Crítica: Álbum de Família (2013, de John Wells)




Dirigido pelo já veterano John Wells, que possui bastante experiência com séries de televisão e dramas como Shameless, Plantão Médico, além da contribuição do autor original Tracy Letts, que além do teatro também contribuiu em Killer Joe ao lado de William Friedkin, Álbum de Família é uma história tragicômica proveniente dos palcos de teatro, sobre uma matriarca, Violet Weston (aqui interpretada por ninguém menos que Meryl Streep) que aos poucos definha devido ao recém descoberto câncer na boca, isso não a impede de continuar sendo uma pessoa extremamente dominadora e mordaz com todos a sua volta, desde o seu companheiro, suas três filhas até a nova empregada da casa.


Uma das questões peculiares envolvendo a produção deste filme é que foi lançado pela produtora Weinstein, companhia dos irmãos Bob e Harvey Weinstein, este último, autor de inúmeros escândalos de abusos sexuais com atrizes famosas. Em outubro de 2017, o jornal The New York Times e a revista The New Yorker publicaram relatos de dezenas de mulheres acusando Weinstein de algum tipo de assédio sexual, incluindo abuso sexual e estupro, nos seus últimos trinta anos de carreira como produtor renomado em Hollywood, o que iniciou o movimento chamado #MeToo, no qual outras mulheres tiveram a iniciativa de compartilhar seus próprios traumas relacionados a experiências de abusos. Esse movimento que aconteceu marcou um momento histórico na história do movimento feminista, pela sua magnitude e importância, afinal, em que outro momento alguém como Weinstein teria sido condenado por seus crimes? Atualmente, ele aguarda julgamento, mas, acredito que isso mereça uma menção aqui, pois é difícil assistir a um filme produzido pela Weinstein Productions e não realizar uma crítica sobre.

Voltando ao filme, o roteiro é baseado em uma peça de teatro escrita por Tracy Letts, inclusive a execução lembra uma obra teatral por conta de cenas que ocorrem em um único cômodo com apenas uma longa tomada, assim como Deus da Carnificina do Roman Polanski e Quem Tem Medo de Virginia Woolf? de Mike Nichols. A direção de fotografia é reveladora de um cenário rural dominado pelas máquinas de agricultura e extração de petróleo, um terreno selvagem no estado de Oklahoma dominado pela vegetação plana e o clima quase árido (tanto que em alguns lugares, podemos encontrar a tradução do título como Um Quente Agosto), aqui, algo que seria impossível de se mostrar em uma peça de teatro, o cinema consegue agregar à sua experiência única, traçando um paralelo entre a fotografia e as vidas isoladas e cheias de mágoa da família Weston.


A primeira cena do filme traz um monólogo narrado pelo escritor Beverly Weston (marido da personagem de Meryl Streep, interpretado pelo ator Sam Shepard), que culmina na frase “a vida é muito longa” do poeta norte americano T.S. Elliot, que talvez exprima como Beverly se sinta naquele momento: a solidão de ter uma carreira como escritor em hiato por tempo indeterminado, um hábito por destilados e um casamento morno, com uma mulher que somente sabe apontar suas falhas. A primeira cena do filme, na qual Beverly está narrando este mesmo monólogo para uma candidata a ser a nova empregada da casa, uma mulher de descendência nativo americana, ao passo em que Violet desce até o escritório procurando por mais comprimidos para dormir, xingando Beverly e emagrecida pela doença, é um retrato perfeito do que está por vir, é possível sentir a solidão que os cerca.



Além de ser uma mulher extremamente fálica dentro do casamento, nunca aceitando as diferenças alheias e sempre buscando ter a última palavra em tudo, Violet Weston, sendo mãe de três filhas - Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) - tem comportamentos típicos de uma mãe tóxica e narcisista, que faz de tudo para ser o centro das atenções, na medida em que deixa claro que nenhuma das filhas jamais vai conseguir ser boa o suficiente, por mais que tentem. Conhecendo bem as personalidades de cada filha, que por sinal são muito diferentes e singulares, Violet sabe como atingir cada uma delas, como por exemplo, quando estão tentando tomar alguma decisão sobre a sua doença, e do nada, Violet faz um comentário pessoal depreciativo sobre a filha: “o que você fez com o seu cabelo?!”, isso desvirtua totalmente a conversa, retomando o controle da situação para si e fazendo com que a filha se sinta mal.

Toda a relação de Violet com o álcool e com os remédios para dor também demonstra um funcionamento muito histérico, já que os utiliza como elementos de dramaticidade, se já não bastasse a personalidade e as opiniões radicais que tem. Chega a ser perversa a forma como ela funciona, em suas várias dimensões, tanto de humilhar as pessoas e jogar verdades duras sem que ninguém tenha pedido por elas, quanto de se vitimizar no momento em que percebe que foi longe demais, usando sua doença e vício em medicação como uma desculpa. 

Violet é uma mulher fálica, há várias representações de mulheres neste filme, mas acredito que fala mais sobre relações entre mães e filhas que pode muitas vezes ser marcada pelo que o psicanalista Jacques Lacan chama de “devastação”. Se a mãe não é bem resolvida com sua própria mãe, por exemplo, ela não vai conseguir transmitir para sua filha o que é a sua versão de feminilidade, e a filha por conseguinte não vai conseguir encontrar o seu ponto de equilíbrio singular do que é ser uma mulher (temos evidências durante o filme de que a criação de Violet foi tão dura quanto a que ela deu para suas próprias filhas).



“Ninguém esconde nada de mim”, essa frase proferida por Violet dá a ideia de uma mãe devoradora, invasiva e controladora do destino das filhas, não há possibilidade de singularidade a não ser igual a ela ou ser odiada. A feminilidade fálica está presente principalmente nas personagens de Meryl Streep e Julia Roberts, são as únicas que realmente conseguem se enfrentar, a cena do jantar é a mais icônica do filme, pois são as duas quem gritam mais alto e proferem ofensas no mesmo nível, é como se o resto da mesa não existisse. 

Interessante notar que tudo começa a partir da ausência do pai, Beverly simplesmente desaparece, talvez pelo fato da situação ter se tornado insustentável, tudo, a doença da esposa e seu temperamento, sua carreira perdida, a ausência das filhas, etc. Na psicanálise, a figura paterna é a figura que simboliza a lei, a norma, logo, quando essa figura sai de cena, é quando ocorre o reencontro entre a mãe e as filhas, o que acaba saindo dos limites e trazendo velhos conflitos à tona. Os personagens masculinos são todos representados como fracos e mostrados em suas falhas morais perante as mulheres, ou então não conseguem lidar com esse lado dominador e raivoso delas.



A personagem da Julia Roberts (Barbara) é aquela filha que percebe os conflitos familiares e que procurou não repetir a história dos pais, mas entra naquela velha ironia de que, por mais que se tente ao máximo ser diferente dos pais, ainda se está agindo em referência a eles, nesse caso, a evitação funciona quase como um ímã que puxa Barbara de volta às mesmas questões da família Weston: a necessidade que tem de dominar tudo e a dificuldade que tem de aceitar suas próprias vulnerabilidades e falhas, essas características a assemelham à mãe, é possível observar isso através da sua relação cada vez mais distante com a filha adolescente e o casamento à beira da separação irreparável. Apesar de Barbara ser a filha que mais faz críticas ao modo de vida da mãe, é a filha que Violet mais aguarda chegar. 

Ivy, por outro lado, é a filha que nunca se casou e sempre ficou por perto da mãe, na esperança de algum dia ser validada como uma mulher boa o suficiente, mas, conforme o filme se desenrola, ela percebe que esse momento de aprovação por parte da mãe nunca vai chegar, e tenta fazer as próprias escolhas. Karen, a personagem de Juliette Lewis, é uma exceção e possivelmente uma reação à toda essa estrutura adoecedora, tem um funcionamento narcisista e quase infantil, parecendo estar alheia aos problemas reais que a cercam.

Dessa forma, Álbum de Família é um filme pesado que traz inúmeras questões de conflitos familiares entre pais e filhos e, principalmente, entre mães e filhas. Cada família é singular e possui sua própria forma de funcionamento, as relações familiares podem ser construídas sobre diversas bases, não apenas o amor e a compreensão, e é o que observamos na família Weston, a ligação estruturada sobre bases abusivas e patológicas. Felizmente, alguns personagens percebem que os laços genéticos não são o suficiente para manter pessoas próximas, é importante que também haja respeito à alteridade.



Título Original: August: Osage County

Direção: John Wells

Duração: 121 minutos

Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Benedict Cumberbatch, Misty Upham.

Sinopse: Barbara (Julia Roberts), Karen (Juliette Lewis) e Ivy (Julianne Nicholson) que após um longo período separadas precisam voltar para casa e cuidar de sua dura, mas carismática mãe Violet (Meryl Streep). O reencontro desencadeia uma série de conflitos que, aos poucos, vai revelando os segredos de cada uma.

Trailer:

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Larissa Pierry

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