Crítica: Viver a Vida (1962, de Jean-Luc Godard)


Uma noção de liberdade posta em cheque.

Após estrear na direção de longa-metragens com Acossado (1960) e lançar o bom, mas discreto Uma Mulher é Uma Mulher, em 1961, Jean-Luc Godard incide em uma via de mão-dupla cinematográfica e produz Viver a Vida (1962), filme em que, ao passo que progride pela subversão de uma linguagem cinematográfica tradicional na busca de explorar um "cinema de autor", investiga uma temática voltada para uma questão social enquanto tenta alinhar suas posições com pensamentos existenciais: a prostituição.

Viver a Vida acompanha Nana, uma mulher que decide se separar do esposo e seguir um ideal de vivência em função da busca da felicidade pautada em uma suposta liberdade. Ao decorrer do longa, acompanhamos lentamente sua decadência econômica e a forma como recorre à prostituição para poder se sustentar. Mas ao contrário do que uma breve sinopse pode implicar, Godard está muito menos interessado em uma análise sociológica ou mesmo melodramática das condições da prostituição na França dos anos 60, do que em uma investigação sobre os bastiões morais definidos através justamente dessas duas ideias: ser feliz e ser livre.



A primeira mudança perceptível na breve filmografia do diretor está na elaboração do tom. Toda a encenação, ainda que a experimentação imagética seja realizada com um caráter lúdico como anteriormente, é voltada para uma dramatização mais carregada, o que pode ser observado desde os planos iniciais do rosto de Anna Karina com a música que evoca uma tensão sentimental, algo que remete muito ao melodrama. É notável o interesse de Godard em se debruçar sobre o gênero dramático em detrimento da comédia, e o longa transita em vários momentos entre uma leveza inocente (que aspira à mencionada suposta e frágil "liberdade") e uma filmagem que busca um distanciamento das características tradicionais do gênero, às vezes quase de maneira soturna.

Mas o que está em jogo aqui é, sobretudo, algo muito característico da filmografia de Godard durante a Nouvelle Vague: observar o que compõe uma juventude que aspira a ideais inspirados em filosofias ocidentais em sua busca por um lugar. E Viver a Vida evidencia muito bem essa noção desde a cena em que Nana decide se separar, em que vemos apenas as costas das personagens, em uma oposição a uma dramatização clássica que subverte inclusive a própria ideia da separação, até a própria estrutura da narrativa decadente da personagem, que é cada vez menos lúdica e mais dramática. É um filme que se esboça nesse declínio, ainda que de maneira muito sutil, pois a própria prostituição é tratada ora de maneira inocente, ora como um jogo, ora como algo degradante.



Mas Godard consegue ir além de uma possível análise moralizante quando questiona seus próprios aparatos questionadores através da imagem. Uma desconstrução dos planos que acompanha essa desconstrução da ideia. Não se pode contar uma história de investigação como essa utilizando os recursos clássicos, é necessário investigar seus próprios meios. O filme passa assim a uma instância maior ao debater a noção de uma felicidade possível. É possível? Nana faz as escolhas certas (que sutilmente são demonstradas como resultado de um sistema capitalista, anulando uma possível liberdade)?

Por mais que, por vezes, a ambiguidade discursiva da direção torne o filme um pouco cansativo e ponha em dúvida suas ideias, há duas sequências em que há um apogeu imagético e narrativo em que a abordagem se clarifica. Em uma delas, Nana faz diversos questionamentos sobre a vida da prostituição, o que, de certa maneira, marca uma passagem no filme e uma introdução a uma tonalidade que possui menos leveza. Enquanto questiona, a montagem transforma a própria atitude do trabalho sexual em algo banalizado ao recortar os planos como se compusessem uma ação cotidiana. Em outro momento, há uma longa conversa entre a personagem e um filósofo que conhece em um bar, onde um longo discurso sobre essa felicidade, a ideia de liberdade e, consequentemente, o amor é lindamente filmado, de maneira a evidenciar pela língua as suposições e a impossibilidade de verdade resultante desses temas.



E é a língua que surge como elemento motor de tudo. Desde a divisão do filme em doze capítulos, anunciados por letreiros que descrevem as ações, até as discussões e a própria linguagem cinematográfica que decupa o filme. A ideia de uma suposta liberdade é colocada em cheque por Godard a todo momento através da constante degradação das escolhas de Nana. Sua decadência evidencia a falência de um discurso de felicidade que não encontra respaldo em uma liberdade inexistente e que está aprisionado a um sistema. Há, ainda, um último apelo à instância moral: será o amor? Não, o que resta, ao fim, é apenas língua, linguagem, viver a vida.



Título Original: Vivre sa Vie

Direção: Jean-Luc Godard

Duração: 83 minutos

Elenco: Anna Karina, André S. Labarthe, Sady Rebbot, Guylaine Schlumberger

Sinopse: Nana (Anna Karina) é uma jovem que abandona o seu marido e o seu filho para iniciar sua carreira como atriz. Para financiar sua nova vida começa a trabalhar numa loja de discos, mas não ganha muito dinheiro. Como não consegue pagar o aluguel, Nana é expulsa de casa e decide virar prostituta. No primeiro dia que começa a trabalhar na rua, reencontra Yvette (Guylaine Schlumberger), uma velha amiga que lhe confessa que também se prostitui por necessidade. Yvette lhe apresentará a Raoul (Saddy Rebot), que se converterá em seu cafetão. A partir desse momento, Nana irá introduzindo-se progressivamente no mundo da prostituição.

Trailer:

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Gabriel Zupiroli

Gosto de duas coisas, cinema e literatura, à parte disso, de vez em quando perco o tempo de me interessar por coisa ou outra.

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