Crítica: Wasp Network (de Olivier Assayas)



Wasp Network chega ao Brasil, país do escritor Fernando Morais, o responsável por escrever o livro que deu origem a obra (Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de 2011) que conta a história de três dos cinco espiões infiltrados nos Estados Unidos para impedirem o enfraquecimento e, por conseguinte, o fim do regime comunista cubano. Os intérpretes destes espiões são Edgar Ramirez (A Garota no TremBright American Crime Story), Wagner Moura e Gael Garcia Bernal. De maneira muito confusa o roteiro e a montagem os inserem nesta Miami onde cubanos chegam todos os dias para tentar fugir de seu país em crise, após grave embargo estadunidense no início dos anos 1990, que impedia qualquer cidadão do país de negociar com o governo cubano. 

O que se destaca são os cortes do filme, que estão todos tronchos e perdidos, parecendo num primeiro momento, que não havia material o suficiente filmado para que a história se desenvolvesse, fazendo assim com que o editor e o diretor tivessem que se descabelar na ilha de edição para conseguirem entregar um filme minimamente inteligível. Porém, com o desenrolar do filme, percebemos que grande parte desta edição é escolhida por estética, agravando os problemas, visto que já estava problemático imaginando que foi por falta de material, imagina só sabendo que é uma opção estética, tentando deixar o filme mais estiloso do que precisava. Além disso em um momento do filme aparece um voice over no melhor estilo Adam McKay (A Grande Aposta Vice) tentando explicar algo que já estava muito bem explicado, conseguindo a proeza de tornar Wasp Network confuso e redundante ao mesmo tempo. 


O roteiro do filme é fraco por si só e parece uma trama B dos anos 90 onde as mulheres são usadas apenas como gags para trabalhar as nuances dos personagens masculinos. Para ser justo, Olivier, conhecido por ser um diretor "ótimo em dirigir mulheres" (sic.), até tenta vez ou outra encaixar alguma nuance diferente nas duas coadjuvantes do filme, Olga Salanueva (interpretada por Penélope Cruz) e Ana (Ana de Armas), mostrando que elas não são ingênuas e que são pessoas fortes. Mas nada disso se aplica no filme, sendo que a primeira é relegada a dona-de-casa que sofre pelo marido e a outra é literalmente esquecida pelo filme após ser usada pelo personagem de Wagner Moura. 

As atuações no geral são boas, o trio de protagonistas estão muito bem e o elenco masculino no geral não decepciona. Mas é em Penélope que o filme se encontra e as únicas duas sequências boas do filme é a atriz que carrega nas costas, conseguindo trazer alguma coerência a esse amontoado de cenas jogadas.



Olivier Assayas (Personal Shopper), tenta trazer um senso de imparcialidade a essa história, que nitidamente foi um dos maiores absurdos dos Estados Unidos em relação a Cuba,  colocando os dois lados como vilões e culpando a política externa dos dois países. Mas o que ele não nota, é que ao trazer esse olhar tão imparcial de um cidadão francês que muito pouco ou nada tem a ver com essa relação de opressão entre o governo estadunidense em relação à América Latina como um todo, é que ele fica do lado do opressor.

No fim, ele coloca uma ótima fala de Fidel Castro, dizendo que Cuba mandou sim espiões para os Estados Unidos, mas que acha engraçado que o país que mais espia no mundo fica tão ofendido com isso, visto que, ainda, Fidel buscava apenas desarticular terroristas dentro do país vizinho e chegou a avisar as autoridades dos Estados Unidos sobre este grupo. Só que esta fala no filme, serve apenas para reafirmar a imagem do político orgulhoso que usa cidadãos para fazerem seus serviços mais sujos. Mostrando a força destrutiva da narrativa incutida nesta obra. 


É difícil para nós brasileiros, e ainda mais, para o diretor francês, entender essa necessidade de defender seu país, que tanto os cubanos como os estadunidenses têm. E o cineasta insiste em tirar a força de vontade desses agentes e os colocam como meros peões de seus governos. 

Mas no fim das contas, discutir o assunto que este filme trata, já é dar a ele uma visão melhor do que ele merece, pois em nenhum momento ele consegue realmente dizer do que se trata. E todas as discussões aqui são suscitadas ou por conhecimento prévio de quem os escreve ou proveniente da coletiva do filme, onde o diretor tentou justificar algumas de suas escolhas.




Rodrigo Teixeira (grande produtor brasileiro), errou ao escolher alguém tão alheio a este conflito para adaptar o livro tão minucioso de Fernando Morais. Melhor que ver este filme, é ler a obra original, ou ao menos assistir a entrevistas do próprio autor do livro que deu origem a trama, que conta inclusive que Gabriel García Márquez (Prêmio Nobel de literatura) era usado como pombo de recados entre Bill Clinton e Fidel Castro.




Entrevista de Fernando Morais Sobre seu Livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria


Entrevista de Fernando Morais no programa do Jô



O filme ainda não tem data de estreia aqui no Brasil, mas me diz aí, qual a sua expectativa pra ele? Já leu Os Últimos Soldados da Guerra Fria? Vamos conversar.

Rodrigo Zanateli ;)

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