Crítica: A Gente Se Vê Ontem (2019, de Stefon Bristol)


Distribuído pela Netflix, A Gente Se Vê Ontem é um filme do gênero ficção científica, dirigido por Stefon Bristol e produzido pelo Spike Lee (vencedor do Oscar 2019 de Melhor Roteiro Adaptado por Infiltrado na Klan). O longa de quase 1h30min, é uma versão do curta de 15 minutos, de mesmo nome e diretor e que foi lançado em 2017. Ao mesmo tempo em que é divertido, mostrando dois amigos adolescentes que criaram uma máquina capaz de voltar no tempo, traz consigo uma crítica social de grande importância e que merece atenção.

Stefon Bristol é um diretor que está começando agora na indústria do cinema (A Gente Se Vê Ontem é seu primeiro longa-metragem), neste filme é possível notar a mensagem que ele pretende passar, com um elenco principal composto apenas de pessoas negras, a representatividade é vigente em seu trabalho. Também é importante ressaltar que o próprio diretor – que também faz o roteiro, ao lado da Fredrica Bailey é negro, pois a visão de mundo transmitida no filme não seria a mesma se fosse feito por pessoas brancas.


 CJ e Sebastian (Eden Duncan-Smith e Danté Crichlow)

Em relação às atuações, a atriz Eden Duncan-Smith entrega um ótimo e carismático trabalho como a protagonista “CJ”, que pode chegar a irritar em certos pontos, devido a sua teimosia quando as coisas não acontecem da maneira que ela quer.  Quem também possui bastante carisma é o melhor amigo de CJ, Sebastian, interpretado por Danté Crichlow, mostrando muito bem o significado de amizade. Outro destaque é o ator Astro, que faz o irmão protetor de CJ, Calvin, e é quem dá forma ao rumo da história. Além da atriz Marsha Stephanie, a coadjuvante Phaedra, mãe de CJ, que deixa uma atuação marcante pelos momentos de conversas consoláveis com a filha. 

Calvin (Astro)

Ao retratar um incidente envolvendo a polícia, o filme busca inserir assuntos sérios, como os problemas presentes numa sociedade racista e como os negros são afetados por ela, enquanto aborda a temática sobre viagem do tempo, com momentos de diversão que abrem espaços para risos, suavizando a experiência do espectador, que mesmo assim não deixa de ser tensa e triste. Querendo ou não, grande parte da história do filme é infelizmente uma realidade, a força policial mostrada acontece na vida real.

Uma das coisas mais marcantes é a participação especial do ator Michael J. Fox, fazendo papel do professor Mr. Lockhart, que aparece logo ao começo, como forma de homenagear um dos filmes mais conhecidos sobre viagens no tempo: De Volta Para o Futuro (de Robert Zemeckis). É interessante a forma como o diretor busca inspiração nesse clássico do cinema e o traz para uma diferente percepção, em que a brutalidade da polícia contra a comunidade negra é o combustível para que a ficção aconteça.


Mr. Lockhart (Michael J. Fox)
De forma geral, A Gente Se Vê Ontem pode não funcionar muito bem para algumas pessoas, todo o material para se obter um bom resultado está ali, porém o potencial pode não ser alcançado devido às limitações do roteiro que impedem a trama de ter um desenvolvimento mais completo. O ponto mais propenso a desapontar vem a ser o desfecho do filme, alguns podem até achar adequado, mas a sensação de que o que aconteceu “deixou a desejar” pode ser mais forte na maioria dos que assistem, principalmente por acabar de forma repentina. Mas, para aqueles que curtem um final aberto e gostam de criar sua própria versão do ocorrido (que neste caso cabe uma interpretação sociopolítica, visto a abordagem do tema), pode ser uma boa.



Então, o filme possui sim suas falhas na execução do roteiro e causa discrepância. Não é grandioso, mas é bom. Em outras questões, há interessantes movimentos de câmera, enquanto entrega uma fotografia que faz uso de cores vibrantes, combinando com as várias referências à cultura jamaicana, além de uma trilha sonora super cool que se enquadra muito bem na história. 

Sendo assim, apesar de não se desenvolver da melhor forma e não ter o melhor final, não é válido que todo o filme seja deixado de lado, a mensagem que ele quer transmitir está clara e merece ser ouvida. Mesmo não tendo uma grande recepção, o que resta é esperar que o diretor volte com mais filmes, com técnicas mais aperfeiçoadas e que continue a transmitir seus valores ao público.



Título Original: See You Yesterday

Direção: Stefon Bristol

Duração: 86 minutos

Elenco: Eden Duncan-Smith, Dante Crichlow, Astro, Marsha Stephanie Blake, Myra Lucretia Taylor, Wavyy Jonez, Carlos Arce Jr., Patrice Bell, Khail Bryant, Waliek Crandall, Frank Harts, Donna Hayes, Allen Holloway, Ejyp Johnson, Damaris Lewis, Michael J. Fox, e outros.

Sinopse: Dois melhores amigos apaixonados por ciência, criam uma máquina do tempo e se esforçam para fazê-la funcionar corretamente, até que um inesperado tiroteio no bairro onde moram causa a morte de uma pessoa próxima. A invenção é então utilizada para tentar mudar o que aconteceu, mas acaba causando divergências na linha do tempo.

Trailer:

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Karine Mendes

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