Crítica: A Espiã Vermelha (2019, de Trevor Nunn)


Inspirado no livro de Jennie Ronney, de mesmo nome, a história baseada em fatos reais explana sobre a vida da jovem espiã inglesa à serviço da KGB, Melita Norwood e mostra sua perspectiva sobre os acontecimentos pós guerra que influenciaram toda uma geração. 

Nossa protagonista aqui ganha o nome de Joan Stanley e nos é apresentada como uma moça tímida, séria e observadora, recém chegada em Cambridge, onde é estudante de física. Num primeiro momento conhece Sonya , que é seu extremo oposto, uma jovem exuberante, apimentada e cheia de vida que não tem medo de quebrar regras e, mais do que depressa, convida a nova amiga para conhecer o grupo estudantil comunista do qual faz parte e também onde apresenta a Joan seu primo, o jovem alemão Leo Galich, por quem se apaixona perdidamente e começa a viver um romance que luta para sobreviver em um ambiente extremamente conturbado e cheio de medos, intrigas e conspiração.




Joan se mantem muito íntegra e leal aos seus próprios princípios. Não se deixa corromper, mesmo tendo uma forte ligação com Leo, conhecendo de perto todos os ideais e sofrendo muita pressão para ceder a algo que parecia tão verdadeiro a ele e a todos os que o seguiam na mesma direção. Deixa claro em todos os momentos que concorda com muita coisa, mas que não tomará partido de algo que possa desviá-la de seus objetivos. 

Pouco tempo depois Joan consegue um estágio no importante laboratório Cavendish e se aproxima do professor Max Davies, o responsável pelo projeto secreto ao qual ela se dedica. Max se encanta com a inteligência e dedicação da linda aprendiz e não demora muito, a conta que na realidade estão se dedicando à criação de uma bomba atômica.

Deste ponto em diante, os conflitos internos de Joan começam a aumentar até que se tornaram insustentáveis quando ela assiste à destruição em Hiroshima e dias depois em Nagasaki e sente uma imensa culpa quando entende que, permanecendo onde estava, poderia ser cúmplice por milhões de mortes mas, se escolhesse o outro lado, estaria traindo a própria pátria. Diante dessa nova realidade, Joan segue seu coração e decide aceitar o convite para ser uma espiã do governo Russo no Reino Unido.



O filme conta toda a sua história através de flashbacks mostrando, logo no início, Joan já senhora, 50 anos depois, sendo levada para a delegacia acusada de traição à coroa britânica. A cada prova apresentada contra ela, somos levados imediatamente aos acontecimentos através de suas lembranças. Nesse momento, o drama está voltado à sua relação com seu filho Nick que, num primeiro instante, defende a mãe com unhas e dentes mas, conforme os fatos vão sendo expostos diante de seus olhos, começa questionar uma vida de mentiras que vai contra tudo o que ele acredita ser certo, e se choca ao perceber que não sabe absolutamente nada sobre a mulher que o colocou no mundo e o educou para se tornar o homem que é.
 
O roteiro de Lindsay Shapero é mediano e lida com uma constante quebra de ritmo nessa dança entre presente e passado, mas mesmo assim consegue te manter interessado nos acontecimentos, até porque, histórias baseadas em fatos reais, sempre tem uma razão a mais para nos prender à trama.


Quanto às atuações, começando pela veterana Judi Dench, sinto que foi um completo desperdício. É lamentável quando se pega alguém com tanto talento e resume toda sua atuação em uma constante feição de tristeza do início ao fim. Sophie Cookson e Tom Hughes já tiveram a oportunidade de desenvolver melhor seus respectivos papeis e te proporcionam uma experiência mais animadora. Ela, não muito excepcional, mas convence com sua seriedade e a maneira com que mergulha nos acontecimentos. E ele, capaz de te envolver por sua paixão e lealdade a tudo o que acredita, realmente te faz a diferença. No mais, temos um bom elenco de apoio que acrescenta o necessário para que a história seja contada, mas nada que possa surpreender.
 
A Espiã Vermelha pode não ter sido contada da maneira mais incrível, mas tem um figurino lindo e impecável que contribui muito para o contexto de cada época, além disso, possui uma diferença bem evidente na luz e na paleta de cores entre presente e passado, o que colabora essencialmente para uma fotografia de muita beleza que ainda recebe ajuda extra da paisagem natural do país.



Título Original: Red Joan

Direção: Trevor Nunn

Duração: 102 minutos 

Elenco: Judi Dench, Sophie Cookson, Stephen Campbell Moore, Tom Hughes, Tereza Srbova, Ben Miles, Simon Ludders, Ciaran Owens.

Sinopse: Após a primeira guerra mundial, Joan Stanley começou a estudar física em Cambridge, onde conheceu Leo, um jovem comunista por quem se apaixonou e começou a viver um romance. Um pouco mais tarde começou a trabalhar no famoso laboratório Cavendish e da início a um projeto com o professor Max Davies que se encanta pela moça e logo a revela que estão criando uma bomba atômica. Joan se enche de culpa pela possibilidade de ser responsável por milhões de mortes e aceita o convite para ser uma espiã infiltrada da KGB. Após 50 anos de trabalhos e segredos, Joan é descoberta pelo MI5 e acusada de traição à coroa britânica.



Trailer:


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Fernanda Rodrigues Ramos

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