan, enquanto Edward Berger foi responsável por trabalhos como Deutschland 83, Patrick Melrose e The Corporation, ou seja, eles sabem o que estão fazendo e fica bem nítido conforme os episódios correm.

A primeira coisa que fica clara é a sensação claustrofóbica. Completamente isolados do mundo conhecido por eles e acompanhados das incertezas que esses marujos começam a viver, assim que chegam ao Ártico, o mar está congelado e eles ficam presos em meio aquela imensidão de gelo e terror. É interessante notar que, mesmo parecendo calmo essa paisagem gélida, tudo nela nos remete a um medo genuíno, pois ninguém sabe quando ele sairão dali, mesmo os comandantes passando informações rigorosas e de coragem, sabemos que é tudo ladainha para manter o controle emocional. 


Mas como somente o isolamento e a sensação de morte iminente não eram o suficiente, a história nos apresenta Tuunbag, uma mitologia local que é inspirado nas lendas locais dos Inuíte (povo esquimó). Na série, é um animal enorme, controlado por um humano afim de defender seu povo dos invasores, que mata sem dó e misericórdia; transformando o terror em algo ainda mais incerto, já que não sabemos ao certo quando ele pode aparecer. E temos então um misto de sensações que vão se desenvolvendo nos 10 episódios. 

Agora, sobre a série em si, no primeiro episódio praticamente não acontece nada, mas ao mesmo tempo tudo muda. Temos a criação de todo um momento que dura até o último episódio, que é a angustia. Não temos de fato uma morte, ou o conhecimento do monstro até então, tudo que temos é a sensação que o episódio deixa no espectador e isso rege o que virá a seguir. Com o isolamento, medos que jamais teríamos no dia a dia vem à tona, de uma forma que podemos ver sua evolução nos olhares. Uma coisa muito bonita dessa série é a forma como a direção aproveita ao máximo seus atores, confiando piamente que seus rostos falam muito mais do que suas palavras, já que toda a série é focada em closes e na imensidão gelada da Antártida. A fotografia em si é muito bonita também e mais uma vez nos traz sensações estranhas, a sobrevivência começa a se sobrepor a todas as outras noções de honra, amizade e o que quer que seja. Começamos a vivenciar uma certa loucura silenciosa, alucinações e conversas ao pé do ouvido, que levam os mais fracos à loucura e os mais fortes a tomarem atitudes moralmente questionáveis. 


Os diálogos deixam transparecer muito do que realmente está acontecendo e ao mesmo tempo, são curtos e coesos. Os detalhes são algo realmente importante a se notar aqui. Como eu disse, tudo está na fisionomia e na forma de agir dos personagens e nem tanto no que eles falam. Por fim, eu diria que a série nos transporta para o mais humano que podemos ter dentro de nós, que faz questionar o que somos realmente quando nossa sobrevivência vem em primeiro lugar. Até em que ponto o medo pode nos transformar em monstros e qual o ponto em que decidimos que é certo deixar outras pessoas morrerem ou até mesmo matá-las se isso for uma chance de sairmos do inferno. Colocamos à mostra quem somos de verdade, mas uma hora nossa personalidade é colocada à mostra e uma vez que isso acontece, o nosso antigo eu não é mais aceitável na nova realidade. 

A evolução dos personagens para algo questionável é gradual e muito significante, chega a ser difícil explicar como o roteiro é perfeccionista e pontual com todos os acontecimentos e como isso influencia cada um a seguir um caminho. Diria que é uma das melhores séries que assisti esse ano e, ao mesmo tempo, tenho certeza que muita gente ao vê-la pode não gostar, pelo seu desenvolvimento lento e gradual de acontecimentos, o que é uma pena.


"Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem."

  Stephen King





Título Original: The Terror

Direção: Edward Berger e Sergio Mimica-Gezzan

Episódios: 10

Duração: em média de 50 minutos a 1 hora

Elenco: Adam Negaitis, Ciarán Hinds, Jared Harris, Paul Ready, Tobias Menzies, Aaron Jeffcoate, Caroleine Boulton, Alistair Petrie, Chris Corrigan, Nive Nielsen

Sinopse: The Terror mostra a perigosa viagem da Marinha Real Britânica em busca da Passagem Noroeste pelo Ártico em território inexplorado. Diante de condições traiçoeiras, recursos limitados, desesperança e medo do desconhecido, a tripulação é levada à beira da extinção, além de ter que enfrentar um ataque de um misterioso predador. Com frio, isolados e presos nos confins da Terra, “The Terror” destaca a luta desesperada do homem pela sobrevivência.


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Natália

Nada do que eu disser será verdade

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