Crítica: Tarde para Morrer Jovem (de Dominga Sotomayor Castillo, 2019)

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Há uma tradição no cinema de representar as cenas com uma distância de um padrão narrativo. Em contrapartida ao cinema naturalista clássico e ao construtivismo russo, o filme do realismo poético, O Atalante, de Jean Vigo, que pensava o filme mais como uma associação de imagens que causem uma harmonia entre si, foi um sucesso estrondoso. A relação entre dois jovens recém casados foi levada para outro nível, em que as imagens eram criadas como música e com uma série de motivos visuais. A noiva vai embora - sem motivo aparente - e o noivo fica no navio. Os dois sofrem uma depressão de formas semelhantes, e várias sequências diferentes do filme evidenciam essas sensações da falta do amor. Cada um toma uma atitude impulsiva. Ele para nadar do Atalante. Ela dança com um homem em um carnaval, mas nada rola entre eles. 

Temos um filme atual que bebe nessa fonte de poesia cinematográfica: uma comunidade que vive em uma área rural , que parece que está próxima ao seu fim. Esse é o mote de Tarde Para Morrer Jovem. O filme se passa pouco depois do fim da ditadura Pinochet na década de 90 e mostra o lado de uma comunidade que mora em uma região rural.


Jovens e adultos convivem de forma harmônica nesse lugar curioso. A empatia entre todos é levada muito em conta, uma vez que dividem-se grupos para buscarem os recursos e fazerem planos para o sustento do local. As crianças crescem e brincam. Os jovens buscam os seus jeitos e ajudam os mais velhos ao cuidarem da estrutura da grande casa onde todos moram. Alguns compartilham os carros e motos para fazerem suas viagens.



E é nessa transição do rural e urbano, infantojuvenil para adulto, coletivo para individual em que se situa Sofia, a protagonista do filme, que vai perdendo sua graça perante esse lado jovial. A busca é o motivo de todas as suas atitudes extremas, e ela recusa a rebeldia do lado do paz e a amor.






Esse disfarce não permite transparecer nas sequências entre amigos e amores. Todo mundo celebra uma liberdade e uma festa, menos ela. Quando toma o centro do plano, Sofia não move necessariamente uma história ou uma reflexão. Estamos (ou estamos tentados a ficar) do seu lado, mesmo em cima do muro. Temos uma protagonista certa de suas ideias, mas sem uma coragem para largar esse conforto.


E é nesse microcosmo que Tarde para Morrer Jovem entende sua poesia, enquadrando toda essa vida em planos 4:3 com certo rigor de composição: tal como no começo, em que há a reunião de todos os familiares e amigos, participando do plano em constante fluxo. Árvores moldam o quadro, carros estacionam. Crianças andam de bicicleta. Adultos se reúnem.




Logo criam-se motivos a partir dos outros temas do filme. Seguindo essa proposta poética, ora esses planos trazem elementos importantes sobre esse momento (e, teoricamente, o nosso) ora se estendem em demasia. O cachorro que vem e volta como uma personificação do que une a atitude adulta e o crescimento juvenil. As crianças que pulam em uma piscina natural para brincar. O gerador de gasolina sendo abastecido para que a festa aconteça. A construção da cerca, afim de reformar a casa coletiva. Sofia brincando com o seu melhor amigo no parquinho. Ou quando ela aprende a dirigir. Há um show de música romântica em que uma moça canta a letra que ela escreveu. Adolescentes se descobrindo e se apaixonando. Buscando um lado das sensações, o filme se desloca de forma pendular.



O filme parece se valer mais desses planos de ações simples, da beleza natural e de sua circunstância do que contar propriamente com uma conclusão definitiva. Aí o filme se larga do conflito, vai para o momento das cenas poéticas e volta para o conflito. Falta um pouco de calor para Sofia: há muita contenção diante desse local, desse tempo tão importante para nós.



Se essa é uma reflexão da agorafobia, esse é um comentário interessante sobre a construção de nossa memória. As crianças triunfam sobre os adultos porque conseguem encontrar fins e novidades e de alguma forma constituírem-se, sabendo para onde vão - as crianças ultrapassam muros, viajam sozinhas em carros de brinquedos, andam em grupos para encontrar o cachorro desaparecido. Os jovens se forçam a manter essa juventude porque ela se esgota em diferentes interesses.




Título Original: Tarde Para Morir Joven

Direção: Domingas Sotomayor Castillo

Duração: 110 mins.

Elenco: Demián Hernandez

Sinopse: Uma comunidade familiar habita uma floresta no Chile, e durante os preparativos para a festa de Ano Novo, acompanhamos a intimidade entre os jovens e os medos de Sofia perante o mundo lá fora.

Trailer:



Curiosidade:

Por mais que não tenha uma exibição de destaque aqui no Brasil, a cineasta Dominga Sotomayor Castillo possui outros filmes com temática semelhante em sua carreira. São eles De Jueves a Domingo (2012) e Mar (2014).

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Ulisses Forattini

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