A Equipe Comenta: Destacamento Blood (2020, de Spike Lee)






Léo Costa:

É interessante o momento em que Destacamento Blood chega com grande visibilidade na Netflix, em pleno momento de manifestações contra o antigo racismo presente no mundo, especialmente nas Américas, onde policiais criados por um sistema racista matam as pessoas negras sem pensar duas vezes. Isso em plena pandemia mundial, onde milhares estão perdendo as vidas, e note: a maioria dos mortos pertencem à classe baixa, empregados, pessoas humildes, de localidades pobres e muitas vezes, comunidades negras. A desigualdade social e o racismo são abismos que cada vez mais engolem a todos. Spike Lee, um dos cineastas mais ativos na representação negra em Hollywood, que recentemente estourou com o fantástico Infiltrado na Klan (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original), traz novamente mais uma alucinante manifestação em forma de filme.

Embora menos brilhante que o filme anterior, ainda é um sagaz e feroz conto de como o negro é desvalorizado, diminuído e esquecido na sociedade, mesmo quando eles são usados pela força e capacidade, como no caso da Guerra do Vietnã, que é o foco do filme. Misturando realidade e ficção, com tons cartunescos na violência, mas extremamente humanos nas poderosas atuações, o longo filme custa um pouco a engrenar (cabia aqui uma melhor edição e montagem). Mas a boa direção de Lee, as tão elogiadas atuações (especialmente Delroy Lindo, que aqui é uma força da natureza) e as sempre urgentes críticas políticas e sociais fazem deste um dos melhores filmes do ano. E a obra mais importante até então. 

Nota: 8,5


João França:

Spike Lee nunca decepciona. Desta vez ele vai além e estreia seu novo longa no fervor de um tema que jamais deve ser amornado! Destacamento Blood joga nas nossas caras de forma impiedosa não só o todo já deprimente preconceito racial; mas, ainda como tantas e tantas histórias heroicas (ou não) que os EUA gostam de contar, tem um lado ainda mais perverso do que podemos imaginar. A Guerra do Vietnã causou uma síndrome generalizada em terras norte-americanas após a derrota dos aliados, e é nessa ferida que Spike Lee quer mexer, afinal, aqui ele encontra um bom ponto de partida, comum a todos os americanos. As cenas iniciais são de embrulhar o estômago e nos convida para a realidade do que este filme tem a nos dizer, e se engana quem acha que são apenas as cenas reais iniciais a causar este incômodo, Spike Lee faz questão de reviver horrores de guerra durante as pouco mais de 2 horas de projeção.

Para isso, ele utiliza de uma excelente fotografia do experiente Newton Thomas Sigel e de variações nos formatos de gravação para as cenas da época da guerra e das atuais, mas falar esteticamente dos filmes de Spike Lee seria chover no molhado. Além dos já usuais acertos, ele se faz valer de uma atuação irrepreensível de Delroy Lindo (sinto cheiro de muitas indicações) e de um roteiro genial. A utilização do boné vermelho com os dizeres “Make America Great Again”, que funciona perfeitamente como um elemento chave para o entendimento do último ato, e o fato de um dos veteranos de guerra ter apoiado Donald Trump, são cerejas deste roteiro que fazem deste filme uma das melhores e sem dúvidas a mais necessária estreia até o momento.

Nota: 8,5


Karine Mendes:

Spike Lee! Esse grande diretor possui um estilo único de trabalhar seus filmes, sempre trazendo uma aula sociocultural e política que nos proporciona um turbilhão de informações ligadas ao que significa ser uma pessoa negra nos EUA. E Destacamento Blood não poderia ser diferente, o filme fala de um assunto super conhecido, a Guerra do Vietnã, mas sob uma perspectiva pouco discutida: soldados negros que tiveram que lutar nessa infame guerra com a promessa de uma liberdade que nunca foi de fato cumprida. E assim vamos acompanhando cinco homens (Delroy Lindo, Norm Lewis, Clarke Peters, Isiah Whitlock Jr e Jonathan Majors), sendo que quatro são veteranos de guerra e o outro é filho de um deles. Já nos primeiros minutos vemos que se trata de um filme forte devido às imagens de acontecimentos reais que aparecem na tela. E, durante o longa, surgem fotos de personalidades do movimento negro em contraposição à história fictícia, como uma espécie de lembrete de que o que estamos assistindo faz parte da vida real e nem tudo é somente inventado. A forma como isso acontece, na montagem, pode parecer um tanto excessiva em termos técnicos, mas o que realmente vale é o significado da escolha: honrar a memória dessas pessoas e lhes dar a importância que merecem.

O diretor faz uso de seus característicos jogos de câmera e humor ácido, apresenta seus personagens em momentos de distração, brincadeiras e tensões, chegando à surpresas que podem até mesmo assustar. A construção narrativa lembra, em certos pontos, o filme de 1989, Faça A Coisa Certa, também de Spike Lee, e ambos os longas se concentram em mostrar um ponto de vista crítico baseado em experiências de vida. Outra coisa interessante é como a trilha sonora se insere na própria narrativa, o que dá um ar muito mais descontraído às cenas. Destacamento Blood se junta à lista de filmes necessários da filmografia de Spike Lee, que expressa a verdade e denuncia o racismo. Infelizmente, ele é um dos poucos diretores negros com nome conhecido. Apoiem e busquem conhecer mais. Vidas Negras Importam, fiquem seguros.

Nota: 8


Antonio Gustavo:

Destacamento Blood, novo longa de Spike Lee, possui bastante estilo, é tecnicamente impecável e narrativamente poderoso. O diretor, além de estar mais afiado do que nunca, se mostra confortável em não só fazer homenagens a clássicos do gênero, mas também em expor em tela os verdadeiros horrores da Guerra do Vietnã. O filme ainda constrói perfeitamente a sensação de estarmos na guerra, através da fotografia, trilha sonora, montagem e em todo o riquíssimo design de produção, que criam momentos realmente belíssimos em meio a todo o caos em que os personagens vivem e que nos transportam diretamente para suas jornadas; nos fazendo sentir na pele o cansaço, a revolta, a tensão e os repetidos conflitos dos mesmos.

A trama é construída de maneira orgânica e sem rodeios, junto à ela, temos ainda a temática das questões raciais. O diretor não deixa o tom se perder em nenhum momento ao abordá-las e explora toda a complexidade dessas, nos apresentando diferentes pontos, como um homem negro que votou em Donald Trump e todas as psiques dessa personagem. Aliás, o modo com que ele trabalha os mesmos, bem como trata seu múltiplo elenco é outro destaque da obra, principalmente para Delroy Lindo que está fenomenal, aqui. Em poucas palavras, em Destacamento Blood temos Spike Lee pegando tudo que já fez de melhor em sua carreira e elevando ainda mais, nesse que com certeza não é só um dos melhores trabalhos de sua filmografia, mas também um dos principais lançamento do ano. 

Nota: 9,5 


Luc Da Silveira:

Sempre se renovando, mas nunca deixando de debater criticamente sobre como a sociedade trata pessoas negras, Spike Lee traz uma nova visão sociológica em Destacamento Blood, sendo elas as feridas da Guerra do Vietnã pela perspectiva racial. Em seu primeiro ato, temos uma introdução que, ainda um tanto confusa, se permite trazer diversas informações que serão desenvolvidas em suas demais partes. É como um tabuleiro montado: depois de iniciado o jogo, perdemos o fôlego e não conseguimos tirar os olhos da tela.

Tal cadenciamento narrativo causa a muito bem orquestrada imersão, para que com organicidade, Lee possa trabalhar cada camada de seu roteiro: a amizade entre seus protagonistas, as marcas deixadas pela guerra, patriotismo, a exclusão sociopolítica das pessoas negras sob a perspectiva bélica e até toques de ambientalismo aqui e ali, quase nunca caindo no óbvio. Com um emaranhado complexo, mas nunca exaustivo, o cineasta crava mais uma vez seu ponto de vista de maneira didática, ácida e necessária, que aliado ao primor estético da fotografia de Newton Thomas Sigel e da marcante atuação de Delroy Lindo, faz de Descamento Blood o melhor filme do ano até agora.

Nota: 8,5

Nota média geral:





Título Original: Da 5 Bloods

Direção: Spike Lee

Duração: 154 minutos

Elenco: Delroy Lindo, Veronica Ngo, Jonathan Majors, Paul Walter Hauser, Clarke Peters, Isiah Whitlock Jr., Mélanie Thierry, Jasper Pääkkönen, Chadwick Boseman, Jean Reno, Norm Lewis.

Sinopse: O vencedor do Oscar, Spike Lee, apresenta Destacamento Blood — a história de quatro veteranos da Guerra do Vietnã: Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock, Jr.). Acompanhados do filho de Paul (Jonathan Majors), eles retornam ao Vietnã em busca dos restos mortais do líder de seu esquadrão (Chadwick Boseman) e de um tesouro escondido.


Trailer:




E você, assistiu a esse filmaço? Não? Corre na Netflix!

Nenhum comentário:

Postar um comentário