Crítica: Jornada da Vida (2018, de Philippe Godeau)


Esta é a história de Seydou Tall, um jovem ator que vive há muito tempo na França, mas tem suas distantes origens no Senegal, lugar que ele volta a visitar depois de muitos anos por conta de sua profissão. Esta também é a história do menino Yao, uma criança aficionada por literatura que atravessa o país para conhecer seu ídolo. Por fim e não menos importante, essa é uma breve história sobre o Senegal, um país pobre financeiramente, mas muito rico em costumes e sabedoria, de um povo alegre, expressivo e de muita fé.

O protagonismo solitário de Seydou no primeiro momento é o que precisamos para saber que ele detém o controle total de sua vida profissional, mas enfrenta uma amarga falência pessoal com a distância dolorosa de seu filho advinda de um divórcio que ele parece não querer e ainda luta para que não aconteça. Passa os dias como um palhaço triste que ganha a vida fazendo rir. 

Com sua chegada no Senegal, é recepcionado por uma cena espetacular: uma prece coletiva toma todas as ruas naquele momento e ele e sua equipe ficam presos, dentro do carro, em total silêncio e observação até seu encerramento. A religião muçulmana se apresenta com muita força no dia à dia do povo senegalês e deixa bem evidente sua importância. 


No hotel, onde acontece uma tarde de autógrafos de seu livro, ele se depara com o menino Yao, seu pequeno e esforçado fã que não mede esforços para conseguir a tão esperada assinatura em seu livro cheio de folhas arrancadas e que agora foram passadas a limpo . Nesse encontro, logo Seydou percebe que o garoto está sozinho e aquela situação causa curiosidade o suficiente para que muitas perguntas sejam feitas e um interesse mutuo se estabelecesse ali. O ator logo descobre sobre a loucura que Yao fez para o encontrar e isso inevitavelmente mexe com ele. Seydou acaba se sentindo responsável pelo menino e o convida para passar a noite no hotel, além de se oferecer para levá-lo à sua casa na manhã seguinte. 

Iniciaram essa jornada dentro de um táxi qualquer, com um motorista qualquer... ele, levado por cuidado, preocupação e um tanto curiosidade, já o garoto estava vivendo seus sonhos e aproveitando cada instante desse inusitado encontro com olhos atentos e muita alegria. 

Durante essa viagem é Yao que assume a condução dos acontecimentos, é ele quem detém o conhecimento de todo aquele novo universo que se abre diante dos olhos de Seydou. Um garoto apresentando a um homem cheio de si os valores de sua cultura que foram deixados para trás. Um mundo inteirinho de novas possibilidades, uma beleza singela, mas de uma importância incalculável que começa a mexer profundamente com esse homem que até aquele momento praticamente nem se lembrava de suas raízes. 


O filme tem uma construção simples e muito especial, não tem um grande trabalho de câmeras, tampouco cenas muito elaboradas. É em toda essa simplicidade que ele fala ao coração, e em cada conversa que parece à toa, cada breve acontecimento, cada silêncio prolongado, ele te entrega novas possibilidades e ainda mais certeza de que acasos não existem. E por falar em acasos, num determinado momento do filme fui tomada pela frase "O destino é Deus viajando escondido", e desde então isso reverbera repetida e amorosamente em mim. 

O roteiro é fluido e generoso, proporcionando que até mesmo os personagens que passaram mais rapidamente pela trama pudessem dançar com ela de uma forma muito perspicaz deixando sua mensagem e seguindo em frente. O filme tinha tudo para cair num melodrama sobre aquela tão explorada miséria na África mas, felizmente, o diretor nos conduz por outro caminho e nos apresenta um Senegal que tem consciência do lugar que ocupa, com suas dores e ressentimentos, mas que possui muita integridade, é forte e digno, e merece ser retratado com todo respeito e gentileza. Isso tudo se evidencia um pouco mais a cada instante em que os acontecimentos se dão e os laços se estreitam entre Seydou e Yao. E nessa linda relação que chega a ser parental, eles se falam no silêncio, com um olhar, num segurar de mãos, num abraço. Existe muita sinergia aqui. 


Philippe Godeau é muito certeiro na escolha do seu elenco. Omar Sy, além de um ator incrível, é dotado de um imenso carisma que te apaixona em cada novo trabalho. Lionel Basse, não fica atrás com o seu talento, sua sagacidade, e uma deliciosa dose de ironia no humor, destrinchando seu papel com muita naturalidade e perspicácia. No mais, todo o elenco de apoio é poderosíssimo na construção dessa história, cada um com uma importância muito pontual e indispensável. 

Assistindo esse filme eu revi todos os meus conceitos sobre fotografia, porque mesmo diante daquele cenário pobre, Senegal possui muitas belezas: seu povo repleto de cores e entusiamo, sua religiosidade levada muito a sério, seu deserto cheio de mistérios, seu mar que lava a alma e preenche de alegria. Encontrar uma beleza ímpar em toda essa simplicidade foi uma experiência incrível para mim. 

Se pudesse dar um conselho, diria que todos deveriam se dar de presente a oportunidade de ver uma obra como essa, com os olhos do coração. 


Título Original: Yao 

Direção: Philippe Godeau 

Duração: 104 minutos. 

Elenco: Omar Sy, Lionel Louis Basse, Fatoumata Diawara, Germaine Acogny, Alibeta, Gwendolyn Gourvenec. 

Sinopse: O jovem ator Seydou Tall que viveu sua vida inteira na frança, mas que possui origem senegalesa, vai ao Senegal para promover seu livro e conhece o pequeno Yao, um garotinho aficionado por literatura que atravessa o país para conseguir um autografo do seu ídolo. Tocado com a história do menino resolve levá-lo para casa e acaba tendo um profundo reencontro com suas raízes.  

Trailer: 

As produções francesas também te pegam de jeito? Conta pra gente?!

Fernanda Rodrigues Ramos

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