Crítica: O Homem Cordial (2019, Iberê Carvalho)



   O novo longa-metragem de Iberê Carvalho, O Homem Cordial conta a história de um cantor de rock, que fazia muito sucesso com sua banda nos anos 80, mas hoje a realidade não lhe sorri tanto assim. Paulo Miklos dá vida ao cantor Aurélio. E logo no início do filme o vemos em um show cantando com entrega total até que começa a ser vaiado e as pessoas, num ato radical e violento, começam a lhe atirar coisas, comidas, e a xingá-lo dos piores nomes.
    O filme todo é feito com câmera na mão. A estética adotada talvez queira refletir um Brasil instável e incerto, no qual vivemos e não é de hoje, mas que, com a utilização da tecnologia de forma exagerada e equivocada, acabamos tendo um Brasil mais dividido ainda. Quando um celular ou qualquer tipo de dispositivo com câmera é utilizado como ferramenta maldosa, tendenciosa e corrupta, acaba destruindo vidas. Hoje um celular não é apenas um aparelho, mas uma perspectiva, um olhar, uma arma. Um enquadramento muda tudo. Vídeos, fotos, se tornam fofoca. Uma notícia virtual, uma espécie de Fake News, que são criadas todos os dias (cada vez mais) para mudar nossas opiniões, influenciar, manipular, instigar, usar nossas emoções e crenças, gerar comoções descontroladas. 
    Iberê Carvalho, o diretor, disse que a primeira ideia do filme surgiu após ter assistido um vídeo de uma criança sendo espancada na rua porque disse que concordava com o impeachment de Dilma, e que não considerava aquilo um golpe. O vídeo havia viralizado. Portanto não é só preocupante que pessoas tenham espancado uma criança, como também o fato de pessoas terem filmado a ação – seja em tom de aprovação ou como forma de denúncia dos agressores. É absurdo sequer um vídeo desses existir. Pois não seria mais ético e humano os que filmaram estarem parando a ação do espancamento infantil? Independente da opinião da criança, a violência não é o caminho. Iberê conta que ficou abismado com o caso, e que a situação da polarização ideológica o perturbou muito. Assim, o diretor se mostrou não ser uma figura radical, mas quis transmitir com sua obra a importância de se manter um equilíbrio e, claro, manter o senso crítico funcionando tanto para um polo quanto para outro. Sempre filtrando o que aceitar, o que concordar e o que discordar para que nada nos cegue. 
    Além disso, o fato do vídeo viralizar, por si só, é preocupante também, afinal, porque tantas pessoas quereriam assistir à uma violência dessas? Só se a violência dos seus iguais atraí-las de alguma forma. O diretor quis promover a reflexão à respeito dos absurdos de uma polarização muito radical. 
    O cantor Aurélio se envolve em uma polêmica quando vê uma criança ser acusada de roubo por vários adultos, no meio das ruas de São Paulo. As pessoas a seguram, agridem verbalmente. O cantor chega e intervém na confusão. Ajuda a criança a fugir. Ela corre e deixa todos para trás. O fugitivo está assustado com as acusações. Chora e morre de medo. Um policial o persegue, e eis que o cantor Aurélio é culpabilizado por sua morte. Como? Por que? Essas lacunas vocês precisarão preencher sozinhos após assistir o filme. Mas é bom já saberem que muitas outras questões não são resolvidas ou respondidas pelo filme. Isso ocorre, eu acredito, para sentirmos na pele a situação desconfortável e insatisfatória que muitas pessoas se encontram. Pessoas que têm seus familiares desaparecidos, e as buscas se encerram e muitas vezes nunca vêm a saber a verdade dos fatos. O que de fato aconteceu e qual foi o destino dos personagens que acompanhamos ao longo do filme todo? Nós sentimos empatia, nos aproximamos deles, conhecemos suas lutas, e depois acabamos por ficar sedentos, não só por justiça, mas também por querer saber onde estão hoje, o que fazem, e se sequer estão vivos.


    E à respeito do título do filme: O Homem Cordial é uma influência adotada da obra literária de Sérgio Buarque de Holanda publicada em 1936, que trata-se de uma análise e um estudo histórico-sociológico e também filosófico à respeito dos estereótipos conferidos ao brasileiro. Para definí-lo são usados os termos: hospitaleiro, acolhedor, sofrido porém feliz, malandro, gentil, e, claro... cordial. 
    As reflexões na obra é sobre se tais atributos são fruto da interpretação que os estrangeiros têm sobre nós e por isso nos definimos assim, ou se nós somos de fato assim. O Brasil é um país grande, multifacetado. Encontrar uma identidade fixa para nós não seria nunca adequado, fiel ou definitiva. Aliás, para nenhum país, seja grande ou pequeno. E então Sérgio evidencia onde quer chegar. A conclusão de seus estudos em profunda análise é a de que tais virtudes não seriam “bons modos”. No fundo é o contrário de polidez. É uma máscara, um disfarce utilizado para esconder suas verdadeiras convicções para, assim, manter sua supremacia ante o social. Holanda aponta que o brasileiro teria, ao mesmo tempo, uma vontade de manter certa intimidade e também não estabelecer qualquer convencionalismo ou formalismo social. É como se fossemos vistos como um país grande e cheio de diversificadas culturas, e que isso automaticamente já nos faria um povo unido, tolerante, que respeitaria nossa história, origem e cultura multifacetada. Gostamos de ser vistos/definidos assim pelos países alheios, mas não é bem assim que isto se dá na prática. Logo de cara o link que estabeleci com o filme e seu título foi esse, mas não tive qualquer confirmação sobre se seria isso mesmo. E você, o que acha? 
 

Título Original: O Home Cordial

Direção: Iberê Carvalho.

Duração: 83 minutos.

Elenco: Paulo Miklos, André Deca, Bidô Galvão, Bruno Torres, Dandara de Morais.


Sinopse: Aurélio é um cantor de rock que se envolve numa polêmica após defender uma criança que supostamente roubou uma senhora. No meio da confusão, um policial acaba sendo morto, e o cantor acaba sendo responsabilizado por sua morte. Aurélio, além de buscar provar a sua inocência vai acabar descobrindo que sua realidade está ruim, mas não é a pior que pode existir.

Trailer:

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Amanda Mergari

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