Crítica: 99 Casas (2014, de Ramin Bahrani)


O plano de abertura de 99 Casas traz uma proposta interessante. Através de um plano-sequência bem elaborado, com um tom visual que mistura o sugestivo e o explícito, sustentado por um bom uso da trilha sonora e do baile da câmera, somos apresentados à personagem de Michael Shannon e a uma situação visivelmente complicada. Aqui há uma exposição muito bem feita da personalidade da personagem, e logo de cara nos damos conta de que há algo errado ali, de que se trata de um sujeito frio e sagaz lindando com o que ocorreu, tudo isso reforçado pela boa montagem da cena. Assim, cria-se toda uma proposta que engaja o espectador de maneira eficiente.

O problema, porém, surge ao longo do filme, onde nada disso é sustentado e se desconstrói aos poucos, fazendo com que o domínio do diretor Ramin Bahrani da composição cênica (e principalmente da mise-en-scène) se perca progressivamente ao longo das quase duas horas de duração do longa. Infelizmente, trata-se de mais um filme em que as expectativas são jogadas por água abaixo por conta da condução da direção.

99 Casas segue os passos de Dennis Nash (Andrew Garfield), um trabalhador de serviços gerais que, desempregado, luta para manter as condições financeiras de sua família, composta por seu filho e sua mãe (Laura Dern). Quando, porém, é despejado de casa pelo banco, Nash adentra um complexo e desmoralizante mundo de serviços e negócios quando, precisando de dinheiro, começa a trabalhar para Rick Carver (Shannon), o dono da imobiliária que o despejou.


As maiores qualidades do filme residem, como já se pode notar apenas pelos nomes que compõem o elenco, na construção das atuações, ainda que, em alguns momentos, mais para o final, elas acabem caindo em um vazio por conta do moralismo que falarei mais adiante. Shannon, dos atores mais subestimados da atualidade, consegue construir uma personagem fria e objetiva, com um tom ameaçador que é transmitido pelo olhar e pela postura do ator, um contraste direto com a personagem de Garfield, que compõe um homem cansado, emotivo e que lida com uma dor. Para completar o elenco principal, Laura Dern traz alguns ótimos momentos, principalmente por conta da confusão e do desespero da personagem.

O problema maior do longa está, sobretudo, na direção de Bahrani. O realizador consegue construir uma interessante imersão no mundo sujo dos negócios e trabalhos resultantes da crise imobiliária estadunidense, porém durante o filme ele desconstrói essa posição violenta e subversiva com um questionamento moral da personagem de Garfield que, da parte do roteiro é até lógica, um arco de declínio e redenção, porém que se perde justamente em um moralismo formulaico da construção visual de Bahrini. O diretor abandona o tom que aborda no início do filme para, cada vez mais, presentar o espectador com planos e uma montagem cada vez mais convencional que conduzem a um clímax morno, premeditado e nem um pouco emocionante.


De certa forma, o roteiro traz uma construção interessante, ainda que datada, porém acerta ao transmitir as importâncias emocionais do protagonista, assim como na construção do antagonista. Há um duelo que é anunciado a todo o momento, mas que permanece velado pela aliança improvável de Garfield e Shannon. Há, inclusive, da parte do roteiro, um bom didatismo acerca da crise imobiliária - para ser mais preciso, de seus efeitos -, ainda que raso, mas que, aliado a um bom momento da direção, consegue transmitir emocionalmente o fatalismo da situação que se abateu sobretudo sobre os pobres através de cenas de despejo. Existe uma construção moral interessante residente em Dennis Nash, mas que se perde justamente por uma convenção na forma narrativa.

No final, o que sobra de 99 Casas é um filme que, por mais que instigue no início, perde-se em meio a um posicionamento convencional, com uma falta de engajamento, que ameniza um clímax que, por mais que já fosse previsível, poderia ter, ao menos, carga emocional o suficiente para brindar o espectador com uma redenção interessante. O que sobre, contudo, é apenas uma sensação de impotência e desinteresse.


Título original: 99 Homes

Direção: Ramin Bahrani

Duração: 112 minutos

Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern

Sinopse: Dennis Nash (Andrew Garfield) perdeu a sua casa por conta da hipoteca e teve que se mudar para um pobre hotel com sua mãe (Laura Dern) e seu filho pequeno . Desesperado para reaver seu lar, ele aceita trabalhar com o imoral agente imobiliário Rick Carver (Michael Shannon), que foi a pessoa responsável pela sua perda. Logo, ele tem que ajudar Carver a expulsar outras pessoas e a desviar dinheiro do governo. Enquanto seus problemas financeiros desaparecem, a consciência de Nash passa a atormentá-lo.

Trailer:

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Gabriel Zupiroli

Gosto de duas coisas, cinema e literatura, à parte disso, de vez em quando perco o tempo de me interessar por coisa ou outra.

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