Crítica: Another Round (Druk, 2020, de Thomas Vinterberg)


É fato que cada escolha individual reverbera, de maneira consciente ou não, positiva ou negativamente, no mundo coletivo. Vícios, atitudes, maneiras de pensar e de espalhar conhecimento são sim, responsabilidade social, e cada pequeno detalhe faz parte de um ser coletivo chamado sociedade. É com isso em mente que Thomas Vinterberg, prolífico cineasta dinamarquês, olha para tal questão sociológica e decide estudá-la no microcosmo de quatro professores de ensino médio que, no marasmo do cotidiano e na clássica frustração de meia idade, decidem fazer um experimento um tanto quanto bizarro.

Assim como Hemingway, os personagens decidem beber todos os dias da semana até às oito da noite por semanas a fio, sob a justificativa de que o ser humano necessita suprir uma deficiência alcoólica mínima para que se tenha uma vida oportuna. Desse modo, eles iniciam um estúpido estudo científico no qual vão ficando cada vez mais bêbados, e não demora, claro, para que isso atinja as demais ramificações sociais e todas as pessoas que giram em volta deles.


E é pela força das interações desses quatro professores em seus círculos sociais, como família, colegas de trabalho e alunos, que o filme consegue transitar por uma comédia de erros e um drama de maneira efetiva. Vinterberg, em uma direção marcante, deixa sua câmera estática nos minutos iniciais de Druk apenas para que, conforme os personagens vão ficando cada vez mais bêbados, a perspectiva mude e a câmera gire constantemente conforme os níveis de álcool se elevam, embalando a música na bebedeira e nas trocas entre personagens, que vão ficando cada vez mais afiadas. É como se o diretor nos convidasse para uma noite insana no bar, de modo que fiquemos, assim como os personagens, cada vez mais embriagados conforme a trama avança.

Mas o filme é inteligente demais para se deixar glorificar o álcool pura e simplesmente. De maneira até mesmo previsível, vai ficando cada vez mais claro que a derrocada é iminente, e como mencionado acima, responsabilidades emocionais das pessoas à sua volta são cobradas dos personagens. Se no início beber os fazia se sentir bem e ter um desempenho melhor no trabalho e no círculo familiar, no momento em que limites são ultrapassados, matrimônios potencializam sua fragilidade e o trabalho também tem suas consequências. É nessa virada para o drama que o longa arrisca cair em pieguices, mas que não o faz de concreto, pois aqui não existe um retrato moralista da dependência; não há julgamento. O olhar perspicaz da direção se volta para consequências do alcoolismo de maneira realista, algo que se contrapõe às loucuras que fazemos quando bebemos até ficar fora do mundo material.


Ajudando a contornar algumas obviedades inevitáveis do roteiro, o filme ganha força à medida que deixa seu excelente elenco brilhar. Mads Mikkelsen como Martin, Thomas Bo Larsen como Tommy, Magnus Millang como Nikolaj e Lars Ranthe como Peter têm forças tanto para nos divertir durante a comédia quanto para conduzir o tom do drama quando ele aparece. As falas proferidas por seus personagens no que tange à família, trabalho, amizade e sociedade tornam-se reais e verdadeiras, de modo que, ao fim da sessão, os personagens ficarão com os espectadores para além.

Assim sendo, Druk se vale de boas performances, um roteiro afiado e uma direção inteligente. Poupando-nos de discursos moralistas e tendo a façanha de, ao mesmo tempo, realizar um estudo social, o longa propõe uma conexão ímpar com seu protagonista, de modo que, em seu final, tira do jogo a carga lógica antes estabelecida e cria uma sequência puramente emocional, que leva o espectador à catarse, como se estivesse alcoolizado em uma festa nórdica à beira de rios gelados da Dinamarca. Entre porres de bebida e discussões familiares, Thomas Vinterberg realiza uma obra que transita entre o real e o surreal, além de muito relevante.


Título Original: Druk

Direção: Thomas Vinterberg

Duração: 117 minutos

Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Lars Ranthe, Magnus Millang, Helene Reingaard Neumann, Maria Bonnevie, Susse Wold, Magnus Sjørup, Silas Cornelius Van, Albert Rudbeck Lindhardt, , Gustav Sigurth Jeppesen, Martin Greis-Rosenthal, Frederik Winther Rasmussen, Aksel Vedsegaard, Aya Grann

Sinopse: Quatro professores de ensino médio lançam um novo experimento: manter um constante nível de álcool no sangue para ver no que vai dar.

Trailer:

Druk é um dos principais filmes na corrida do Oscar de Língua Estrangeira. O que você espera nessa temporada de premiações? 
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