Atleta A - Quando o Patriotismo e o Abuso Sexual andam Juntos (2020, de Bonni Cohen e Jon Shenk)



Ao final do documentário Atleta A, da Netflix, a sensação que fica é de revolta, nojo e impotência. Mas também, é necessário fazer outra constatação: o fato do  assédio e abuso sexual geralmente surgem a partir de figuras machistas e deturpadas, que normalmente são patriotas, conservadores, de certa posição social, os chamados "homens de bem".  Não estou aqui sendo demagogo ou generalizando. É um fato, nas últimas décadas são milhares os casos de denúncias onde pode-se fazer tal relação. Muitos desses casos viram reportagens, filmes e documentários, como esse.

Atleta A mostra como Larry Nassar, um conceituado médico olímpico da equipe de ginástica dos Estados Unidos, abusou sexualmente de centenas de crianças e jovens mulheres atletas, durante os anos em que trabalhou para a federação oficial do país, e como alguns dos seus superiores o acobertaram por anos, para não manchar a reputação dos treinadores. Até o FBI é investigado de ter "passado pano" para tais fatos no passado. O cerco somente se fechou em anos mais recentes, devido as mudanças que vem ocorrendo na sociedade de não se aceitar mais tais condutas, não importa o status e o poder da pessoa, ou se isso irá sujar a imagem de um país. 

Larry Nassar abusou sexualmente de centenas de mulheres, na maioria ginastas da liga nacional das olimpíadas. 

Pautado em entrevistas e cenas olímpicas, é assustador ver, mesmo sem nada explícito, a quantidade de meninas que foram violadas por esses "patriotas e profissionais" e como algumas que tentaram fazer denúncias - em especial a tal "atleta A" -, foram desligadas da liga nacional, mesmo sendo as melhores opções. Em um país moralmente doente, cortam a vítima, em vez do culpado. 

Apesar da forte temática, o longa tem seus momentos de esperança. Esses chegam nas cenas em que as mulheres finalmente ganham voz no tribunal e acusam seu agressor, com a ajuda da equipe de jornalistas investigativos. É um momento de êxtase ver elas encararem de frente os outrora "poderosos", agora caídos. Mas ainda é difícil não ficar incomodado como pessoas perigosas, mas de grande destaque em um governo, um esporte, uma empresa ou algum grande meio, podem acabar sendo defendidas por forças maiores. E isso vem de séculos.

Steve Penny, presidente da federação de ginástica nacional, foi o "chefão" que acobertou os abusos sexuais.

Dar voz às vítimas da violência sexual ou qualquer outra causa social não é "lacração" ou tendencialismo midiático. É retratação histórica. Na verdade, "lacração" e outros termos semelhantes são utilizados, justamente, pelas pessoas capazes de cometer ou esconder tais atrocidades. E ao assistir a esse documentário, ao mesmo tempo em que ficamos felizes pelas vítimas ganharem voz, também percebemos o quanto existe de podridão em países cujas políticas estão em rumo ao conservadorismo, o patriotismo exacerbado, aquela máxima da bandeira, da bala, do dinheiro e do poder acima de tudo, acima dos menores, das mulheres e dos seus corpos. Em nome de uma reputação de uma organização e de medalhas, centenas de mulheres foram vítimas da covardia do "homem de bem". 

Não é atoa que segundo o Thomson Reuters Foundation e a ONUos Estados Unidos está em 3° lugar entre os países que mais estupram mulheres, ao lado de países conturbados de 3° mundo, como o Afeganistão (também extremamente conservador). E o Brasil não fica atrás, aqui nas Américas, ele só perde para os Estados Unidos nas taxas de pedofilia e violência física, emocional e sexual contra as mulheres. Somente em 2018, foram cerca de 180 casos por dia, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Lembrando que de 2019 pra cá alguns tipos de relatórios como o de violência contra a mulher e crimes de ódio (LGBTQ, racismo, etc), não tem sido divulgados pelo conservador governo Bolsonaro. Somente um dos muitos podres que está sendo varrido para baixo do tapete. Somente se sabe que agora, durante o isolamento social da pandemia, algumas regiões aumentaram 70% das denúncias desse tipo de crime. Porém, estima-se que menos da metade dos crimes são denunciados, por medo de retaliação da vítima, já que na maioria das vezes, os culpados são homens da família. Essa é apenas a "ponta do iceberg".

Uma das vítimas da equipe de ginástica nacional, finalmente ganhando voz. 

Portanto, documentários investigativos como Atleta A tornam-se extremamente necessários, para escancarar verdades que muitos preferem acobertar. O longa é tecnicamente bem executado, com uma excelente montagem e edição das cenas que não deixa você desgrudar da linha narrativa; e uma trilha sonora emocionante. O roteiro é limpo e direto, conduzindo a narrativa naquilo que importa que saibamos. Inclusive, também trazendo algo além dos abusos sexuais, os abusos de violência física que as atletas sofrem no treinamento, algo infelizmente comum em muitos esportes. Como se medalhas e fama justificassem toda forma de abusos cometidos por treinadores e autoridades. É aquela retórica de que "os fins justificam os meios", algo que cada vez mais se revela errado.

Essa joia documental é um soco no estômago e um registro da força feminina, que sobrevive e luta em um mundo masculino e sujo. E mesmo com todos os traumas, elas seguem adiante, até mesmo voltando a praticar o esporte que amam. Ginastas, verdadeiras artistas maiores que o sistema que as machucou. E é para estas que temos de dar voz, virar os holofotes e bater palmas. Mas não é só isso, temos que combater qualquer tipo de poder e conservadorismo cego e tóxico, que visa o lucro acima da vida das pessoas. Isso é ser alguém de bem. Isso é retratação histórica...




Título Original: Athlete A

Direção: Bonni Cohen e Jon Shenk

Duração: 103 minutos

Elenco: Maggie Nichols, Jerry Moran, Jennifer Sey.

Sinopse: Em Atleta A, acompanhamos os depoimentos dos repórteres que evidenciaram a história sobre os abusos sexuais cometidos pelo médico da equipe nacional de ginástica dos EUA, Larry Nassar, e também o depoimento de grandes ginastas, como Maggie Nichols.

Trailer:


Assistiu ao documentário? Não? Está esperando o quê, é só ir lá na Netflix!

Léo Costa

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