Crítica: O Hospedeiro (2006, de Bong Joon-Ho)





Diretor do momento graças à sua vitória no Oscar 2020 com Parasita, Bong Joon-Ho tem uma extensa filmografia muito conhecida na Ásia. Porém, se hoje o seu trabalho é reconhecido não só pela crítica, mas também pelo público, é graças ao longa O Hospedeiro; um grande feito na carreira do brilhante cineasta, que elevou seu status de cult a pop. E não apenas isso: na época de seu lançamento, O Hospedeiro se tornou o maior fenômeno de bilheteria da história da Coreia do Sul, o que lhe rendeu maior liberdade para seus projetos seguintes.

Contando com um roteiro simples, mas cativante, a fita narra a saga de um monstro enorme criado a partir da babaquice (sim, é assim que é exposto no longa) de um cientista americano que, pouco se importando com o destino de ácidos jogados num rio coreano, pede para que seja despejado todo o conteúdo tóxico lá; numa mistura fatal que dá vida a essa criatura devoradora de carne humana. Assim, a assustadora besta corre atrás de presas e, infelizmente, uma delas acaba se tornando Park Hyun-seo (Go Ah-sung), uma simpática garota que vira refém do monstro no aguardo para ser devorada. Antes que o banquete aconteça, porém, cabe a sua família, liderada por Park Gang-du (Song Kang-ho), buscar a criança no covil ao qual ela está presa.


Seguindo sua marca registrada, Bong claramente dá cutucadas no espectador com relação ao tema poluição, fazendo-o de maneira muito inteligente: temos aqui a presença de personagens cativantes e um bicho assustador. Somos, dessa forma, imersos no conflito de modo  que, ao fim da jornada, a mensagem ambientalista nunca fica óbvia, gratuita ou superficial. Pelo contrário, é apenas uma das camadas da história que, acima de tudo, tem como base grandes atuações do sempre brilhante Song Kang-ho, um pai indignado pela ineficiência do governo sul-coreano e que decide ir atrás de justiça; além da fascinante Bae Doo-na e a perspicaz Go Ah-sung, que integram o restante do incrível elenco. Aliás, elenco esse que é separado em blocos narrativos muito funcionais, nos quais sua dinâmica é incrível.

No entanto, o roteiro ainda deixa alguns personagens de lado quando lhe convém, tirando o brilho de alguns deles que, a exemplo da arqueira Park Nam-joo, acaba subaproveitada em diversas sequências, deixando-nos algumas perguntas com relação ao seguimento temporal da história e, dessa maneira, criando algumas pequenas rupturas no ritmo de rodagem. Ainda que conte com tais reveses, a trama jamais fica enfadonha ou desinteressante. Pelo contrário: uma vez que o espectador aceite embarcar na proposta aqui inserida, a viagem até o fim dessa história é uma passagem só de ida, em que diversos gêneros são experimentados, desde a comédia teatral costumeira do cinema sul-coreano, como o horror, o drama e o suspense, orquestrados para nos manter atentos até o fim.



A besta, por sua vez, também é cativante: um peixe mutante com uma movimentação bizarra e assustadora, a qual é grotesca, nojenta e funciona dentro da narrativa tanto como crítica social (houve casos de peixes mutantes na Coreia do Sul graças a poluição, sendo uma grande piscadela do diretor para o problema) como na construção do suspense. E ela não fica para trás dos grandes monstros hollywoodianos, como King Kong, Frankestein ou o Homem Invisível, pois tem em seu ingrediente os principais elementos de fascínio do subgênero chamado filme de monstro. Nesse cenário, temos um CGI que é funcional em alguns momentos, outros não, mas isso em momento algum chega a diminuir o valor de entretenimento da obra se o espectador levar em consideração os 11 milhões de dólares levantados para realizar o longa. Não só isso, mas Bong Joon-Ho se utiliza muito bem do bichão, criando planos de suspense que deixam sua marca registrada na obra de maneira eficaz e bem realizada. O design de produção, para além do monstro, também é muito bem construído e não cai no clichê, revelando-nos uma urbanização suja e, literalmente, poluída.


O Hospedeiro é, por fim, um longa que se utiliza de convenções e clichês para criar algo único dentro desse espectro tão vastamente explorado em Hollywood. Nem sempre tão brilhante, mas totalmente cativante, essa película é algo que merece ser conferida pela sua inventividade fantabulosa e sua tensão construída de maneira inteligente e orgânica; além de, claro, ter em sua gênese a marca de Bong Joon-Ho: ironia, acidez e crítica sociocultural. 



Título Original: Gwoemul

Direção: Bong Joon-Ho

Duração: 120 min.

Elenco: Kang-ho Song, Hee-Bong Byun, Hae-il Park, Doona Bae, Ko Asung, Dal-su Oh, Jae-eung Lee, Dong-ho Lee, Je-mun Yun, David Anselmo, Martin Lord Cayce, Scott Wilson, Brian Rhee.

Sinopse: Na beira do rio Han moram Hie-bong e sua família, donos de uma barraca de comida no parque. Seu filho mais velho, Kang-du, tem 40 anos, mas é um tanto imaturo. A filha do meio é arqueira do time olímpico coreano e o filho mais novo está desempregado. Todos cuidam da menina Hyun-seo, filha de Kang-du, cuja mãe saiu de casa há muito tempo. Um monstro surge no rio, causando terror nas margens e levando com ele a neta de Hie-bong. Com isso, os membros da família precisam enfrentar o monstro.

Trailer:

A obra está disponível na Netflix, confira! Não deixe de comentar aqui em baixo e compartilhar a crítica em suas redes sociais! Nos vemos em breve.

Luc Da Silveira

Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário