A Casa, um filme para refletirmos a consciência de classe



O debate, e porque não dizer embate, sobre a classe média não se enxergar em sua maioria como uma classe trabalhadora, que quase sempre precisa vender seu trabalho para continuar subsistindo, não é recente, e sua negação percorre gerações. Os reflexos são sentidos, inclusive, quando pensamos o que se tornou discutir política no Brasil, e notícias, como as de suicídio de chefes de família quando se veem em situação financeira vulnerável.

A Casa, longa escrito e dirigido por Àlex e David Pastor, discute justamente a dificuldade desta classe média em perder seu espaço, e entender da forma mais brutal, que não detém capital ou propriedades, mas somente sua força de trabalho. Força de trabalho esta que é colocada à prova, não só no filme, mas, no nosso cotidiano com a chegada de fatores inevitáveis, como a idade e novas tecnologias.

Protagonizado pelo habilidoso Javier Gutiérrez (Durante a Tormenta e Assassin's Creed), o filme conta ainda com o galã Mario Casas (Um Contratempo e O Bar), as talentosíssimas Ruth Díaz e Brunca Cusí; e Ernesto Collado num papel de confronto moral indigesto com o protagonista.


No início do longa, conhecemos um dos principais trabalhos do renomado publicitário Javier Muñoz (Javier Gutiérrez), que reforça o estereotipo de satisfação e família feliz. No entanto, Javier está ali apresentando a peça na procura de uma nova oportunidade no mercado de trabalho, que dada sua idade e o surgimento de jovens profissionais tomadores de risco, tornaram-se escassas.

O desemprego então começa a culminar naquele que é um dos principais pesadelos de quem conseguiu subir alguns degraus na vida: descê-los de forma mais veloz que os subiu. Deste momento em diante, conseguimos notar que Àlex e David Pastor entendem que a renúncia para a realidade atinge de formas diferentes quem está na mesma situação, e é ai que a esposa de Javier, Marga (Ruth Díaz) e o filho do casal, assumem o papel de "antagonistas".


Um importante ponto do roteiro do longa é retratar o que Javier tem como perspectiva de um homem bem sucedido, que nada mais é do que aquilo que ele mesmo ajudou a construir como desejo a milhares e milhares de consumidores. Dois pontos merecem destaque aqui: o meio em que vivemos profissionalmente ajuda a reforçar nosso status social e o quanto este é ajustado pelas propagandas veiculadas a nós.

O protagonista se mostra disposto a retomar sua posição com a família, sem a família ou apesar da família, o que acaba sendo mais uma crítica ferrenha e bem pontuada: a mulher que se preocupou com a saúde financeira da família e fez com que ele saísse da posição que estava, já não serve para que ele retome e mantenha em patamares superiores.


Assim, portanto, Àlex e David Pastor não poderiam escolher metáfora melhor para ilustrar o lugar na sociedade do que o desejo que o protagonista nutre pela casa. A fotografia e direção de arte são competentes, ainda, em reforçar o quão mais confortável é inclusive para nós, espectadores, as casas que o protagonista sente-se satisfeito.

Por fim, nada impressiona mais que a atuação incrível de Javier Gutiérrez, que constrói junto ao roteiro um personagem que passa de um homem entendendo sua descendência e a aflição que isso causa, passando pela frieza e calculismo (com destaque para o stalkear dos novos moradores de sua antiga casa) até finalmente elaborar um plano e colocá-lo em prática. É uma pena, portanto, que o final do filme não tenha o mesmo vigor que seu início e desenvolvimento, deixando alguns pontos importantes esquecidos e fazendo com que duvidemos da capacidade intelectual de Lara (Bruna Cusí), que até então parecia muita atenta a tudo.

Este filme nos prova que consciência de classe não é importante somente para entendermos nosso local exato na hierarquia social, mas, também pode ser fator decisivo para nossa sanidade mental.


Título Original: Hogar

Direção: Àlex Pastor, David Pastor

Duração: 103 minutos

Elenco: Javier Gutiérrez, Mario Casas, Ruth Díaz, Bruna Cusí, Ernesto Collado, Adrian Grösser, Aleida Torrent, David Ramírez, David Selvas, David Verdaguer, Eli Iranzo, Frederic Llobergat e Iris Vallés Torres.

Sinopse: Um publicitário desempregado começa a perseguir os novos moradores da sua antiga casa, com intenções cada vez mais sinistras.


Trailer:

E você, já assistiu ao filme? Compartilha conosco sua opinião. ;-)

João França

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