O Humor Socialmente Relevante de Broad City





Broad City é sem dúvidas uma das comédias mais relevantes da atualidade, não apenas pelo seu humor excêntrico e espontâneo, mas também pela sua crítica social feminista que mesmo sutil se torna cada vez mais forte a cada temporada. A série acompanha a vida de Ilana Wexler e Abbi Abrams, duas jovens mulheres independentes e bem resolvidas (essa ultima talvez nem tanto) dispostas a viver suas vidas como bem entendem e tentando sobreviver em Nova Iorque. E embora a premissa da série pareça extremamente familiar, BC consegue fugir completamente do lugar comum de narrativas sobre jovens nova-iorquinos e entrega uma história complexa, porem fácil de se relacionar. Tendo ao todo cinco temporadas, a última exibida esse ano, a série abordou diversas temáticas, entre elas racismo, homofobia, maternidade, saúde mental, sendo questões feministas as mais recorrente na série.






Um dos temas centrais é a sexualidade feminina, e Abbi e Ilana trabalham o tópico com maestria e sem pudor. É interessante perceber como cada uma das duas personagens centrais tem sua sexualidade explorada de formas diferentes. Enquanto Ilana é muito mais segura quanto seu corpo e seus desejos sexuais, Abbi já é mais contida quando se trata de sua vida sexual. No quarto episódio da segunda temporada, Abbi finamente tem a chance de sair com seu vizinho Jeremy, e enquanto transa com o mesmo descobre que ele gosta de estimulação da próstata e, inclusive, tem um dildo anatomicamente customizado pra ele. Abbi fica tensa e recorre a Ilana, que explode de felicidade diante dessa preciosa oportunidade que Abbi tem de penetrar um homem. Nessa cena, fica clara a distinção das duas em relação a sexo, tendo Ilana uma mente excessivamente aberta, e Abbi, embora longe de ser uma pudica, não tem metade da desinibição da amiga. A série mostra como a vivência feminina é plural e cada uma lida com essas questões de maneira diferente, e também quebra com o estereótipo de que homens são seres mais sexuais que mulheres. 

Broad City explora a comédia de um ponto de vista feminino, e mostra que mulheres são tão engraçadas quanto os homens (e às vezes até mais). A série conta situações cotidianas das formas mais bizarras e improváveis possíveis, onde até uma ida ao Detran se torna uma jornada inesperadamente alucinante. Porém ao mesmo tempo mantendo um nível de identificação com o público, afinal quem nunca perdeu um dia inteiro resolvendo problemas burocráticos. Nossas protagonistas não têm medo de explorar o ridículo e fazer piada consigo mesmas. As duas, especialmente a Abbi, tem sempre que enfrentar problemas do cotidiano e manter uma atitude positiva em frente a eles. O senso de humor de Broad City é bem atípico mas estupendamente executado, trazendo piadas que provavelmente não funcionariam sendo contadas em outra série. 


A comédia do Comedy Central tem um jeito especial em abordar tópicos sensíveis de forma humorada, porém nunca ofensiva, comentando sobre situações como assédio ou fato de mulheres sem teto não terem acesso a absorventes. A série não necessariamente se esforça para ser política e fazer comentários sociais, nem tenta ser porta-voz de movimentos, mas as criadoras compreendem que não é possível contar histórias sem representar parcialmente a realidade, e é isso que Broad City faz: uma representação às vezes exagerada (mas nem tanto) de problemas sociais reais. A série desenvolve uma narrativa aparentemente simples e descompromissada, mas é possível perceber como o roteiro da série é bem pensado quando observado como um todo, com várias conexões entre temporadas além de piadas recorrentes e easter eggs que você precisa estar atento para perceber. 

O maior trunfo de Broad City é o desenvolvimento da relação de amizade das protagonistas, que chega a ser em muitos momentos codependente (como as mesmas percebem no último episódio), mas no geral é uma amizade que sobretudo é autêntica. É impossível não observar a relação entre Abbi e Ilana e não se ver representado nas suas relações com seus próprios amigos. Esse é o ponto no qual o roteiro da série mais se concentra e o resultado é brilhante. BC, diferente de séries como Girls e Sex and The City, se destacou por narrar uma amizade feminina que foca no desenvolvimento pessoal das protagonistas, ao invés de dar mais espaço para seus relacionamentos amorosos. Enquanto SATC gastava boa parte do seu tempo acompanhando os altos e baixos do complicado relacionamento entre Carrie e Big e Girls representava a amizade entre as protagonistas muitas vezes como uma relação tóxica, Broad City caracteriza Abbi e Ilana quase como almas gêmeas. E embora a relação entre as duas esteja longe de ser perfeita, é algo extremamente sincero e genuíno. 


Broad City engloba o zeitgeist dos anos 2010, representando questões bastante atuais e que caracterizam a juventude contemporânea, mas sem parecer redundante ou generalizada. A comédia provou que é possível criar um humor saudável e cativante sem recorrer a piadas ofensivas e preconceituosas, muito pelo contrário, construiu uma narrativa cômica de uma forma bem original e abordando problemas sociais relevantes.


Título Original: Broad City

Diretores: Lucia Aniello e outros

Episódios: 50 episódios 

Duração: 25 min. aprox.

Elenco:  Abbi Jacobson e Ilana Glazer

Sinopse: Duas amigas tentando tirar o máximo de proveito de suas vidas em Nova Iorque.


Trailer:

Não percam essa série incrível!


Gabriel Magarão

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