Crítica: O Filme do Bruno Aleixo (de João Moreira e Pedro Santo, 2019)



Falar de O Filme do Bruno Aleixo é um desafio. Primeiro porque é um filme baseado em uma série, e segundo porque é comédia nonsense e as mensagens ocultas pelas obras do sub-gênero (se é que existem) exigem algum exercício para serem descobertas.

O longa só foi possível com o sucesso da série: O Programa do Aleixo, um talk show apresentado pelo cachorro-urso Bruno Aleixo. Os episódios da série se dividem em esquetes sobre opiniões públicas, verificações de boatos e comerciais. Mas a peculiaridade da série vai além: os personagens são diferentes em como falam e roubam a cena nos momentos em que aparecem. Bruno Aleixo é ranzinza e destrata quem está por perto. Há o Renato, um monstro da lagoa que é estudante de engenharia e fala de forma arrastada. Os dois são amigos de Homem do Bussaco, que tem problemas de pronúncia devido ao seu português pré-histórico. A eles junta-se Busto, uma estátua de Napoleão Bonaparte, e Doutor Ribeiro faz participações especiais, um médico que sofre de invisibilidade desde os 34 anos.

O Talk Show caminha sobre o Vale da Estranheza. Os personagens recorrentes e secundários são baseados em figuras, objetos ou em animais e são antropomorfizados. Todos se permanecem imóveis e apenas suas feições faciais são animadas. Ilustrações e fotografias estáticas funcionam como stabilishing shots e cenário. É na visualidade e no diálogo que surgem as piadas, e daí a linguagem da série, de como se comunica com seu público.


Busto




Homem do Bussaco




Renato Alexandre



Bruno Aleixo, que já foi assimilado com os Ewoks da cinessérie Star Wars.

O Filme do Bruno Aleixo mantém essa linguagem, mas o talk show é deixado de lado para dar lugar a uma história: Bruno Aleixo é chamado por uma produtora para escrever o roteiro de sua autobiografia, então o personagem título se reúne com seus amigos para fazerem um brainstorm de ideias para o possível filme. Aí está o porém: o roteiro se perde numa falta de foco em todas as histórias contadas pelos personagens.


Justamente por causa disso, o filme (ou os filmes dentro do filme?) é um achado: o filme usa várias formas de provocar humor. Além das piadas faladas, o riso também é conseguido por choques de linearidade. O caso de Bussaco, por exemplo, que sugere que a biografia de Aleixo seja um filme de ação como Miami Vice, e o filme se transforma numa estética nostálgica dos filmes de ação do gênero. Há também a ideia de Renato: um noir sobre quando ele e Bruno investigavam um assassinato, e o filme fica em preto e branco e passa em um hotel misterioso – mas nem Renato sabe porque é misterioso e o que faziam ali, nem Bruno se lembra.



Homem do Bussaco na versão Miami Vice da biografia de Bruno Aleixo. Interpretado por Rogério Samora.

Bruno Aleixo na versão Miami Vice. Vivido por Adriano Luz.


A visceralidade fica evidente, porque a mise en scène é mudada a todo momento de acordo com os gêneros narrados pelos personagens. A autobiografia vira um filme de terror e os efeitos são gráficos. Há uma história sobre patriarcado e o filme vira uma novela brasileira. Também há momentos sobre uma indecisão se é para rir ou apenas ver. Uma das narrativas relembra uma cena em que Bruno e Busto foram para uma festa. Bruno deu “oi” para todos da porta. Já Busto saiu cumprimentando todas as pessoas da festa. Esse é o flashback. Busto cumprimenta as pessoas. É apenas isso.








Então sobre o quê O Filme do Bruno Aleixo fala? Talvez de comunicação, procrastinação, ou de uma série de problemas que não se resolvem. O que importa é que é uma experiência perceptiva inteligente.

Talvez é isso o que as imagens iniciais de O Filme do Bruno Aleixo digam. Quando um rapaz semi invisível aproveita seu momento na praia. Numa alusão à Um Conto de Verão, de Éric Rohmer, o jovem brinca com a areia, nada, se apoia no muro, admira a praia. Apenas seu calção e seus chinelos são evidentes, já seu corpo parece desaparecer. Nada explicado. Corta para Bruno conversando com Ribeiro no telefone. Essa é a ideia de Ribeiro, friamente descartada por Bruno. As histórias que contamos formam a nossa personalidade. Os filmes que vemos também.

Um barato.


*Visto durante o 43º Festival Internacional de Longas-Metragens de São Paulo*











Título Original: O Filme do Bruno Aleixo

Direção: João Moreira e Pedro Santo

Duração: 92 mins.


Elenco: João Lagarto, Rogerio Samora, Adriano Luz, Gonçalo Waddington

Sinopse: Bruno Aleixo é chamado por uma produtora para escrever o roteiro de sua cinebiografia. Mesmo sendo o que tem as melhores ideias, ele chama seus amigos para decidirem o que escrever no roteiro.




Trailer:






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Ulisses Forattini

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