Black Christmas e a Ascensão do Slasher


Em 1978, John Carpenter se estabeleceu como um dos maiores diretores do cinema de horror ao lançar o icônico Halloween: A Noite do Terror, um grande sucesso de crítica e bilheteria que viria se tornar um dos maiores clássicos do terror, em particular, do subgênero slasher, alavancando toda uma franquia. Mas quatro anos antes da estreia do filme que lançou a carreira de Jamie Lee Curtis, uma outra grande obra de terror era lançada e iria influenciar extremamente o trabalho de Carpenter. Essa obra era o filme Black Christmas (ou Noite do Terror no Brasil) do diretor canadense Bob Clark.

Embora Halloween seja imensamente mais conhecido entre os fãs do cinema de terror, ele se apoiou muito em ideias exploradas na obra canadense. Halloween foi o responsável por impulsionar de vez o slasher, mas foi graças a Black Christmas que o gênero encontrou espaço no cinema. Basicamente todos os clichês conhecidos do subgênero, que às vezes são até atribuídas à obra-prima de Carpenter, foram, na verdade, estabelecidos previamente no filme de Clark. 


Claro que nenhum desses conceitos foram inventados em Black Christmas, vários deles foram sendo estabelecidos desde Psicose até os giallos italianos de Mario Bava, mas foi Clark, com sua direção minuciosa, que conseguiu emplacar de vez os preceitos que anos depois ficariam conhecidos no subgênero slasher: o maníaco assassino que mata suas vítimas implacavelmente; as jovens vítimas em sua maioria feminina; as cenas vistas do ponto de vista do assassino. E é claro, o maior símbolo do slasher: a final girl, a única sobrevivente do antagonista.
 
A premissa de Black Christmas já é bastante conhecida. O longa acompanha um grupo de jovens universitárias que moram juntas em uma casa e são atormentadas por ligações de um maníaco desconhecido na véspera de Natal. A princípio consideram que sejam apenas trotes, mas logo algumas delas começam a desparecer. Assim como no filme de Carpenter, o assassino ataca uma por uma até o embate final com a final girl, interpretada por Olivia Hussey. 


Diferente do icônico vilão de Michael Myers, o antagonista de Black Christmas se apresenta muito mais pela voz do que visualmente. Durante os 98 minutos de duração, só chegamos perto de ver o antagonista, Billy, uma única vez. E apenas seu olhar ameaçador é possível ser visto através da porta entreaberta, aterrorizando a protagonista Jess. Durante a maior parte do filme somos apresentados a Billy através de suas ligações macabras feitas para a casa enquanto o mesmo se esconde no sótão. As ligações aparentemente são desconexas e incoerentes, com Billy descrevendo certas lembranças possivelmente sobre sua infância. Tudo isso com uma voz intensa e aguda e gritos quase animalescos.


O público tem acesso a informações durante o filme que os personagens não tem, e isso contribui para sensação de ansiedade e impotência durante as sequências de tensão. Sabemos que as personagens estão em perigo iminente,  e nada pode ser feito a respeito disso. Assim, Black Christmas desenvolve sua atmosfera de suspense inteligentemente, nos fazendo sentir o desespero das vítimas. E diferente de muitos slashers que o sucederam, o filme de Clark constrói suas personagens de maneira realística, fazendo com que o público crie facilmente empatia por elas e sinta a dor de suas mortes. 

Os slashers que vieram posteriormente e se popularizaram na década de oitenta como A Morte Convida para Dançar e Chamas da Morte simplesmente usam o tormento de seus personagens para chocar ou criar sequências elaboradas de violência, mas não se empenham de verdade em criar um vínculo emocional entre o público e as vítimas. Já Black Christmas se aprofunda no desenvolvimento de suas protagonistas e as representa como indivíduos multidimensionais, e não apenas corpos esperando o abate.


O filme canadense também rompeu com os clichês antes mesmo deles existirem. Um exemplo é a sua final girl Jess que foge do ideal virginal que Carpenter estabeleceria eventualmente em Halloween com Laurie Strode (embora esse preceito não tenha sido criado intencionalmente). A protagonista do filme de Bob Clark pode ser considerada até bastante progressista para época por discutir explicitamente sobre aborto. Além disso, o filme não cria um argumento de julgamento contra ela, Jess é simplesmente uma mulher exercendo  um direito sobre seu próprio corpo. Além disso, ela não reage passivamente diante da presença masculina. Jess não é a donzela indefesa esperando o resgate, muito pelo contrário, a personagem se impõe e se defende sempre que necessário, conseguindo a princípio se livrar do vilão. 


Black Christmas não foi o primeiro filme a trazer as características que construíram o slasher. Sem proto-slashers como Psicose de Hitchcock ou Seis Mulheres para o Assassino de Mario Bava o subgênero nem existiria. Mas o slasher canadense foi fundamental em determinar a presença desse gênero de terror no cinema e criar grandes sucessos não só como Halloween, mas também Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Pânico

O filme de Clark não foi um grande sucesso a princípio, mas eventualmente conquistou o público com sua atmosfera inquietante, suas cenas dos telefonemas perturbadores de Billy (que eventualmente serviriam de inspiração para When a Stranger Calls) e, é claro, seu icônico e angustiante final ambíguo. Black Christmas foi o filme que plantou efetivamente a paranoia de que aquele rangido estranho vindo de outro cômodo talvez não seja apenas um barulho.


Titulo Original: Black Christmas

Direção: 98 minutos

Duração: Bob Clark

Elenco: Olivia Hussey, Margot Kidder, John Saxon, Keir Dullea e Andrea Martin

Sinopse: Na noite da véspera de Natal, um grupo de jovens universitárias é atormentado por ligações estranhas. E para o seu desespero, as ligações vinham de mais perto do que elas esperavam.
 
Trailer:

Um dos melhores slashers de todos os tempos!





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