Crítica: Absorvendo o Tabu (2018, de Rayka Zehtabchi)


Toda mulher, independente de seu status social, religião, posição política e tantas outras diferenças, passa pela fase da menstruação. Algumas optam por não passarem pelos percalços que a menstruação causa, fazendo uso de cartelas emendadas de contraceptivos (o que alguns ginecologistas, inclusive, recomendam) outras aceitam o período e passam por ele, por vezes com certas turbulências (afinal, os hormônios estão a todo vapor) e por vezes de forma bem tranquila e quase imperceptível. Há ainda as que, por alguma disfunção hormonal, não menstruam, o que nos renderia uma interminável lista de possibilidades aqui.

Fato é que a menstruação é algo natural e inerente de praticamente toda mulher, em pelo menos uma fase de sua vida. Porém, o que para nós não passa de um período do qual não tocamos tanto no assunto da forma que deveríamos, para mulheres de uma vila indiana, Hapur, nos arredores de Delhi, é um tabu fortíssimo e fruto das mais variadas visões errôneas sobre o tema.

"Não estou chorando porque estou menstruada ou coisa parecida. Não acredito que um documentário sobre menstruação ganhou o Oscar" - Rayka Zehtabchi, diretora do curta

Sim. É exatamente isso que você leu! O documentário em questão ganhou como Melhor Documentário Curta Metragem na última edição do Oscar, tendo desbancado curtas que abordavam temas como racismo, nazismo e ainda sobre refugiados.

E por que isso é tão relevante?

Ainda hoje, o tema menstruação é de certa forma um tabu para nossa sociedade ocidental. Não raro, você, leitora, ouve, e às vezes até profere, muitos comentários como: "Ah!, ela está assim porque está naqueles dias", "Você certamente está de TPM (a famigerada Tensão Pré-Menstrual)". E a vergonha para comprar um absorvente? E o medo de manchar a roupa de sangue? E o fato de ter que lidar com o nojinho dos rapazes que nada entendem sobre o assunto? Dramas ocidentais.



Neste documentário, vemos que por mais que ainda tenhamos que enfrentar algumas dificuldades deste nosso particular período, a realidade das mulheres nesta aldeia indiana nos faz refletir sobre o quanto estamos em uma posição de privilégio e ainda sobre como a sociedade precisa evoluir muito e acabar com o patriarcado que tanto limita as mulheres, em aspectos tão banais de suas vidas.

Com uma duração curtinha, edição ágil e intimista e uma trilha sonora envolvente, o curta já inicia com depoimentos de homens e mulheres da aldeia sobre o que eles pensam sobre a menstruação. O que num primeiro momento é bizarro, ao longo do tempo começa a incomodar e nos deixar tristes face à tanta ignorância com o tema e inferiorização da mulher devido à sua condição.


Com alguns relatos que chegam a emocionar, principalmente às mulheres, o documentário, que num primeiro momento pode parecer insistente demais na ideia de mostrar toda a falta de conhecimento das pessoas da vila, só assim o faz porque é necessário que haja essa insistência. Pense no fato de que por causa de todo este desconhecimento, mulheres em idade menstrual são isoladas de todo e qualquer convívio social, não tem acesso a cuidados básicos com a saúde e muitas nem sabem como utilizar um absorvente.


Através de um projeto surgido do outro lado do mundo, o The Pad Project (veja o vídeo abaixo), o documentário foi produzido mostrando ao longo de sua duração como uma máquina de confecção de absorventes passa a mudar a vida de algumas mulheres. Criada por Arunachalam Muruganantham, ao ver que sua esposa enfrentava tantos problemas pela falta de absorventes, a máquina passa não só a oferecer o acesso a este item tão básico, como também possibilita que as  mulheres possam conhecer melhor o seu corpo, participar dos eventos sociais e o mais importante, estudarem, trabalharem e garantirem autonomia financeira.


O documentário encontra-se disponível na Netflix e mais do que nunca deve ser visto por todxs, para pensarmos em quanto temos que evoluir nossos pensamentos, acabar com tabus descabidos e lutarmos cada dia mais por mais autonomia feminina.


Título Original: Period. End of Sentence

Direção: Rayka Zehtabchi

Duração: 26 minutos

Elenco: - 

Sinopse: Em uma aldeia rural nos arredores de Delhi, na Índia, as mulheres lideram uma revolução silenciosa. Elas lutam contra o estigma profundamente enraizado da menstruação. Por gerações essas mulheres não tiveram acesso a absorventes, o que levou a problemas de saúde e a meninas desaparecidas ou abandonadas por completo. Mas quando uma máquina de absorvente é instalada na aldeia, as mulheres aprendem a fabricar e comercializar seus próprios absorventes, capacitando as mulheres de sua comunidade. 

Trailer:


Você já conhecia esse documentário? O que acha sobre este tema? Conte pra gente e não se esqueça de nos seguir nas redes sociais! (:

Eduarda Souza

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