Crítica: O Sexo dos Anjos (2012, de Xavier Villaverde)



Dentro da pouca visibilidade que a comunidade LGBTQ+ ganha dentro da sétima arte, parece que, quando existe, geralmente segue um padrão estereotipado ou tende ao melancólico trágico. A questão fica mais complicada quando esmiuçamos as categorias da comunidade e elencamos como, e quanto, cada uma é representada. Tal universo contempla, em grande parte, uma única letra. Pois assim, quando encontramos um filme que tenta equilibrar elementos emocionais com a natural descoberta da sexualidade e a representatividade de qualquer outra das letras, ficamos até chocados.

O Sexo dos Anjos, que já traz uma certa polêmica no título, retrata a vida de um casal, Carla e Bruno, que já namoram há mais de quinze anos. O casal possui uma estabilidade tamanha no relacionamento que moram juntos e fazem planos concretos para o futuro. Em um momento qualquer de distração pelas ruas de Barcelona, Bruno sofre uma tentativa de assalto e é resgatado por Rai, um dançarino de break dance e professor de karatê. Surge uma amizade instantânea e tão intensa entre os dois que sentimentos conflituosos começam a nascer colocando em risco todo o universo anteriormente construído.


Só isso já é o suficiente para gerarmos algumas impressões sobre  a história que, à luz de o que fora dito anteriormente, já dá um rumo aos futuros acontecimentos. Porém, é aqui que a singularidade do filme entra. O roteiro tem uma capacidade evolutiva tamanha que, gradativamente, vemos nossas impressões desmancharem-se no ar, trazendo elementos novos, mas não necessariamente inovadores, ao velho romance gay proibido e à pobre garota heterossexual "abandonada no altar". Enquanto apostamos que o enredo girará em torno da relação sexual e atração instantânea de Bruno e Rai, ignorando por completo os outros personagens, vemos que há um equilíbrio muito bem desenvolvido entre os três personagens, diminuindo o teor da unilateralidade do longa e tornando-o mais versátil.

Por exemplo,  somos apresentados mais ao universo de Clara do que qualquer outro personagem, pois conhecemos seus amigos, seus pais, seus colegas de trabalho..., e em todos os casos vemos exemplos de relacionamentos problemáticos. Sua mãe toma remédios para depressão e nega o envolvimento do pai com uma amante, fingindo que o adultério não existe e nunca existiu. Sua melhor amiga está em um ciclo vicioso com um de seus colegas de trabalho, iniciando e terminando um relacionamento que sequer nascera. Ela própria se vê confusa e sem chão com a nova fase de Bruno, o qual ainda jura que a ama, precisando lidar com a recente descoberta da sexualidade dele.
 
O filme parece circundar os conflitos dos relacionamentos antigos para com os contemporâneos, e como em alguns casos ficamos presos em situações infelizes puramente por inércia. Expõe, de forma bem feita, que o que deveria reger os relacionamentos não são as estruturas sociais e o "destino" de encontrar um amor único e intenso o suficiente para ser eterno, mas sim a felicidade e o sentir-se bem.

Carla, portanto, ganha um espaço dentro do enredo que enfatiza como tal regência pode salvar ou destruir relacionamentos e até à si mesma. Entrar na montanha-russa de sentimentos de seu namorado, que tenta não largar nem Rai e nem ela, parece destrutivo, mas sendo a única forma de sobrevivência do que um dia fora seu namoro, mesmo sabendo que a forma anterior era fadada ao esgotamento e um destino parecido com o de seus progenitores. Ponto esse que torna o título do longa tematizado, não sendo meramente polêmico, mas para relembrar os debates infinitos que existiram e existem, dentro de alguns círculos de crenças cristãs, sobre o real sexo dos anjos, que parecem cair na incapacidade de abstrair além de uma binaridade, muito menos se essa é real pergunta a ser feita.


E aqui uma palavra parece ficar na ponta da língua, palavra esta que figura na sigla LGBTQ+ e é comumente ignorada: a bissexualidade. A surpresa de que pessoas podem amar e se relacionar com mais de um gênero permeia também o filme. Enquanto uns julgam como uma confusão de Bruno, vemos o garoto sofrer ao tentar expressar que ama duas pessoas de gêneros diferentes da mesma forma, e que não mais consegue viver sem os dois. Será que conseguimos amar mais de uma pessoa da mesma forma? E ao mesmo tempo?


O conflito do triângulo ganha intensidade gradual e interessante também pelo excelente trabalho dos atores Astrid Bergès-Frisbey, Álvaro Cervantes e Llorenç González, que encaixam bem nos personagens e passam química e naturalidade ao interagir entre si, gerando sensações de raiva, tristeza, confusão,  desejo, tesão e amor. O que fica no ar é como tal conflito se resolve, seja de forma benéfica ou maléfica (mas que entra lindamente naquela frase memética: problemas amorosos que seriam facilmente resolvidos com um poliamor).

Como ponto negativo é a velocidade que alguns acontecimentos no terceiro ato do filme são apresentados, dando a impressão de que algumas arestas foram deixadas para encerrar a história ali contada. Se fossem completadas ou mesmo devidamente podadas, e no ritmo dos dois atos anteriores, teríamos aqui um filme nota 10. 


O Sexo dos Anjos é um filme fluido, fácil de assistir e gerador de confortos e reflexões sobre qual é a força de nossos relacionamentos contemporâneos, e até onde vamos para manter nossa felicidade, ou nossa infelicidade. Traz elementos esquecidos para dentro da tela e os mescla com coisas já batidas no gênero "filmes de romance LGBTQ+", mostrando que muita coisa ainda pode ser trabalhada e gerar excelentes resultados. É, com certeza, um bom filme.




Título Original: El sexo de los ángeles

Direção:
Xavier Villaverde

Duração:
105 minutos

Elenco:
Astrid Bergès-Frisbey, Álvaro Cervantes e Llorenç González

Sinopse:
O Sexo dos Anjos conta a história de amor de Bruno e Carla, um casal de jovens que namoram desde adolescentes. Ao conhecerem Rai, um 'breaker' carismático e sedutor, descobrem coisas sobre si mesmos que coloca em cheque sua estabilidade e relacionamento, lidando com tabus sociais sobre infidelidade, amor e papéis sexuais.


Trailer:


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Igor Motta

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