Crítica: Mignonnes (2020, dir. Maïmouna Doucouré)

 


É consideravelmente comum encontrarmos no cinema exemplos de obras que intentam transmitir certas ideias, mas que o fazem de uma forma pela qual a linguagem não se constrói devidamente e o projeto acaba por exibir uma estética em oposição ao discurso narrativo. Alguns filmes como The Square, Green BookSantiago e Tropa de Elite compõem esse amplo leque de produtos que buscam criticar determinado assunto, porém, devido à má execução, tornam-se muitas vezes objeto de sua própria e suposta crítica. Para somar a essa longa lista, Mignonnes, novo filme da Netflix que tem gerado muitas discussões, insere-se na mesma linha do cinema executado com diversas contradições.

A narrativa acompanha o crescimento de Amy, uma garota senegalesa, oriunda de uma tradicional família muçulmana, em processo de autoconhecimento na França, país em que se muda com a mãe e os irmãos. Durante a primeira metade do filme, é possível observar e compreender o que a diretora, Maïouma Doucouré, quis transmitir através da composição cênica: o processo de amadurecimento de uma garota em meio a culturas contrastantes e, somado a isso, a construção de um processo de individualização do sujeito através de uma identificação com algum grupo, ou seja, uma busca por uma pertença. Em outras palavras: a ideia básica de um coming-of-age com a autodescoberta juvenil e suas tensões relacionadas às influências diversas. E é no coletivo que se encontra Amy: o grupo de dança das meninas de onze anos da escola, as Mignonnes - algo que remete, de certa forma, ao poderoso Bom trabalho, da francesa Claire Denis.


A problemática surge quando os elementos característicos da metamorfose corporal e espiritual, a saber, as marcas de transição da juventude, são condenados a aparecer na trama unicamente como signos supostamente codificadores de certo simbolismo tradicional relacionado ao gênero, sem diretamente exercer uma influência sobre a construção discursiva da narrativa. Muito do que é apresentado relacionado à figura de Amy é remanejado a incidir unicamente como signo de maneira esporádica e episódica, esvaziando a potencialidade de uma narração envolvida em transmitir aqueles ideias com a elaboração formal. Assim, toda a encenação das mudanças entre infância e juventude da personagem é relegada a aparecimentos ocasionais que não possuem força suficiente para se unificar em um todo sólido: as cenas com a mãe (as tensões e os bons momentos), as descobertas do mundo adulto através de objetos, vestimentas e maquiagens, a interação com os irmãos e os adolescentes. Tudo soa jogado em meio à trama para, em uma colcha de retalhos, formar a síntese do momento de amadurecimento. O filme é, então, pensado em um caminho, mas elaborado de um modo totalmente diferente. E isso se reflete justamente no grande ponto de polêmica da obra: a encenação sexualizada dos corpos infantis.

Após a metade que busca se estabelecer, ainda que de maneira frágil, como um coming-of-age tradicional e, ao mesmo tempo, contemporâneo, surgem os momentos de tensão corporal inseridos na narrativa através da grande matéria em tese libertadora: a dança. É aqui que o filme se decide pelo caminho específico que pegará a trama pela mão e a guiará em direção a sua conclusão. É aqui, também, que Amy se encontra, insere-se e parte em busca de sua almejada libertação. E é aqui, justamente, onde a direção se desconecta bruscamente da proposta para se enveredar por uma formalização totalmente oposta àquela que procurava esmiuçar criticamente.


A encenação dos corpos com a coreografia é formulada a partir de uma extrema estilização das imagens que se utiliza de uma câmera deslizante, replicadora do lugar-comum de tradicionais clipes musicais que evidenciam o corpo de maneira sexualizada antes do próprio elemento cênico. As imagens adotam uma posição de glamourização e espetacularização das figuras corpóreas que, a princípio, pode parecer irônica, mas que se aprofunda cada vez mais em um retrato cujo caminho culmina em quase que uma afirmação daquele estilo. O corpo infantil aqui é retratado a partir desse olhar estilizado: os close-up intensos em certas partes, as filmagens individuais de cada garota em meio à dança, a música que extrapola a diegese e condensa toda uma noção de espetáculo relativa a clipes musicais. Dessa maneira, o pretenso comentário crítico sobre a sexualização daqueles corpos, que surge quase que improvisadamente no longa, entra em contradição com a própria forma do filme, que enfatiza essa exploração. A diretora, ao optar pela linguagem expositiva, que visa deixar para o espectador a própria construção do juízo crítico, termina por criar uma armadilha para sua própria obra. 

Toda essa opção de encenar culmina em, além da criação de um paradoxo entre as ideias esboçadas e a forma, um enfraquecimento, por exemplo, do clímax dramático do filme. A opção de Doucouré com a cena da dança final soa extremamente problemática pelo fato de nela coexistirem simultaneamente a imagem estilizada e sexualizada dos corpos e a reação pífia da plateia como único elemento de contraposição ao discurso criticado. Chega ao nível do ridículo, pois a força-motriz que supostamente conduziria à reflexão crítica é falha e o choro surge como elemento singular, desconectado do resto do filme. A encenação não constrói o caminho para este clímax que se torna, no máximo, uma redenção vazia.

Somando-se a todos esses problemas de formulação, a tradição é representada aqui de uma forma extremamente caricata e pobre. Todo o discurso se sustenta sobre um binarismo simplista: a tradição do Islã da família em oposição à modernidade que se aparenta libertadora, mas na verdade apenas sobrevive em cima de elementos moralmente contestáveis. Portanto, o signo tradicional é escrachado durante todo o longa, forçado a assumir um papel de antagonista através de uma crítica vazia e rasa, que faz com que a dimensão de oposição à protagonista se reduza a momentos pontuais, existentes unicamente em função do objetivo idealizado por Doucouré.


Mignonnes é um filme que se constrói sobre boas intenções, que se pretende uma obra de grande potência para se debruçar dramaticamente sobre assuntos delicados e severos. Mas ao optar por seguir certas opções formais, perde-se totalmente em um emaranhado de escolhas erradas que deslocam a discursividade narrativa do discurso estético, criando um vácuo estilístico avassalador. O que fica é uma obra que, além de mal realizada, abre margem a diversas atitudes problemáticas por parte de um público esvaziado, como os boicotes sem sentido a seu consumo. Um filme de boas intenções, mas das quais o Inferno, por exemplo, está cheio.


Título Original: Mignonnes

Direção: Maïouma Doucouré

Duração: 95 minutos

Elenco: Fathia Youssouf, Medina El Aidi, Esther Gohourou, Ilanah

Sinopse: Amy tem 11 anos, e se junta a um grupo de dançarinos na escola, e rapidamente se conscientiza de sua florescente feminilidade - perturbando sua mãe e seus valores no processo.

Trailer:

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Gabriel Zupiroli

Estudante de literatura, escrevo sobre cinema para os sites "Minha Visão do Cinema" e "Clube da Sétima Arte".

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