Crítica: Pacarrete (2019, Allan Deberton)



    Colocar uma mulher de meia idade no papel de protagonista já é motivo suficiente para darmos a atenção que esse filme precisa. Pacarrete é o nome da nossa protagonista, e que significa “margarida” em francês.

    Quem dá vida a esta encantadora personagem é Marcelia Cartaxo. Trata-se de um filme diferente no meio cinematográfico brasileiro, pois não há muitos filmes que apoiem-se inteiramente numa mulher madura, e isto mostra o quão maduro é o projeto em si!

   Não há uma cena em que Pacarrete não esteja presente, por isso conseguimos absorver muito bem a identidade da personagem logo cedo. E esta nos conquista com seu jeito indomável, determinado, persistente, teimoso, sonhador e, apesar de um pouquinho arrogante, cativante! Pois sua irreverência e resiliência nos mostra como devemos agir quando queremos alcançar algo. 



    A fotografia tem uma câmera estável e expositiva. O filme possui uma decupagem simples, linda e criativa. A direção de arte também é algo que chama a atenção! Inicialmente temos cores mais quentes e convidativas, fazendo alusão à personalidade viva e forte de Pacarrete, mas ao desenrolar da trama, a nossa protagonista sofre duros golpes, e a vida começa a perder cor. A paleta torna-se fria e triste, e quando a luz da fotografia mingua, Pacarrete se torna aquele pequeno ponto de luz e esperança, ressurgindo, resistindo.

    O filme claramente fala sobre a luta do artista para ser reconhecido por seu trabalho, valor e arte. A cidadezinha de Pacarrete está prestes a completar 200 anos, e a protagonista pretende apresentar um número de balé na festa que a cidade fará para comemorar a data. E apesar de apresentar a proposta na prefeitura, estes acabam negando seu pedido, pois dizem que a identidade do público não é o balé, mas sim o sertanejo. 


     É um filme de diálogos simples, conversas banais, mas que reverberam coisas importantes e urgentes! Relevantes! Há poesia e beleza em falar de coisas rotineiras, se abordarmos da forma correta. É um filme que promove um mix de sentimentos. Faz o público ir do riso até o choro. Algumas vezes chorando de rir, inclusive. E não é um tipo de humor escrachado, apesar disso! É, na verdade, muito inteligente! Esse filme merecia todo o destaque que outras obras magníficas também estão recebendo/merecendo. Apesar da dificuldade, o Brasil está lançando filme de alta qualidade e de gêneros diferentes entre si. Este, no caso, é um filme muito cativante, e que facilmente agrada a todos. Por mais mulheres maduras no papel de protagonistas! Na verdade, por mais protagonismo feminino de qualquer idade e não só no cinema!
       
       Acredito que o longa-metragem queira tecer uma crítica às cidades que se esquecem que, se hoje completam 100, 200 ou sei lá quantos anos, é porque antes de todos os que vivem lá hoje, a cidade foi erguida por outras pessoas, que foram/são tão cidadãs quanto os contemporâneos, e também merecem seu respeito e valor. Crítica esta que cabe à cultura brasileira, que geralmente exclui o antigo. Um país que não se importa com a história não pode ter futuro. E isso vale para o respeito pela educação, cultura e à arte.



     Eu, particularmente, adorei o filme, embora acredite que quase perto do meio tenha cenas desnecessárias, em que já conhecemos a personagem, portanto torna-se alongado demais o filme. Outro momento em que acredito que o filme tenha excessos é no final, quando ela se encontra deprimida. Já entendemos pelo que ela passa, e além disso é realmente muito deprimente... Torna-se arrastado e quase insuportável sofrer com ela. Porém, é um filme potente! Quando acreditamos que Pacarrete está cedendo à escuridão, à depressão e à solidão, ela “renasce” metaforicamente falando... Dança lindamente seu balé. Acredito que a cena simboliza de alguma maneira que a personagem percebeu que, infelizmente, se quiser resistir terá que dançar, mesmo que sozinha, mesmo que sem aplausos, pois “o que é um pontinho de luz em meio à escuridão?” A esperança, a resistência. Uma artista! Pacarrete! 




Título Original:  Pacarrete

Direção: Allan Deberton

Duração: 97 minutos

Elenco:  Marcelia Cartaxo, Zezita Matos, Soia Lira, João Miguel (...)

Sinopse: Pacarrete é uma mulher de meia idade que pretende apresentar um número de balé no aniversário da cidade, mas parece que a secretaria de cultura tem outros planos para a festa. Quando ela se vê sozinha e sua arte desprezada, decide que é hora de tomar uma atitude. 


Trailer:



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Amanda Mergari

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