Coletiva de Imprensa de O Farol

Confira a crítica do filme O Farol em: Crítica: O Farol (Robert Eggers, 2019)

No dia 29 de outubro, aconteceu em São Paulo uma coletiva de imprensa sobre o filme O Farol com o diretor Robert Eggers, o produtor Rodrigo Teixeira e um dos atores protagonistas do longa, Willen Dafoe, que conversaram sobre a experiência de realização do longa que já é vencedor do Prêmio da Crítica da Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes, e considerado um dos melhores filmes do ano pela crítica. Confira abaixo uma seleção das melhores perguntas e respostas da coletiva:


  • Robert, como foi a dinâmica de trabalho com os atores para criar esse clima desconfortável entre os dois, mas que consegue fazer o público acompanhar a história?
Robert Eggers: Bom… você começa escolhendo dois atores loucos, isso já ajuda muito e a linguagem cinematográfica do filme era muito específica, já estava preparada antes dos atores se juntarem ao projeto. E até antes disso, através do roteiro, já estava muito específico, por exemplo alguém coçando a orelha ou mexendo em uma folha para fazer um cigarro. A oportunidade de algum tempo antes já trabalhar com os designers para criar a atmosfera do filme, também ajudou muito. A gente já tinha tudo isso pronto, pra quando chegar o momento já estarmos preparados pra enlouquecer, dentro das regras rígidas.

Willem Dafoe: Isso chega ao ponto que eu vou falar, para um ator, o mundo que o Eggers criou na parte do designer, no visual e na parte da linguagem do filme… É algo muito preciso… É uma precisão que eu percebi quando assisti A Bruxa e foi o que me fez ter o interesse de telefonar para ele e dizer que eu queria trabalhar com ele. Para um ator, quando esse mundo já está completo, articulado, complexo e receptivo, você simplesmente entra no trabalho, se sente convidado e já começa a trabalhar nele.
  • O Rodrigo comentou na última Comic-Con que você buscou um tipo específico de câmera pra fazer o filme, eu queria saber sobre essa parte técnica e até sobre a construção do farol. E também queria saber um momento curioso do filme que muitas vezes acaba não sendo comentado.
Robert Eggers: No mundo perfeito, eu teria construído tudo que está dentro do filme, pois isso me daria muito mais controle. Mas como esse é um filme caro, acabei procurando um farol que já existisse e que a gente pudesse usar. Mas, felizmente eu acabei não achando, e a gente acabou ficando em uma pedra no meio do Oceano Atlântico totalmente desconfortável e desconcertante, para construir do zero esse farol. Foi difícil, mas valeu a pena, e a gente acabou construindo tudo no filme, incluindo a parte da mobília. 

Para capturar esse mundo sombrio e austero do farol, preto e branco era a única escolha, trabalhar com cores não iria resolver. Robert Pattinson comentou que o interior do farol parecia romântico, então preto e branco. O preto e branco faz com que o filme pareça antigo, um fato que nos remeta ao passado, eu descrevi pra vocês a questão da austeridade no filme. A melhor forma de conseguir a textura seria por meio do filme preto e branco 35mm, esse tipo de filme não mudou desde que foi inventado, pra conseguir esse granulado, essa pigmentação tinha que ser preto e branco. 

O ideal teria sido usar também o método orto-cromático que não existe mais, e que não era sensível ao vermelho, que acabava se tornando preto. O diretor de fotografia inventou esse filtro para o filme, o que acabou ajudando a dar esse efeito que a gente queria no filme.

A gente também usou lentes da década de 30 e até de 1905, que dão um aspecto sensível em contraste com a atmosfera dura do filme. E por fim, usamos uma janela de filme, que é melhor para gravar em interiores e dar a atmosfera de claustrofobia, além de poder gravar um dos rostos mais bonitos da história do cinema.

Willem Dafoe: Basicamente muito pouco foi cortado do filme, foi muito bom saber que todas as tomadas foram completamente planejadas. Teve uma cena que foi cortada, a única em que eu estava totalmente sozinho, senti falta dela, mas talvez ela acabasse se tornando repetitiva e estaria em um ritmo que não estava alinhado ao resto do filme, é uma cena em que eu cantava bêbado.

Robert Eggers: Eu gostei da cena, nós até tentamos colocar no final, nos créditos, mas ia ficar um pouco confuso.
  • Rodrigo, A Bruxa e O Farol tem histórias muito diferentes. Como funciona pra você o processo de escolher as histórias em que você trabalha?
Rodrigo Teixeira: Na verdade, eu escolho trabalhar nos filmes que eu gostaria de ver. Eu gosto muito de cinema e quando eu conheci o Robert, quando ele fez o Pitching, eu me surpreendi, pois eu nunca tinha visto alguém tão certo do que queria fazer durante um filme. No dia seguinte eu falei com ele de que iria financiar o filme dele e ele aceitou, contanto que eu convencesse o fotógrafo a fazer em preto e branco. Ele me enviou o roteiro e quando eu li, eu ria e estranhei isso, não era pra rir, mas eu achei engraçado e achei um dos melhores roteiros que já tinha visto. Eu só não tinha gostado de uma cena do roteiro que eu achava que não dava pra ter no filme, a gente tirou essa cena. Ele me falou que queria trabalhar com o Willem Dafoe e com o Robert Pattinson, com esse casting a gente já conseguiu fazer o financiamento do filme e 4 meses depois estávamos filmando.
  • Robert, como foi trabalhar com Willem Dafoe, escolher esse ator para esse papel? E Willem, esse papel é muito difícil de fazer. Gostaria de saber qual foi a cena que mais te cobrou fisicamente no filme.
Robert Eggers: Além do fato de Willem Dafoe ser um dos melhores atores que já existiu, ele também pode incorporar qualquer tipo de personagem, cômico, sério, triste, sádico, qualquer um, e quando ele faz um vilão, você vê que tem alegria nos olhos desse vilão, essa dinâmica e essa natureza mercurial era essencial para o guarda do farol. Quem mais poderia ter feito isso?

E também, eu não sei se isso é algo que se perde para alguém que não domina o inglês como ngua nativa, mas o sotaque dele, a fala dele no filme é basicamente a fala de um personagem de pirata de desenho animado, ninguém mais além do Dafoe conseguiria tornar isso tão real, eu acho que qualquer outra pessoa que fizesse esse personagem iria ser um pouco abusivo em relação ao público, então, sorte a minha.

Willem Dafoe: Ele só fala assim de mim no Brasil. Obrigado Robert, mas vou fingir que não escutei nada disso. O momento mais difícil fisicamente só poderia ser, ser enterrado, por ser tão sugestivo, está acontecendo com você, se eu colocar qualquer de vocês em um buraco no chão com suas costas tocando a água fria, e ao mesmo tempo que isso acontece, lhe é dado uma fala poética que você tem que ir falando enquanto alguém joga terra em você, e você tentando manter seu fôlego e tendo que falar, é uma experiência que vale para todo mundo.

Mas eu queria acrescentar que nada é difícil quando se tem o prazer de fazer o que você quer fazer, de ser transportado e ser transformado.


  • Uma das primeiras sequências do filme é uma quebra de quarta parede, qual foi a intenção?
Robert Eggers: Eu gosto muito de fotografia de retrato, então porque não usar no meu filme? É uma cena em que eu falo: Essas são as pessoas que você vai acompanhar nas próximas 2 hrs.
  • Willem Dafoe, você tem muitos monólogos e textos longos durante o filme, qual seu método para decorar essas falas longas?
Willem Dafoe: Não foram longos para mim. A verdade é que eu venho do teatro, então eu to acostumado com isso, já fiz uma peça em que eu tinha que falar por 3 horas e meia sem parar, isso sim é muito texto. 

O Farol é um texto elaborado, poético, complexo, então é claro que você tem que preparar o texto, pode usar a música, o ritmo. Pode aprender de várias formas, como uma música, uma série de imagens que você tem que amarrar uma na outra, e também da intenção sua de falar essas palavras pra quem você vai falar, você pode até mudar entre esses modos para decorar. Acho que qualquer pessoa que é cantor ou cantora, faz isso. Não é apenas ensaio, dentro de uma estrutura rígida, é claro que você tem uma estrutura, mas saber como memorizar e os métodos, é o que faz o monólogo pulsar.
  • Como foi elaborada a maldição que o Defoe lança sobre o Robert Pattinson? Teve alguma referência do Zé do Caixão?
Rodrigo Teixeira: Na verdade não, essa não foi uma referência que veio até mim quando eu li o roteiro. Sobre a maldição, ela só veio na cabeça dele, o Robert, como veio do teatro, tem essa influência, ele olha para o real e para o período, ele usa isso com referências para ele, na pré-produção se você vai a mesa dele, não tem nenhum espaço nela, são inúmeras referências, livros antigos, dá vontade até de roubar, é uma obra de arte e ele consegue aplicar todas essas referências no filme muito bem.

O Farol entrará em cartaz nos cinemas no dia 2 de janeiro de 2020, não deixe de assistir.


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Caroline Oliveira

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