Crítica: A Vida Invisível (2019, de Karim Aïnouz)

Confira a cobertura da coletiva de imprensa com elenco e equipe do filme A Vida Invisível neste link!


“Inspirado na vida de milhões de mulheres” anuncia a voz de Fernanda Montenegro no trailer de A Vida Invisível, filme dirigido por Karim Aïnouz e protagonizado por Carol Duarte e Julia Stockler. Inspirado na vida de tantas mulheres que poderiam ter sido e na de tantas que foram. De tantas vidas que foram apagadas e das tantas que lutaram - e sofreram - por sua liberdade.

O longa-metragem que conta a história das irmãs Guida e Eurídice é uma adaptação do livro escrito por Martha Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 1950, o filme constrói um universo de época quase palpável, repleto de cores vibrantes e uma natureza exuberante, que escancara uma realidade mergulhada em opressões. Uma realidade de sonhos e vidas reprimidas por uma sociedade que lhes exige, sufoca e violenta constantemente.






Separadas desde o começo da trama, é o elo de amor e união entre as duas irmãs que move o filme. Narrado por cartas que vão e nunca chegam, enquanto duas vidas - antes tão próximas - são completamente transformadas pela separação e pelas dores que sofrem no caminho. Nascidas em uma família de classe média brasileira, as irmãs acabam tomando - ou sendo tomadas por - destinos extremamente distintos. 


De um lado, o casamento e a construção de uma família tradicionalmente patriarcal, costurada em meio a silenciamentos e submissões. As imposições que sofre fazem com que Eurídice se torne cada vez mais muda, curva e apagada, presa dentro de uma vida que nunca quis para si e impedida de perseguir seu próprio destino. Não à toa, na última cena em que aparece, Carol Duarte sequer pode ser vista, estando completamente desfocada e cercada pelos homens que a vida toda lhes disseram como deveria viver. 

Do outro lado, Guida. Uma personagem cheia de potência, que logo descobre o que é ser uma mulher sozinha no mundo. Uma mulher que persegue a vida sem medo e que luta por sua independência e sua existência. E que, por sua vez, em meio a inúmeras violências e injustiças, torna-se uma mãe solo e constrói para si uma família. Uma outra família, baseada em amor e companheirismo, além de qualquer molde ou padrão.



No decorrer da obra, enquanto Eurídice é constantemente moldada e sufocada pelos padrões da classe média patriarcal até desaparecer completamente, Guida é obrigada a aprender a viver sem os privilégios dessa classe. Sem nunca deixarem de pensar uma na outra, e constantemente imaginando para a irmã uma vida melhor do que a sua, as irmãs têm na memória de sua relação uma fuga. Um refúgio para um lugar onde projetam uma possibilidade de felicidade.

Cabe a montagem, portanto, conectar essas duas vidas, associando momentos distantes fisicamente, mas próximos em dores e sentidos. Do momento em que uma engravida, para o momento do parto da outra. Alternando entre violências (no caso o estupro conjugal e a violência obstétrica), do sofrimento de uma para a dor da outra. Dessa forma as histórias das irmãs se unem para retratar tantas outras vidas violentadas e invisibilizadas.

As interpretações das duas atrizes são espetaculares. Trazem à flor da pele os sentimentos e as adversidades que enfrentam suas personagens, as adversidades de ser mulher. Emocionam ao seguirem firmes diante das injustiças do mundo, e também ao sucumbirem. Trata-se de uma reverência a força das mulheres muito bem encarnada pelas jovens atrizes, e também pela inspiradora Fernanda Montenegro.


É um filme intenso, um “melodrama tropical” vibrante, delicadamente dolorido a cada plano. Entrega-se uma obra que não só expõe as opressões misóginas vividas pelas personagens e por tantas outras, mas que faz com que essas doam no espectador. Dói assistir às injustiças do mundo, dói ver as opressões de ontem que seguem se repetindo. Dói a dor de ser mulher.




Título Original: A Vida Invisível

Direção: Karim Aïnouz

Duração: 139 minutos

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Fernanda Montenegro, Bárbara Santos, Maria Manoella.


Sinopse: Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier).



Trailer:


A Vida Invisível estréia dia 21 de Novembro nos cinemas do Brasil. Ansiosxs para assistir? Comentem o que esperam do filme!


Isabella Thebas

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