Crítica: Os Outros (2001, de Alejandro Amenábar)


Tendo assistido Os Outros diversas vezes quando criança, decidi recomendar o filme para o Especial Filmes para Assistir no Inverno. Revisitando o filme, entretanto, percebi que o mesmo é um caso interessante de uma história simples cujo impacto é bastante intensificado por sua execução. É a partir desse aspecto que irei falar sobre Os Outros na crítica a seguir.


Em Os Outros, acompanhamos Grace (Nicole Kidman) e seus filhos Nicholas (James Bentley) e Anne (Alakina Mann). Devido ao fim recente da Segunda Guerra Mundial e a uma rara sensibilidade das crianças à luz solar, os três vivem em isolamento em uma enorme mansão. Quando as crianças começam a falar sobre fantasmas, Grace culpa os empregados novos da casa, mas uma série de eventos cada vez mais perturbadores a faz acreditar que algo sobrenatural possa estar acontecendo. 

Embora Os Outros seja, em sua essência, um filme de terror, o roteiro sempre prioriza os personagens e a construção geral da história como uma tragédia. Dessa forma, o filme busca criar a tensão ao redor das circunstâncias físicas e emocionais da família, sejam essas circunstâncias a pressão extrema sobre Grace ou a rigidez com a qual ela trata as crianças, sempre parecendo estar a um passo da loucura. Essa preferência por construir o horror como uma camada extra sobre o drama familiar desacelera o filme, mas também o torna muito mais eficaz em carregar o significado emocional dos acontecimentos para os personagens.  

O momento em que o marido de Grace, Charles (Christopher Eccleston), retorna da guerra é um bom exemplo de como o filme equilibra seus elementos de horror com o drama familiar. Nesse ponto da história, Grace já experienciou inúmeras portas que se abrem sozinhas e barulhos inexplicáveis, de forma de que a existência de algo sobrenatural na casa parece indiscutível. Mesmo assim, o filme “pausa” esse aspecto da história para focar no retorno do pai e, quando retorna aos elementos de terror, a trama tem outro significado e outro peso, embora tenha perdido um pouco da tensão construída até então.

Um dos fatores que auxiliam o filme a manter o equilíbrio entre seus elementos mais melodramáticos e o horror é a capacidade de Nicole Kidman em incorporar o peso sobre os ombros de Grace. Ela não tem dificuldade alguma em alternar entre a rigidez e o carinho pelos filhos, entre os acessos de fúria e a culpa que surge depois, revelando uma fragilidade cada vez maior. Novamente, o retorno de Charles afeta a história aqui, pois dá a Grace um momento quase singular de desespero e tristeza, onde ela culpa o marido por ter abandonado a família ao ir para a guerra. 


O diretor Alejandro Amenábar usa diversas ferramentas para cuidadosamente construir uma atmosfera de mistério, horror e tragédia em Os Outros. Grande parte das sequências mais tensas do filme são bastante simples em termos de acontecimentos: Grace ouve um barulho e o investiga, eventualmente chegando a alguma conclusão perturbadora. É através do foco nos personagens e de sua execução, entretanto, que Amenábar consegue refinar essas sequências e torná-las muito mais marcantes.

Esse cuidado é exemplificado pela forma como a sensibilidade das crianças à luz e o isolamento dos personagens na mansão influenciam a apresentação visual do filme. A impossibilidade de estar em ambientes iluminados com luz natural e a constante necessidade de supervisão faz com que os personagens geralmente estejam em ambientes escuros, iluminados apenas pela chamada alaranjada de uma lâmpada a óleo. Quando há luz natural, ela é branca demais, com a fotografia do filme frequentemente pendendo para tons verdes, o que traz uma sensação de esterilidade e frio para os ambientes, além da presença constante de névoa nos exteriores da casa. Amenábar soma a isso um trabalho de câmera deliberado e paciente, usando tomadas longas para extrair o máximo de tensão de cada sequência do filme.

De forma semelhante, o filme utiliza todos os ruídos usuais de uma mansão antiga: portas que rangem, passos que ecoam por salões imensos e vazios, exceto que o silêncio usual do espaço faz com que esses ruídos tomem uma dimensão muito maior. A trilha sonora, então, pontua momentos específicos da história, misturando o que se espera de uma trilha de filme de terror com um certo tom de aventura e curiosidade.


Através do uso cuidadoso e eficiente dos recursos que o cinema oferece, Os Outros consegue criar uma história repleta de tensão. Seu ritmo mais deliberado pode não agradar a todos, mas é uma parte fundamental do funcionamento da narrativa e da construção de uma atmosfera que transmite a sensação de desespero, medo e tristeza pela qual os personagens passam.

A partir desse ponto, irei discutir alguns pontos relacionados a revelações que acontecem no final da história. Embora o filme tenha quase vinte anos, se você leu até aqui e ficou interessado, recomendaria que assistisse o filme antes de prosseguir.

SPOILERS


Os Outros contém duas reviravoltas em sua trama: a primeira é que os empregados estão mortos e a segunda é que Grace, em um acesso de fúria, assassinou as crianças e então se suicidou. Ela acordou logo depois do evento, acreditando que aquilo tudo havia sido um pesadelo, mas ela e as crianças parecem ter uma vaga noção de um momento extremo no passado (que é mencionado algumas vezes na trama). Os supostos invasores da casa são, na verdade, moradores vivos que estão lidando com os espíritos de Grace, das crianças e dos empregados. 


Ciente da importância de ter uma reviravolta que se relacione de forma orgânica com o que veio antes, o roteiro do filme usa diversos momentos anteriores à reviravolta para criar paralelos e associações com as informações reveladas na conclusão da história. Após um momento de fúria, por exemplo, Grace pede perdão a Anne, e é apenas após a revelação final da história que esse momento passa a ter um significado muito maior e muito mais mórbido, em grande parte pela atuação de Kidman ser capaz de transmitir com tanta força a tristeza e a culpa de Grace. 

Infelizmente, o único ponto realmente negativo da história surge no momento da revelação final. O contexto aqui é que os personagens vivos realizam um ritual para atrair as crianças e descobrir o que aconteceu, levando a revelação dos atos de Grace e à realização das crianças de que elas estão mortas. É um grande momento, e a reviravolta é muito bem executada, exceto por uma cena extremamente desnecessária de exposição na qual os personagens vivos mastigam tudo que aconteceu, sugando completamente o impacto da revelação. Esse momento se torna mais supérfluo ainda quando logo em seguida temos uma cena em que Grace confessa tudo para seus filhos de uma maneira muitíssimo mais impactante. Não chega a ser algo que acaba com o momento, mas poderia facilmente ter sido removido.


Título Original: The Others

Direção: Alejandro Amenábar

Duração: 104 minutos

Elenco: Nicole Kidman, Fionnula Flanagan, Christopher Eccleston

Sinopse: Isolada em uma mansão com seus filhos e os empregados, Grace (Nicole Kidman) precisa desvendar o que há por trás dos acontecimentos estranhos na propriedade.

Trailer:

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