Crítica: No Coração do Mundo (2019, Gabriel Martins e mais)


Essa é uma história que poderia muito bem existir fora da ficção. Aliás, ela existe, só que de formas diferentes. Em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, diferentes narrativas se encontram. Marcos busca sair da criminalidade, e é tachado de vagabundo por não procurar um emprego fixo. Sua namorada, Ana, alterna seus dias entre ser cobradora de ônibus e cuidar de seu pai. E Selma, amiga de Marcos, só quer encontrar uma forma de mudar de vida.

Quando recebe informações sobre relógios que valem milhões, Selma convida Marcos para participar do crime, e há somente um problema: Ana. Ela não quer se envolver com coisas desse tipo e nem gostaria que o namorado o fizesse. Assim, talvez, as coisas fossem menos piores do que já eram. Eles não precisavam de mais um problema.


Embora essa seja a trama principal de No Coração do Mundo, esse filme é muito mais do que a sinopse conta. Personagens e histórias secundárias fazem parte da narrativa tanto quanto os protagonistas, e é através delas que nós temos um olhar mais amplo sobre a vida na periferia de Minas Gerais. Como se não bastasse o Estado estar contra aquelas pessoas, elas criam conflitos entre si mesmas. Ali, quase todos têm uma arma, e a justiça é feita pelas próprias mãos. Erros são cometidos e pessoas precisam fugir, mas nem sempre o fazem. No final, nada fica bem.

A luta pela sobrevivência e pela mudança é clara. Eles só querem estar em um lugar melhor, no coração do mundo, onde realmente se sentissem em casa. Uma vida de misérias e migalhas não é uma vida de verdade. É a busca por ascensão, por sair da vida medíocre na qual vivem, que os fazem se voltar para a vida do crime. Em um mundo onde os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres ficam cada vez mais pobres, essa parece a única solução.

Através de planos longos, em sua maioria, a câmera estática com foco nas personagens que compõem cada cena, diálogos interessantíssimos se dão, capazes de prender o olhar até dos mais desatentos. Verdadeiros, tristes, engraçados e ácidos, recheados de palavrões cotidianos e sotaques mineiro e carioca, são eles que dão profundidade às personagens e que, consequentemente, fazem a história caminhar.


As atuações estão no ponto certo, e por alguns momentos nós nos esquecemos de que aquilo não é real. Kelly Crifer, Leo Pyrata e Barbara Colen surpreendem, e incorporam suas personagens com extrema familiaridade, mas são as de Grace Passô e MC Carol de Niterói que marcam o longa. Desde o início, Passô traz uma profundidade arrebatadora à sua personagem, e MC Carol brilha tanto em seu papel que nos faz questionar por que ela não havia feito isso antes. Em geral, o elenco foi muito bem escolhido e não precisam de muito para nos convencer do que está sendo tratado em tela, e isso por si só já merece aplausos.

Logo no início do filme, com uma visão ampla de Contagem, a fotografia chama muito a atenção. Sem tirar a realidade crua das cenas, o espectro que nos é mostrado tem um quê artístico, e isso precisa ser valorizado. Ela se encaixa perfeitamente na narrativa, porque faz com que o espectador emerja naquela vida e tenha, junto com as personagens, esperanças de melhorar.


A edição e a mixagem de som também são pontos muito positivos. A ambientação é criada a partir delas, e é de uma essência incrivelmente brasileira conversar no portão e, ao fundo, bem longe, ouvir um sertanejo que alguém do bairro colocou no volume máximo. São esses pequenos detalhes – sons de tiros, uma televisão ligada e até mesmo a interação com objetos – que completam mais uma camada da obra. Além disso, trilha sonora também é marcante, e introduzir-nos à realidade de Contagem com BH é o Texas, do MC Papo, foi uma escolha excelente.

Apesar de todos os aspectos positivos, ao mesmo tempo em que as personagens fazem o roteiro caminhar, a quantidade de subtramas atrapalha. É trabalhoso conectar a vida de todos os que ganham histórias próprias se os acontecimentos nem sempre parecem funcionar bem em conjunto. Há um motivo, sempre há, todavia os encaixes necessitam tanto aprofundamento em certas vidas que, quando o filme acaba e elas não ganham um encerramento, o que nos resta é um incômodo sem fim. Pelo fato de boa parte do filme caminhar lentamente, a soma desses dois fatores faz soar como se cenas pudessem ser cortadas e, ainda assim, não atrapalhar o desenvolvimento da história.


O clímax é empolgante e capaz de causar nervosismo. Após tanto tempo simpatizando com as personagens, você entende suas perspectivas e torce o tempo todo para que elas alcancem seus objetivos. Você torce para que a vida delas dê certo e que elas encontrem, por fim, o seu lugar ao sol.

Por se tratar de narrativas cotidianas, o fim do longa é amargo e levemente desesperador, pois a realidade é esfregada na nossa cara sem a menor dó. No Coração do Mundo dói – é para doer. É o tipo de filme que, quando termina, te deixa questões para pensar, e nesse quesito ele cumpre bem o seu objetivo: ele mostra que a meritocracia não é um privilégio de todos.


Título Original: No Coração do Mundo

Direção: Gabriel Martins, Maurilio Martins

Duração: 120 minutos

Elenco: Kelly Crifer, Leo Pyrata, Grace Passô, Bárbara Colen, Robert Frank, Rute Jeremias, Renato Novaes, MC Carol de Niterói, Gláucia Vandeveld, entre outros.

Sinopse: Na periferia de Contagem, Marcos busca uma saída para sua rotina de bicos e pequenos delitos. Surge uma oportunidade arriscada, mas que pode solucionar todos os seus problemas. Para isso, ele precisa convencer sua namorada, Ana, a se juntarem a Selma e executarem o plano que pode mudar suas vidas para sempre.

Trailer:


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Karoline Melo

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