Crítica: Morangos Silvestres (1957, de Ingmar Bergman)



Se você parar para olhar tudo o que te trouxe até aqui, o que você fez da vida? Quais lembranças são boas e quais te machucam? Deixou se amargurar? Que coisas importantes você sacrificou? Quais seus pecados enterrados no passado? Morangos Silvestres é um tocante e belo estudo das saudades e arrependimentos do passado. O excelente cineasta sueco Ingmar Bergman faz praticamente um estudo filosófico e psiquiátrico do personagem central, um homem já velho, que ao sentir que pode estar com os dias contados, começa a sonhar e lembrar do que um dia já viveu, ao mesmo tempo em que tem que lidar com o hoje e daqueles que o cercam. 

A atuação de Victor Sjöstrom, que outrora já havia sido diretor de cinema, é ótima. Ele consegue entregar as camadas necessárias no seu protagonista Isak Borg, compreendendo o peso de seu personagem, os ombros e a alma caídos com a passagem do tempo, colher os frutos de algumas atitudes equivocadas, mas com um brilho nos olhos devido a saudade e nostalgia do passado. Bibi Andersson e Ingrid Thulin, cuja carreira de ambas constantemente marcaram presença nos filmes de Bergman, também entregam algo completo dentro das suas personagens, mesmo que brevemente. 


O roteiro consegue abordar elementos dramáticos de forma realista e por vezes sutil, contrastando com passagens mais lúdicas, psicodélicas e apoteóticas, como os sonhos de Isak, que são um misto de imaginação e lembranças. Aliás, a direção de arte e a fotografia ajudam e muito a dar esse tom ilusório e de sonho, com objetos e cenários "tortos" e distorcidos, dando uma sensação de estranheza, algo comum na filmografia de Bergman, mas que aqui utiliza-se de forma mais contida. Aliás, a fotografia em preto e branco é de encher os olhos, com algumas cenas que dão profundidade às sombras, é de bater palmas. 

A direção de Bergman é aquele espetáculo, se você conhece a carreira do cineasta, sabe do que falo. Com belos planos, visual orgânico e arrebatador, é importante sempre ressaltar o quanto ele sabia extrair atuações fortes de seu elenco. Sua câmera, muitas vezes focada exclusivamente no rosto dos personagens, revela uma das maiores qualidades do mestre: era um excelente diretor de elenco e de atuações. Também nota-se como ele consegue passar cenas metafóricas que não necessitam claramente de uma explicação, pois além de poéticas e carregando aquela abstração que tais cenas necessitam, nunca são tão confusas a ponto de deixar o expectador perdido e não compreendendo o que ocorre, tampouco se esnoba a inteligência de quem assiste. Explicando melhor: por mais que muitas de suas cenas necessitem de uma reflexão e absorção, elas sempre são inteligíveis. Não é algo mastigado, mas é palpável. 


A obra tece um relato sobre a reta final e fim da vida, sobre ser assombrado pelos erros do passado, mas também sobre aproveitar as boas lembranças. Acaba servindo de metáfora para o próprio Victor Sjöstrom, que um dia fora um grande cineasta sueco, e agora aceita atuar em um filme do renomado Bergman, grande cineasta de mesma nacionalidade naquela época. Seria esse seu último papel, antes de falecer. Arte e vida real andando juntas. Poético, sem dúvidas. 


Morangos Silvestres é uma obra muito simples numa primeira observada, mas muito profunda em humanidade e arte. A cena final e como o foco da câmera fixa nos olhos dele e no seu misto de sentimentos, ali se diz muito, mesmo sem palavras. Repleto de elementos oníricos e simbólicos, Morangos Silvestres tem muito a dizer através de suas belíssimas imagens. Esse é o cinema de Bergman, sensorial.


Título Original:  Smultronstället

Direção: Ingmar Bergman

Duração: 91 minutos

Elenco:  Victor Sjöstrom, Bibi Andersson,  Ingrid Thulin, Max von Sydow.

Sinopse: Isak Borg (Victor Sjöström) é um professor de medicina que revisita vários momentos marcantes de seu passado durante uma viagem de carro até sua antiga universidade, onde ele irá receber uma honraria. Acompanhado de sua nora Marianne (Ingrid Thulin) ele evoca memória de sua família e de sua ex-namorada. Durante a viagem ele conhece uma garota adolescente que em muito se assemelha a Sara, seu antigo amor. A jovem pega carona com o professor e Marianne. Quanto mais Borg recorda as decepções e desilusões que viveu, mais ele se sente frio e cheio de culpa. Esses sentimentos se afloram quando ele encontra seu filho, igualmente frio e ressentido.

Trailer:



E você, já assistiu a este clássico? Gosta dos filmes de Ingmar Bergman? Comente, participe!


Léo Costa

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