Crítica: Saneamento Básico, o Filme (2007, de Jorge Furtado)


Em Saneamento Básico, o Filme, um grupo de moradores de uma cidade pequena do Rio Grande do Sul precisa organizar a construção de uma fossa. O problema é que a única verba disponível só pode ser liberada pelo governo através da realização de um projeto audiovisual. Sem outra opção, os moradores então decidem fazer o tal vídeo e embarcam em uma jornada cinematográfica no processo. 

Minha primeira experiência com esse filme foi acidental. Ele estava passando na televisão durante uma madrugada e, conforme a trama foi se delineando, me parecia um pouco inacreditável que aquela era a história a ser contada, mas a curiosidade prevaleceu… E é assim que Saneamento Básico conquista você, aos poucos, com piadas bem construídas e um sentimento de aleatoriedade tão denso que a experiência é, inicialmente, um pouco confusa. Afinal, o que eu acabei de assistir?


O elenco é a primeira coisa que chama a atenção: entre os moradores estão Marina (Fernanda Torres), que toma a liderança do grupo, Joaquim (Wagner Moura), seu marido, e o casal Fabrício (Bruno Garcia) e Silene (Camila Pitanga). São rostos que estamos acostumados a ver e que imediatamente contribuem para um senso de familiaridade, facilitando que continuemos através da trama inicialmente excêntrica.

Cada ator executa seu papel de forma muito eficiente, seja no personagem adorável e bobão de Wagner Moura ou na versatilidade de Fernanda Torres em momentos engraçados e dramáticos. A verdadeira estrela, entretanto, é Camila Pitanga, que rouba cada momento em que aparece como Silene Seagal e protagoniza grande parte das sequências mais engraçadas do filme todo. O único personagem que fica mais apagado é Fabrício, mas justamente porque sua personalidade é menos simpática e menos carismática do que a dos outros. 


Depois que a trama da realização do vídeo é estabelecida, o filme segue mais ou menos as etapas de produção de uma obra audiovisual, desde a criação da trama até a edição do vídeo e sua distribuição. A comédia e os conflitos surgem de forma completamente inusitada conforme os personagens reagem aos obstáculos que surgem. O valor de uma fita é comparado com o de uma cadeira e o de um vestido com sacos de cimento, de forma que, mesmo exagerada, a trama nunca parece distante da realidade dos personagens e de seus valores. 

Um recurso interessante do roteiro é alternar entre momentos de comédia e de maior carga emocional, sendo que a ausência de um reforça a importância do outro e cria terreno para que as coisas surjam de forma inesperada. Uma das sequências de comédia mais famosas do filme, a primeira gravação de Silene, é seguida por uma conversa entre Marina e Otaviano (Paulo José), seu pai, na qual podemos perceber a fragilidade dos dois frente às incertezas da situação. Otaviano é inicialmente apresentado como um velho meio ranzinza, meio engraçado, mas esse momento permite que suas ações sejam recontextualizadas dentro de seu sofrimento e que, mais tarde, quando a importância do vídeo se torna muito maior, possamos entender a trajetória dele, de Marina e dos outros personagens até esse entendimento. 


Outro aspecto que fortalece a narrativa do filme é que o conflito central é mantido em um nível realista, geralmente ao redor de questões logísticas e financeiras, de forma que os personagens precisam fazer sacrifícios para continuar a realização do vídeo. Seria fácil embarcar em uma bobagem depois da outra, – e provavelmente muito engraçado - mas é justamente a simpatia gerada pelos momentos de comédia que permite que, quando Marina entra em crise ao perceber que o vídeo está ficando terrível, seu conflito pareça muito maior e muito mais pessoal para nós. 

Saneamento Básico é um filme que assisto cerca de uma vez por ano, geralmente apresentando a obra para outra pessoa. Sempre acho que não vai ser tão engraçado dessa vez e sempre confirmo que estou errado. É sempre um prazer retornar para o universo de personagens tão queridos, em situações tão engraçadas e imersos em uma escrita tão sensível. 


Título Original: Saneamento Básico, o Filme

Direção: Jorge Furtado

Duração: 112 minutos

Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Bruno Garcia

Sinopse: Os moradores de uma pequena vila planejam a realização de um vídeo, apenas para pegar a quantia oferecida pelo governo federal e usá-la na realização de uma obra para o tratamento do esgoto.



Trailer:


Saneamento Básico, o Filme, está disponível na Netflix. Você já assistiu? Deixe sua opinião nos comentários!

Guilherme Amado

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