Crítica: O Menino que Descobriu o Vento (2019, de Chiwetel Ejiofor)



O Menino que Descobriu o Vento é uma das melhores obras originais da  Netflix e vem encantando muitas pessoas. O ator Chiwetel Ejiofor (dos filmes 2012 e 12 Anos de Escravidão) estreia na cadeira de diretor com esta emocionante história real, sobre um menino de uma pobre aldeia da África, chamado William Kamkwamba, que diante da seca, fome e morte, decidiu colocar seus conhecimentos em prática e construir um moinho de vento, para gerar energia elétrica e ligar a bomba de água da aldeia.

Apesar do baixo orçamento e de clichês típicos de cinebiografias na construção da narrativa, o filme te ganha pela força. Se você não se fragiliza com uma situação dessas, você não é humano, simples assim. E é impossível falar desta obra sem tocar em feridas sociais e políticas. Vamos pensar: o que impedia os vários adultos de construir moinhos e salvar vidas? O conhecimento? Até certo ponto sim, mas há muito por trás. 


O momento em que a trama se passa é conturbado. Temos a influência do tempo, ocasionando tanto enchentes como seca. Temos um fundo político onde o governo nada faz. Ao contrário, ainda faz-se racionamento de comida. Ajuda estrangeira não vem, ainda mais com a atenção dos Estados Unidos voltada para o Iraque logo após o 11 de Setembro (na verdade o interesse era o petróleo). A vila ainda possui um fervor religioso e tradicionalista que atrasa e impede que o conhecimento ganhe forma prática. O próprio pai do garoto é conservador e desacredita nos livros de ciência do filho, renegando a esperança do menino como simples "imaginação" ou utopia.

Sendo assim, O Menino que Descobriu o Vento traz uma forte verdade que se estende por outros países, até mesmo nosso Brasil (com seu árido sertão). A política e o militarismo se lixam para a fome e o sofrimento do povo, se escondendo atrás de armas, repressão e burocracia política. O povo fica cego diante costumes conservadores e religiosos, nada fazendo para solucionar o problema, esperando um milagre ou uma ação política. Tudo burocracias, tudo bobagens que matam. Pois política, armas, religiões, pré-conceitos e conservadorismos levam à ignorância. E um povo ignorante e cego mata e morre! Mas o conhecimento, os livros, a cultura, o amor ao próximo, isso colocado na prática, salva. 


Não estamos aqui sendo demagogos em teorias. Falamos da prática, do que torna o homem um ser vivo, humano com sentimentos e empático à dor alheia. Essa é aquela verdade inconveniente que renegamos no cotidiano, mas em que num momento de verdadeira crise, faz toda diferença. O garoto do filme tem tudo que precisa: seus livros, sua educação, seu conhecimento. Então ele bate de frente com todo conservadorismo que for preciso, pois ele sabe que há vidas em risco, ele sente na pele a dor da perda, de ver um ser vivo ao seu lado morrer de fome desnecessariamente, visto que a solução estava ali, na frente de todos, era só colocar em prática.


O Menino que Descobriu o Vento possui belas atuações, especialmente a do protagonista Maxwell Simba, que carrega o fardo da trama e o filme nas costas. O já citado clichê do roteiro não chega a atrapalhar, tamanha realidade mostrada. A direção de Chiwetel Ejiofor é coerente e revela um diretor de potencial em crescimento. A fotografia consegue captar o calor e a desolação do lugar e da situação. 

Emocionante do começo ao fim, tem uma cena - de várias - que marca e os mais sensíveis podem demorar a superar. Um filmão atual e necessário, que rende algumas reflexões interessantes sobre a importância da educação, cultura, conhecimento, professores, livros e história, coisas cada vez mais negligenciadas por uma sociedade moderna cada vez mais hipócrita e cega, cegueira causada seja pela inútil política, seja pela comodidade dos indiferentes.


O verdadeiro William Kamkwamba. Note o moinho ao fundo.

William Kamkwamba colocando o conhecimento dos livros em prática. Livros salvam vidas!

Título Original: The Boy Who Harnessed the Wind

Direção: Chiwetel Ejiofor

Duração: 113 minutos

Elenco: Maxwell Simba, Chiwetel Ejiofor, Aïssa Maïga, Noma Dumezweni,  Joseph Marcell

Sinopse: Sempre esforçando-se para adquirir conhecimentos cada vez mais diversificados, um jovem de Malawi se cansa de assistir todos os colegas de seu vilarejo passando por dificuldades e começa a desenvolver uma inovadora turbina de vento.

Trailer:

E você, assistiu a esta bela obra? Conte o que achou! Participe!

Léo Costa

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