Crítica: Joias Brutas (2019, de Josh e Benny Safdie)


Uma visão do indivíduo em derrocada pelas veias frenéticas do capitalismo tardio.


Em 2014, os irmãos Josh e Benny Safdie realizaram um longa-metragem que começou a colocar seus nomes em uma modesta evidência, o filme Amor, Drogas e Nova York, que acompanha o mundo junkie das ruas nova-iorquinas em um espiral catastrófico de ações e escolhas. Seguindo o mesmo ritmo, lançaram, em 2017, Bom Comportamento, agora providos de um orçamento maior e com um ator de certo peso no papel principal, Robert Pattinson. Seguindo os passos de sua obra anterior, este filme aborda um homem também em um cataclismo de escolhas erradas envolto em frenéticas sucessões de ações, lutando para tirar seu irmão mais novo da prisão. Com esses dois longas, a dupla de cineastas conseguiu se estabelecer nos olhos da crítica e do público e delimitar traços na composição de seu cinema que, em uma escala progressiva, culminaram em seu mais recente trabalho, Joias Brutas, distribuído pela A24 e pela Netflix.

Se nos dois outros filmes citados a composição cênica - elaborada através da exaltação visual pelas cores e da música para criar contraponto entre tensão e calmaria - realiza uma progressão na maneira como cria uma relação orgânica com a narrativa, em Joias Brutas isso é explorado ao limite e esta estética atinge, até agora, seu ápice plástico. O olhar dos Safdie sobre Nova York, sobre as catástrofes humanas baseadas nas escolhas, nos vícios e no comportamento, é aqui potencializado por uma maestria desenhada na forma, pois a mise en scène se estabelece como articulação máxima de transmissão do sentimento de queda. Trata-se do auge e derrocada não só das ações, mas das emoções das personagens, revestidos de uma roupagem frenética e pulsante que guia o desenvolvimento sem faltar ou exceder.


Howard Ratner, vivido por Adam Sandler, é um negociante de joias e diamantes que, ao mesmo tempo em que precisa recuperar uma pedra que comprou, tem que lidar com outros negociantes cobrando suas dívidas a todo o momento. Através desta premissa, os cineastas jogam o espectador em meio a uma Nova York caótica e sem regras do mundo dos negócios de joias, retratando também parte da comunidade judaica inserida no ambiente, na busca de lapidar um olhar sobre as tensões que cercam o indivíduo no capitalismo tardio, especialmente em uma metrópole. Dessa maneira, ainda que o foco sejam ricos negociantes, a forma como se dá a decupagem desarma um olhar cético sobre os personagens e traz seus dramas de forma totalmente válida e crível.

Porém Joias Brutas não se esgota apenas nisso. É um filme que se faz sobre a tentativa e o erro, sobre as possibilidades e suas incapacidades, sobre o respirar e a falta de ar. Desenvolvendo estas lentes desde seus longas anteriores, os irmãos Safdie aqui se mostram verdadeiros cronistas do cotidiano, escritores encarregados de evidenciar as nuances das narrativas sujas do capitalismo, suas incongruências e como elas se refletem nos pormenores que guiam as escolhas de cada sujeito inserido neste sistema. Pois somos todos parte dele, e mesmo que as condições de classe sejam divergentes, as escolhas e os vícios acompanham os indivíduos em suas mais diversas jornadas. Quando Ratner aposta ou paga alguém com o dinheiro de outrem, há uma dupla implicação sobre suas motivações, uma relacionada com sua própria maneira de lidar com estes problemas, e outra, muito mais complexa, um produto de sua própria posição social enquanto agente de uma máquina muito maior que si. O que só fica evidente pelo surpreendente desfecho.


As opções de filmar com planos fechados, ressaltando a claustrofobia da situação, assim como de seguir a montagem frenética que está presente já em Bom Comportamento são as ferramentas dos autores de elaborar sua crônica. Pois se o indivíduo contemporâneo é alguém cujas ações são cada vez mais rápidas e sufocantes em meio a este capitalismo, a forma de narrar suas impressões realça esta velocidade sem se tornar caricata ou exagerada. A dosagem é realizada pela alternância destas situações com momentos de paz que nunca verdadeiramente se entregam a uma calmaria, pois soam artificiais. E isso porque são artificiais. A música eletrônica (horas suave, horas explosiva) e a exaltação das cores selam a composição plástica que realça a artificialidade desta vida. Tudo brilha, como os diamantes, e todas as ações são urgentes, como as necessidades das personagens. Cenas como a do show do cantor The Weeknd só servem para evidenciar todos estes fatores.

E a articulação de todos estes elementos em unidade se dá, justamente, através da montagem. É aqui que os cineastas conseguem construir uma relação de maestria com a linguagem, pois é por este aspecto que evidencia todo o peso da subida e da derrocada. A forma como o filme é montado transmite todas estas sensações desde o início, o olhar clínico e elétrico dos cronistas para as tensões cotidianas que cercam a existência dos indivíduos na metrópole. A condução envolvente do início ao fim cria o tapete sobre o qual a desconstrução própria de Howard Ratner vai se dar.


Os irmãos Safdie se inserem, com Joias Brutas, como dois dos mais promissores diretores da atualidade. Seu controle sobre a linguagem cinematográfica e a encenação é não apenas absoluto, mas também em diálogo totalmente natural com o olhar discursivo. Adam Sandler entrega a melhor atuação do ano e mais uma vez expõe uma capacidade absurda de construir personagens com uma dimensão psicológica múltipla. Trata-se de um filme de gritos, tensões, vícios, dinheiro e diamantes. E se desde a primeira cena o olhar crítico dos cronistas sobre o capitalismo atual é latente, ele só se mostra mais potente ao abordar os traços cotidianos da grande metrópole que é Nova York. L'amour Toujours, de Gigi D'Agostino abre os créditos da maneira mais pulsante dos últimos tempos e encerra o filme que, a meu ver, é o melhor do ano de 2019.


Título Original: Uncut Gems

Direção: Josh e Benny Safdie

Duração: 135 minutos

Elenco: Adam Sandler, Julia Fox, Eric Bogosian, Idina Menzel, Lakeith Stanfield, Kevin Garnett

Sinopse: Howard Ratner (Adam Sandler) é vendedor de peças de valor para famosos e dono de uma loja de joias de Nova Iorque. Certa vez, ele se vê cheio de dívidas para quitar e perceber que deve achar um jeito de quitá-las. Porém, ele está em uma situaçao emocionalmente complicada e difícil, já que acabou de passar por um roubo que envolve pessoas de confiança.

Trailer:

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Gabriel Zupiroli

Estudante de literatura, escrevo sobre cinema para os sites "Minha Visão do Cinema" e "Clube da Sétima Arte".

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