Crítica: Adoráveis Mulheres (2019, de Greta Gerwig)


Após o fenômeno Lady Bird: A Hora de Voar, Greta Gerwig retorna como diretora em Adoráveis Mulheres, a mais nova adaptação para o cinema do livro clássico de Louisa May Alcott. Publicado pela primeira vez em 1868, a obra já ganhou incontáveis adaptações para a TV e para o cinema, tanto em formato de filme quanto em formato de série, e cada uma delas traz o seu diferencial. Na versão de Gerwig, temos uma nova montagem e uma visão mais feminista – afinal, nem toda história com mulheres protagonistas é estritamente sobre casamento.

Durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, quatro irmãs, sua mãe e uma doméstica vivem em uma casa enquanto o pai das garotas está na guerra. Por não terem muito dinheiro, a chance que as garotas têm de ascender mais facilmente é através do casamento, mas não é isso o que Jo quer para sua vida. Desde sempre, a garota quis ser uma escritora, e escrever é o que ela mais gosta de fazer.


Sua irmã mais velha, Meg, quer ser uma atriz, tanto que quando as irmãs decidem fazer peças no Natal, ela é a mais empolgada – Jo se encarrega do roteiro. Ainda assim, por ser a mais velha, é ela quem tem o casamento como uma prioridade, e para se divertir e talvez conhecer alguém, arrasta Jo para os mais diversos bailes. Em um deles, Jo tenta encontrar um esconderijo e acaba esbarrando com Theodore Laurence – conhecido como Laurie –, o garoto que vive na casa em frente à sua. Logo no primeiro instante, eles criam uma bela amizade que apenas fortalece ao longo do tempo.

Quando Meg torce o tornozelo naquela mesma noite, Laurie oferece ajuda e leva as garotas para casa com sua carruagem, e assim conhece o restante da família de Jo, incluindo Amy. A irmã mais nova mostra interesse por Laurie desde o primeiro olá. Ao contrário das garotas, Laurie vem de uma família rica, e Amy tem a pretensão de se casar com alguém que possa lhe oferecer o que há de melhor no mundo. Embora ela não tente nada explicitamente, o interesse da garota por ele é claro. Além disso, Amy é a irmã apaixonada por pintura, e almeja viver disso.

Beth, a irmã caçula, é apaixonada por música. Todas as irmãs tocam um pouco de piano, mas não como Beth – ela é diferente, tem um dom. Por ser a irmã mais nova e também a mais quieta, pouco da personalidade da garota é mostrado em tela; ela ganha um destaque maior apenas após a aproximação das família de Jo e de Laurie.


Além das irmãs e de Laurie, mesmo sem ter tanto tempo de tela, algumas personagens secundárias conseguem se destacar, como Mary March, ou Marmee, a mãe das garotas. Interpretada por Laura Dern, ela é uma mulher carismática e otimista, sempre preocupada com a família, mas também com os outros, e por isso sempre está fazendo caridade. Embora sua trama particular não seja tão forte quanto em outras adaptações, é possível perceber traços marcantes de sua personalidade quando ela está em cena – a simples aparição de Dern mostra o amor que transborda da personagem.

O Sr. Laurence, avô de Laurie, interpretado por Chris Cooper também é uma ótima surpresa. Por ser rico e ter, a princípio, um ar de ranzinza, o primeiro olhar para a personagem nos faz pensar que ele será um ser detestável, mas é muito pelo contrário. Apesar de sua passagem pelo enredo ser significativamente rápida, Chris Cooper consegue entregar uma personagem multifacetada e incrivelmente adorável, principalmente em se tratando de sua relação com Beth March, a irmã mais nova, que lembra muito a falecida filha do Sr. Laurence.

Meryl Streep é outra que consegue um papel consistente como personagem secundária na trama. Ela interpreta a tia March, uma senhora rica que, por ter tamanha fortuna, nunca precisou se preocupar em casar, e por isso vive sozinha em uma casa enorme. Por ser mais próxima de Jo e Amy do que das outras irmãs, ela pega muito no pé das garotas em relação às suas escolhas, mas pode-se perceber como esse é apenas o seu jeito de mostrar que se importa. Sendo assim, ela consegue trazer uma personagem muito humana e extraordinariamente interessante para a trama.

A respeito das atuações principais, Eliza Scanlen entregou uma Beth doce, simples e tímida; apesar de ser a irmã mais tranquila, ela também é a mais esquecida. Emma Watson nos mostrou uma Meg apaixonada e gentil, assim como a personagem de Dern, mas não tão marcante a ponto de roubar a cena nos momentos em que aparece. Já Florence Pugh – que recebeu indicações ao Globo de Ouro, ao BAFTA e ao Oscar por sua atuação nesse filme – apresentou Amy como uma das personagens mais complexas da narrativa. Por ser mais nova, ela se sente excluída por Jo, que nunca a deixa ir aos bailes nos quais vai com Meg, e a inveja que sente da irmã é capaz de cegá-la em alguns momentos. Ao mesmo tempo, ela ama Jo assim como ama toda a sua família, e é aí que sua dualidade se mostra mais forte.


Timothée Chalamet fez um bom trabalho como Laurie, o rico mimado que nunca precisou trabalhar um dia de sua vida, mas que se mostra totalmente confortável e feliz quando próximo às irmãs March. Suas melhores performances, de fato, são aquelas nas quais contracena com Saoirse Ronan, Jo, a nossa protagonista. Os dois já atuaram juntos no filme anterior de Greta Gerwig, Lady Bird: A Hora de Voar, e voltam nesse longa com uma química impressionante. A atuação de Ronan a rendeu indicações ao Globo de Ouro, ao Critics Choice Award, ao BAFTA e ao Oscar. Ela, como em tantos outros papéis de sua carreira, parecia muito confortável no trabalho que lhe foi dado e soube interpretar bem a garota que almeja ser escritora e que coloca de lado o matrimônio a fim de seguir seu sonho, mas que também se preocupa com a família e, por isso, tenta ganhar um dinheiro com seu trabalho para ajudar com as despesas ao invés de simplesmente se casar com um homem rico. Por mais que diversas personagens tenham seus momentos de engajamento feminista, na história, Jo é a personificação do ideal no qual a mulher não precisa de um homem para ser feliz – mas se ela quiser se casar com um, a escolha é dela.

Assim como as atuações de Saoirse Ronan e Florence Pugh, a trilha sonora de Adoráveis Mulheres também foi indicada a diversas premiações, como Globo de Ouro, Critics Choice, BAFTA e Oscar. Composta por Alexandre Desplat, a trilha sonora tem um papel importante na ambientação das personagens e dá o clima da história desde o início do filme, combinando totalmente com os momentos nos quais se mostra presente. A única cena na qual a trilha sonora pareceu destoar um pouquinho, para mim, foi em uma na qual algumas personagens estão dançando de um jeito animado e a música que tocava era lenta, mas foi uma questão de cinco segundos de cena, nada que atrapalhasse o filme. Embora Desplat (ainda) não tenha ganhado nenhum prêmio por seu trabalho no longa de Gerwig, ele foi o vencedor de todas as premiações supracitadas em 2018 por A Forma da Água, de Guillermo del Toro.


Em relação a montagem, ela se divide em duas partes que se intercalam. A história começa com Jo tentando vender um conto para um editor; depois disso, volta para sete anos antes, quando ela e suas quatro irmãs viviam juntas. O vai e vem da montagem te faz perguntar o que está acontecendo, e para os mais desatentos ela pode ser um problema. A fotografia se destaca ao colocar o presente em tons frios e o passado em tons quentes, e, em alguns momentos, é apenas através dela que nós conseguimos diferenciar quando cada coisa está acontecendo. Portanto, as pessoas que não se atentarem à mudança de cores podem ficar um pouco perdidas em uma ou outra cena e confundir a cronologia da narrativa.

A direção de Greta Gerwig, apesar de não ser tão marcante quanto a de seu filme anterior, foi fantástica. As escolhas feitas por ela foram assertivas em cada aspecto técnico, todavia seu ponto forte está na direção de atores. Ela sabe bem como guiar as pessoas com quem trabalha para que elas façam o que é preciso a fim de passar determinadas sensações para o público, e a união que vemos em tela entre as irmãs ou a amizade de Jo e Laurie é de tirar o fôlego. De longe, as personagens são os que guiam a história, os que nos cativam e o ponto mais significativo do enredo.

Por se passar no século XIX, algo que precisou de atenção foi o figurino, e ele foi muito bem utilizado ao longo do filme. Os trajes foram muito bem-feitos, mesmo os mais simples, e a preocupação com que tipo de roupa cada personagem vestiria foi evidente até mesmo dentro da narrativa, já que certos tecidos são mais caros do que outros e o tipo de vestimenta diferencia sua classe social – isso até nos dias de hoje. De qualquer forma, nós vemos as diferenças de roupas para ir a bailes, por exemplo, e roupas que as garotas usam em casa, já que quando estão sozinhas parecem muito mais confortáveis.


Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig, não é a primeira e (provavelmente) nem será a última adaptação cinematográfica de Mulherzinhas. Muitos disseram que as pessoas que não conhecem a história contada poderiam ficar perdidas, provavelmente devido à montagem, contudo eu discordo. Acredito que se prestarmos atenção às nuances do filme, principalmente no que diz respeito à fotografia, torna-se mais fácil de entender. Pode ser que essa versão não tenha aprofundado tanto alguns arcos dramáticos, tais quais o de Meg, a irmã mais velha; o de Beth, a irmã caçula; e o de Mary March, a mãe das garotas, entretanto isso não é um defeito capaz de tirar pontos de um filme com tantos lados positivos. Algo que pode incomodar os espectadores é a personagem de Florence Pugh, que por vezes consegue ser extremamente irritante e, para mim, foi um ponto negativo, embora eu entenda.

No mais, esse é um filme muito fácil de assistir e que prende muita a atenção, ao contrário de alguns outros do mesmo gênero. Mesmo com mais de duas horas de duração, ele não perde o ritmo e não se torna cansativo em momento algum, não excedendo seu tempo e nem sendo curto demais para o enredo proposto. A trilha sonora, a fotografia, as atuações, a direção, tudo contribui para que o longa seja incrível e ele realmente é – não à toa ele está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. Por não ter muitas reviravoltas, pode ser que pessoas que curtem filmes com mais acontecimentos não se interessem tanto pela passagem do tempo dessas irmãs – afinal, não há uma trama para as personagens, são elas que constituem a trama –, mas os que gostam desse estilo vão terminar o filme com um sorriso no rosto e uma sensação de paz no coração.


Título Original: Little Women

Direção: Greta Gerwig

Duração: 135 minutos

Elenco: Saoirse Ronan, Timothée Chalamet, Emma Watson, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, Meryl Streep, Bob Odenkirk, Chris Cooper, James Norton, Louis Garrel, Abby Quinn, Tracy Letts, Rafael Silva, Maryann Plunkett, Hadley RObinson, Ana Kayne, Tom Kemp, entre outros.

Sinopse: As irmãs Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) amadurecem na virada da adolescência para a vida adulta enquanto os Estados Unidos atravessam a Guerra Civil. Com personalidades completamente diferentes, elas enfrentam os desafios de crescer unidas pelo amor que nutrem umas pelas outras.

Trailer:

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Karoline Melo

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