Coletiva de imprensa de A Vida Invisível


Confira a crítica do filme “A Vida Invisível” aqui!   


Na última sexta feira, dia 18 de outubro, rolou em São Paulo a coletiva de imprensa do filme A Vida Invisível, dirigido por Karim Aïnouz e estrelado por Fernanda Montenegro, Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier e Maria Manoella. No evento o diretor, o elenco e o produtor Rodrigo Teixeira conversaram em tom descontraído e político sobre o filme e suas perspectivas para o cinema nacional. O filme, que foi vencedor da seção "Um Certo Olhar" no Festival de Cannes, tem sua estreia marcada para o dia 21 de Novembro.



O diretor contou ainda que estão empenhados na campanha do Oscar que se iniciará em Novembro e será impulsionada pela Amazon. Elenco e equipe estão otimistas que a campanha culminará com a participação do filme na premiação que acontece em Fevereiro do próximo ano.



Abaixo reproduziremos (não integralmente) algumas das perguntas e respostas:



Gostaria de saber de cada um o que que significou fazer esses personagens pra vocês? (Henrique, do Diário de Cinema de sp)

Carol: A primeira coisa que me foi uma questão sobre a Eurídice, foi que ela trabalha muito com o silêncio. Ela sofre ao longo do filme uma violência muito muda dentro daquele apartamento de classe média. Então o maior desafio era como é que eu dou conta de dizer uma coisa que não tá nas palavras? Como que eu construo essa personagem que ao longo da trama vai ficando cada vez mais curva, mais calada? Então pra mim a Eurídice tava um pouco além das palavras. Outra questão é que ela tem uma relação muito profunda com a irmã, então a construção da Eurídice foi muito em relação a Guida, ao trabalho da Julia. A gente teve uma parceria muito bonita ao longo do filme, é difícil pensar a Eurídice sem a Guida, é difícil pensar esse trabalho que eu fiz sem a Julia.

Fotograma do filme A Vida Invisível (2019)


Julia: A gente teve uma grande influência, o filme Uma Mulher Sob Influência [John Cassavetes, 1974]. Esse filme foi uma marca nossa dessa potência de vida que esse personagem tem. Então a Guida foi construída pensando nessa força, essa mulher que vai sem medo das consequências, que vai com o corpo, o corpo público da Guida ali vivendo, tentando. Era uma revolução pra mim. Uma mulher que vai, que constrói uma outra ideia de família com a Filomena, que é mãe solteira, que trabalha numa fábrica. E isso me dá uma emoção profunda, assistir essa mulher sem medo. 

Gregório: Eu faço Antenor, o marido abusivo, desculpa a redundância. Ele é um homem de um outro tempo, mas ao mesmo tempo um homem muito real. Para vivê-lo eu usei inclusive as roupas do meu avô, a gente só usou roupas reais dos anos 50. Então foi realmente um processo de vestir os sapatos e as roupas de outra pessoa e de tentar entendê-lo apesar de ser um homem... ah vocês vão ver o filme! Bom, foi muito feliz pra mim mesmo. Foi uma alegria gigantesca, eu adoro o filme, adoro o que ele virou.

Fernanda: O que eu acho especial no filme é que não há didatização, não há uma retórica do que queremos demonstrar. Acho que o filme tem uma intensidade, uma interação de tal ordem no elenco e também no roteiro, que o que sai ali não é um discurso do que se deve fazer diferente na vida, não, é celular. O personagem do Duvivier, por exemplo, é um bom rapaz da tijuca, que honra ter uma família, um casamento bonito, tudo certinho. E o filme tem o encontro dessas duas irmãs. Muito mais do que uma teve coragem de ir, é o que a outra fez dessa irmã que foi. Talvez uma possibilidade de alguma felicidade na sua vida, um dia não sei. Porque a irmã, além da irmandade mesmo, era a fuga daquilo. Mesmo que seja pra sofrer mais, aquilo é uma saída. Porque a grande essência da personagem é a não saída. E eu tive também vendo a Carol representar porque eu ia fazer ela velha. Como é o olhar dessa atriz maravilhosa? Como ela levava o não lugar dela no mundo, a não realização artística da sua vida? Foi através do olho dela que costurei meu olho lá, aos 90 anos. 

Karim, pra você o que é fazer um filme de época, da década de 50? (Henrique, do Diário de Cinema de sp)

Karim: A década de 50 foi uma década muito importante na escolha do tempo central do filme porque eu acho que o filme fala principalmente de duas coisas muito importantes: uma é como as mulheres conseguiram conquistar tantas coisas entre 1950 e agora, a outra é como os homens mudaram tão pouco de 1950 até agora. Então, isso foi muito importante porque a década de 50 é justamente essa década logo antes de uma série de grandes mudanças que acontecem na história. Então escolher essa década foi muito importante como um momento anterior a todas essas conquistas do movimento feminino e feminista. E foi muito prazeroso porque quando você faz um filme de época você faz um filme que é um pouco fabular assim, quando você não está no presente. Então foi muito prazeroso, foi muito divertido, foi muito bonito poder pensar o que que era o Rio de Janeiro naquele momento, como é que o Rio de Janeiro se encaixava na história. E era muito importante também que a gente fizesse um filme que se passasse na década de 50 mas que não fosse um filme poeirento, que fosse um filme de agora. Teve uma série de desafios que a gente tentou olhar com uma certa irreverência de pensar como é que a gente consegue fazer um filme sobre o passado que ecoe no presente de forma muito forte. 

O que vocês imaginam que é fazer cinema no Brasil hoje? Se é mais complicado, se é mais gratificante, ou se é simplesmente apenas um dia após o outro? (Thiago Lira)

Karim: Eu acho que é cada dia mais gratificante, eu faço isso a 25 anos e a cada dia eu fico mais feliz com o caminho que o cinema no Brasil está tomando. Acho que a gente tem hoje no brasil uma exuberância, uma diversidade gigantesca no cinema que é produzido aqui, é um cinema vibrante. A gente está num momento onde existem muito mais possibilidades, então sou muito otimista com relação a onde a gente tá, ao momento que a gente tá vivendo criativamente. Esse ano especialmente eu acho que é um ano exuberante pro cinema brasileiro, dentro e fora do Brasil. Então eu só tenho otimismo na minha frente. Me recuso a pensar que pode haver uma crise ou que o cinema pode entrar em cheque. Pelo contrário, acho que a gente formou um exército de artistas maravilhosos nos últimos anos e acho que a gente só tende a ter mais exuberância daqui pra frente.

Rodrigo: Eu concordo como Karim, acho que em momentos como esse, com pessoas mal educadas governando esse país, a gente os contesta com educação e criatividade. Acho que a nação brasileira sempre contestou brilhantemente no momento de contestar, foi o que a gente fez nos anos 60 e nos anos 70 e é o que a gente está fazendo esse ano e vai fazer nos próximos anos. O cinema não para, ele sobrevive. A gente arruma um jeito de fazer, se tentarem censurar a gente vai contra a censura, se tentarem censurar economicamente a gente arruma uma forma de fazer, arruma parcerias. Acho que tem gente pensando positivamente no Brasil e abrindo a possibilidade da gente continuar fazendo arte, acho que a arte no Brasil não morre. Ao contrário, o melhor momento pra gente criar é agora, contestando o que foi eleito. Infelizmente é o que temos e vamos ter que lutar contra isso.

Carol e Gregório, como foi pra vocês fazerem as cenas de sexo, principalmente a do banheiro? (Douglas Nobre)

Carol: A gente fez um trabalho muito importante antes de começar a filmagem, um trabalho de preparação. A gente já tava pincelando memórias dessas duas personagens, o encontro delas e o tom dessa relação dos dois. E antes da gente filmar mesmo essa cena, a gente fez uma visita de locação e fizemos alguns exercícios e achamos algumas coisas. A Eurídice nunca tinha visto o corpo de um homem nu na frente dela, ela nunca tinha tido uma relação sexual. Então como era isso pra ela e como era isso pro Antenor também. E acho que quando a gente foi filmar, já tínhamos um pouco o caminho do que seria. E no banheiro, a gente criou uma relação de muita confiança, acho que é importante dizer isso. São cenas difíceis de serem feitas, o Karim esvaziou o set, a equipe majoritariamente era de mulheres, isso me deixou muito mais confortável pra filmar todas as cenas do filme. E aí eu acho que a gente foi descobrindo ao longo da preparação, eu me lembro que foi um pouco natural aquela movimentação toda, não sei.

Gregório: Total, foi muito bom o jogo com a Carol no filme todo porque não é fácil né, uma gravação muito pesada. Não é simplesmente romântica de amor e leveza. A relação tinha uma densidade daquelas relações que já estragaram, então foi preciso pesquisar aquilo. Então tiveram muitas cenas e improvisações fora da tela e isso foi muito bom mesmo pra criar uma tessitura real, de um casal que exista. Essa coisa do sexo, o Karim pedia muito que fosse animal em algum lugar, e o filme mostra isso, que embaixo do homem comum tem um animal selvagem. Porque ali não dá pra glamourizar o sexo, não dá pra fingir que, como sempre, ó foi deflorada, olha que lindo, não. É trash, é um embate físico, de muita violência. E o filme mostra isso. Foi difícil fazer no sentido de que era uma energia muito pesada. Pra mim e imagino que pra Carol também, a gente voltava pra casa arrasado. Assim dá um pânico de pensar que essa foi a realidade de tantas mulheres, não é? O sexo não consentido dentro do casamento. Então foi muito pesado mesmo, muito tenso e muito difícil encenar isso de uma maneira realista.

Fotograma do filme A Vida Invisível (2019)

A minha pergunta é para as mulheres da mesa, esse filme trata muito de maternidade, trata muito de gravidez, só que de uma forma muito pouco romantizada, diferente do que a gente tá acostumado a ver hoje, como vocês se preparam para isso? (Alessandra Alves do Cinema em Cena)

Carol: Eu acho muito interessante como o filme trata a maternidade, também nada romântico né. Era muito claro pra Eurídice, ela verbaliza isso, ela não quer ser mãe porque ela quer ir pra escola de Viena. Eu me lembro que na pesquisa que a gente tava fazendo antes de filmar nós, eu e a Julia, fomos conversar com uma senhora de mais de 80 anos que morava na Tijuca. Eu queria perguntar pra ela como é que tinha sido a primeira noite dela e se ela conhecia alguém que tinha feito um aborto. Aí eu perguntei pra ela se ela conhecia alguém que tinha feito um aborto, e ela disse “Não, isso naquela época não existia!”. Aí eu falei “Mas ninguém que a senhora conheceu?” Aí ela falou, “Não, teve. Mas era natural, foi natural”. Aí ficou um silêncio, um clima, e eu acho que nós três entendemos o que ela tinha dito. O que ela disse não tava no que ela falou necessariamente, mas no que ela decidiu não dizer. E o marido dela do lado, aquilo pra mim foi muito significativo. Isso foi uma chave pra mim. Então essa mulher, ela não queria ter tido filho, ela queria de fato ter abortado. É muito louco pra nós mulheres falarmos sobre esse tema porque vai parecer cruel da nossa parte, ou insensível dizer “bom a Eurídice não queria ter tido aquela criança”, não significa que aquela criança quando nasceu ela não amasse, cuidasse, tudo mais. No processo de construção que eu tive com a atriz que fez a filha da Eurídice foi difícil porque ao mesmo tempo que tem um cuidado e tal, não tem uma alegria de ser mãe. Tem um apreço, mas eu tive que achar um lugar que “não era isso, mas tá bom, eu te amo e tá tudo bem”. Tem uma cena com a Zélia que ela fala, sem falar a palavra aborto, ela pede ajuda e não dá tempo, foi por uma questão de tempo mesmo, é de alguma maneira cruel com a mulher né.

Julia: Com a Guida eu acho que já foi um pouco diferente. Ela foi embora atrás desse amor romântico, desse grego, foi embora com ele e chegando lá viu que ele tinha uma outra história e voltou e voltou mãe solteira, mãe sozinha. Não teve o apoio do pai, foi expulsa de casa, e pensou “meu deus e agora? tenho que ter esse filho”. E ela abandona esse filho. Ela, com seu desejo absoluto de não ter aquela criança, abandona e vai pra Filomena. Tem a cena que a Filomena fala “Talvez dê pra educar, por que não tentar educar esse homem de uma nova maneira?” E é aí que a Guida fala “Aé, eu vou voltar”. Aí ela pega essa criança e ela cuida dessa criança absolutamente sozinha, com ajuda da Filomena claro. E ela reconstrói essa nova ideia de família, que eu acho que isso é muito bonito do filme né, novos modos de se construir uma família que não a tradicional brasileira que é a da Eurídice.

Maria Manoella: Eu faço uma personagem no filme que fala que tem um útero quebrado. Ela tenta engravidar e não consegue. É uma grande frustração para a Zélia não ter tido filhos. Tanto que ela acaba projetando um pouco nos filhos da Eurídice essa relação maternal. Mas o curioso é que eu fiz essa personagem de útero quebrado e engravidei durantes as filmagens.

Pra Fernanda, que não engravidou no filme, eu queria saber, você é contemporânea dessas moças, o que te livrou de não ser uma Eurídice? (Alessandra Alves do Cinema em Cena)

Fernanda: A vocação. Eu acho que a grande tragédia da personagem da Carol é que ela se crucificou, ela se suicidou diante do processo da vida. Eu acho que a vocação dela não foi tão absoluta a ponto de passar por cima, porque não tem como segurar uma real vocação, não tem. Em nenhuma história, mesmo de mulheres. Não tem como. Eu penso que é um ponto de tragédia na personagem da Carol, ela não teve aquela vocação. Talvez a irmã tenha tido, não em cima de uma arte mas em cima de si mesma em busca da liberdade. O que é a vocação se não a busca de uma liberdade no seu existir? Em que condição for.

Trailer: 




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Isabella Thebas

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