Crítica: Tungstênio (2018, de Heitor Dhalia)




Cidade de Deus, marco inegável no cinema nacional, trouxe uma safra de projetos na mesma linha – a exploração da favela como um universo a parte, tendo vilões, mocinhos, e todo tipo de drama e ação envolvida. Não é à toa que Tungstênio, do diretor Heitor Dhalia, venha dar voz à periferia nessa adaptação da HQ escrita por Marcello Quintanilha. 


Acompanhamos a história de quatro personagens cujos enredos se cruzam em diversos pontos da narrativa, cada qual com seu drama e desenvolvimento próprio. Há Caju, um jovem traficante; Ney, um ex-militar com características notadamente fascistas; Richard, um policial sem estereotipação maniqueísta e, por fim, a bela e deslocada Keila, esposa de Richard. Cada um é uma peça de xadrez – ou deveria ser -, no montante que diz respeito ao enredo principal cujo estopim é a explosão de peixes numa praia de Salvador. 


Logo de início, temos a intrusiva narração de Milhem Cortaz, que invade tanto a cabeça do expectador quanto a dos personagens da trama, dando uma profundidade, sagacidade e interesse único na obra, sendo um dos grandes acertos do longa. Posto isso, a organicidade contida nas interações entre os personagens é outro ponto alto do roteiro, que aposta em flashbacks muito bem colocados – nunca caindo num didatismo desnecessário. 

Apesar do tempo em tela ser muito balanceado entre os quatro baianos, o principal problema do filme reside justamente na resolução do enredo de cada um. Parece que toda a profundidade trabalhada durante os 79 minutos de projeção não suprem o fechamento de arco dos personagens, principalmente no que diz respeito a Caju e da injustiçadíssima Keila. Interpretada de maneira fenomenal por Samira Carvalho, a personagem tem uma trajetória excepcional e comovente, que nos deixa ansiosos pelo que virá a seguir. Infelizmente, o fechamento de seu arco é vergonhoso, desrespeitoso e anticlimático perante ao que foi estabelecido anteriormente. Não bastasse isso, sua narrativa fica avulsa em relação ao resto do enredo, causando deslocamento de foco. 


Os outros personagens têm seus encerramentos mais orgânicos, porém ainda sem fazer jus ao resto do roteiro. O elenco, em contrapartida, está muito bem entrosado e as interpretações são deliciosas de se assistir. Sentimos raiva de Ney, interpretado por José Drumont, ansiedade pelo policial Richa, de Fabrício Boliveira, empatia por Keira e pelo Caju de Wesley Guimarães, sentimos fogo no olhar e senso de justiça - não uma justiça resoluta, mas sim pessoal e egoísta, que move a trama como um todo. 

Além do elenco, a fotografia e senso estético se destacam. Planos gerais captam com maestria toda a beleza de Salvador, e o excesso de plano contra-plongée intensifica o ar quadrinesco já reforçado por toda a narrativa. Ainda que claramente adaptado dos quadrinhos, é incrível como esse conjunto funciona de maneira verossimilhante, nunca nos fazendo questionar a veracidade do filme. Isso soma-se às ótimas, muito bem filmadas e coreografadas cenas de ação, capazes de tirar o fôlego do expectador. 


Esse conjunto de altos e baixos definem o que Tungstênio é. Pautado no novo cinema nacional, que tem trazido obras audiovisuais melhores do que nunca – mas continuamente desvalorizadas pelo grande público - , abraça também o que o Brasil já faz há anos: trazer a voz da periferia para as telas e expor problemáticas socioculturais diversas. Seu fechamento, por fim, talvez seja um tanto episódico demais aproximando-se do formato de um piloto de série de tv, o que talvez justificasse o encerramento abrupto dos arcos. No mais, o ritmo acelerado e os personagens fortes sustentam esse longa metragem que, definitivamente, merece nossa atenção.


Direção: Heitor Dhalia

Duração: 79 minutos


Elenco: FabrícioBoliveira, Samira Carvalho, José Drumont, Wesley Guimarães, Milhem Cortaz, Pedro Wagner, Sérgio Laurentino, Heraldo de Deus, Giordano Castro, Jamile Alves, Juarez Alves, Claudia di Moura, Bertho Filho, Jean Pedro, Ricardo Gonzaga e Evaldo Macarrão.
Sinopse: Um sargento do exército aposentado, um policial e sua esposa e um traficante se unem por um objetivo comum. Quando pessoas começam a utilizar explosivos para pescar na orla de Salvador, os quatro fazem de tudo para acabar com esse crime ambiental.



Trailer:

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Da SIlveira

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