Crítica: Honeyland (2019, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov)


Uma ação simples e cotidiana é capaz de nos revelar muito mais sobre a raiz psíquica humana do que observando a sociedade como um todo. Tem-se, então, essa visão de mundo aplicada no premiado documentário Honeyland: o macro jamais é mostrado, obrigando o expectador a enxergar um micro social sob uma ótica totalmente observativa. Esse tipo de obra documental, que se apega a pequenos momentos e detalhes, é extremamente arriscada e pode acabar caindo na mesmice e banalidade. Felizmente, não é o que acontece aqui: Honeyland é uma verdadeira obra prima.

Indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Documentário e Melhor Filme de Língua Não Inglesa, o longa acompanha a jornada de Hatidze, uma apicultura isolada da sociedade, junto a sua mãe adoecida de 85 anos, que moram sozinhas em montanhas afastadas da Macedônia do Norte. Hatidze, independente e esforçada, colhe mel respeitando a natureza e tudo que ali vive, criando uma troca sustentável entre sua existência e a natureza que a cerca. Ainda que sua mãe esteja à beira da morte, tudo parece em paz, numa cíclica jornada natural, o que muda drasticamente, no entanto, quando uma família turca se muda para a mesma região, e, dessa forma, começam a trilhar o caminho oposto à Hatidze: são danosos à natureza e a tudo que os cercam, resultando num conflito entre as visões opostas.

Hatidze cuida de sua mãe enferma.


Primeiramente, é importante ressaltar a maneira como toda narrativa é constituída: em momento nenhum os diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov interferem no conflito da história. Como disse anteriormente, o termo "observativo" é elevado à décima potência, o que cria diversas emoções no expectador, afinal, em muitos momentos Hatidze está em apuros e ninguém da equipe faz absolutamente nada senão captar o que vemos em tela. Agonia, empatia e constante sentimento de impotência e revolta são muito bem aplicados aqui, criando uma ligação pessoal entre nós e a protagonista. Nem mesmo a data do que é exposto nos é revelada; só o que sabemos é o que realmente acontece. E o que acontece machuca. Honeyland é uma jornada dolorosa.


E, aproveitando todo o contexto que nos é dado, a obra se confirma como um verdadeiro estudo sociocultural. A família turca é nada mais que egoísta e quer se aproveitar, enquanto Hatidze tira apenas o que lhe é necessário para sobreviver e, no âmago desse atrito, enxergamos vislumbres que nos fazem refletir sobre luta de classes, injustiça social e, primordialmente, o fator gerador de onde toda problemática humana é advinda: ganância e desrespeito. E o sentimento que permanece é amargo, afinal, todos sabemos da importância da visão de Hatidze perante o mundo. No entanto, ainda que tentemos amadurecer como a protagonista, parece que somos mesquinhos e lutamos contra a natureza e contra nós mesmos.

Aliado à brilhante narrativa, tem a fotografia, igualmente fascinante. Vê-se uma nítida preocupação estética em enquadrar toda a beleza daquela região rochosa, ocupando planos com diversas paisagens e capturando momentos singelos onde Hatidze aplica técnicas milenares de apicultura. Os takes na cidade, na qual a personagem vai para vender seu mel e comprar comida, também se destacam, por serem os únicos que a colocam em meio ao turbilhão de uma metrópole. Assim sendo, o trabalho de cinematografia aqui trabalha contrastes, sempre de maneira delicada e com primor técnico invejável.


A fita, por fim, passa voando, pois somos absortos em seus rápidos 86 minutos e, ainda que transmita sua mensagem por completo, há um sentimento de que ainda mais poderia ser mostrado. De qualquer forma, quando sobem os créditos, sentimos uma exponencial vontade de conhecer mais da querida apicultora, e até mesmo da família turca que, apesar de vê-los como rivais, nos apegamos. Tudo isso graças a essa realidade a qual, embora tão distante, parece ser próxima a nós, porque ela é puramente natural e, acima disso, completamente humana.


Título Original: Honeyland

Direção: Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov

Duração: 86 minutos

Elenco: Hatidze Muratova, Nazife Muratova, Hussein Sam, Ljutvie Sam

Sinopse: Existe uma regra na apicultura: deve-se pegar só metade do mel, e deixar o resto para as abelhas. Hatidze, a última caçadora de abelhas da Europa, respeita religiosamente essa condição. No entanto, quando novos apicultores chegam para trabalhar em sua região e não seguem a regra, o equilíbrio do ecossistema desses animais é ameaçado. Hatidze precisa se esforçar para persuadí-los a seguir os pilares elementares para a sobrevivência das abelhas.

Trailer:

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Luc Da Silveira

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