Crítica: Cachorro (2019, de Taíla Soliman)



Durante o mês de Março o site Minha Visão do Cinema está acompanhando de perto um projeto da cidade de Pelotas, onde um dos administradores da equipe reside. Além de divulgarmos o projeto, também participamos da pré-estreia nesta quarta, 13/03/2019, juntamente da equipe que realizou a obra, imprensa local e ONG's parceiras. 

Cachorro é um documentário que acompanha o cotidiano dos carismáticos animais abandonados na cidade, visando a conscientização ao não abandono, à adoção de animais carentes e à não violência para com os mesmos que transitam no cenário urbano. Uma produção da NOZ Audiovisual, em parceria com a ONG A4 e outros, direção de produção de Camila Albrecht e roteiro/direção de Taíla Soliman, Cachorro é um projeto sem fins lucrativos, que vem acompanhado de eventos sociais que incluem exibição gratuita do filme, exposição de fotos dos cachorros filmados, doação de ração para a ONG envolvida e feira de adoção de cães que precisam de um lar, a ser realizada no dia 30 de Março. Ainda, alguns alunos de escolas terão exibições exclusivas. Fica aqui o parabéns à administração do Shopping Pelotas e à rede de cinemas Cineflix, que embarcaram no projeto. Vamos ao filme?

Cachorro traz um novo ponto de vista da velha cidade de Pelotas, sob a perspectiva canina. Diante disso, as lentes nos levam por ângulos e altitudes baixas, como se os próprios cães protagonistas desta jornada estivessem nos mostrando a sua visão do nosso cenário cotidiano. Engenhosamente, isto causa um efeito imersivo, tecnicamente bem posicionado, onde vemos como eles enxergam todo o movimento, os barulhos e vai e vem do agitado cenário. Mas além de nos colocarmos no lugar destes, ambiguamente também os acompanhamos do ponto de vista espectador, seguindo os passos destes pequenos protagonistas - pequenos em tamanho, mas grandes em coração. Vale ressaltar como cada cão em cena consegue passar uma personalidade e características, muito bem captadas pela equipe de filmagens. 

No final da sessão, ao perguntar como foi filmar, a diretora afirma que foi cerca de um ano acompanhando os cães. O resultado deste trabalho é louvável, pois além de natural, tal resultado soa belo, poético, relevante e tecnicamente bem elaborado. 


Apesar do tom documental, possui uma estrutura narrativa interessante, que sabe onde começar e onde quer chegar. Com trinta minutos de duração, nunca é lento ou chato, sua edição cirúrgica mantém as cenas no timing certeiro, com cortes e duração corretos. Nenhuma cena é dispensável. E na verdade, cada cena é tão bem enquadrada que poderia facilmente ser uma obra com mais tempo de duração. Para auxiliar na composição da mensagem que se quer passar, temos a narração de Mara Loureiro, com uma bela voz, suave e que acalenta em paralelo à narrativa do filme. 

Taíla Soliman representa uma nova geração de jovens cineastas, que provam que mulheres podem, sim, comandar filmes, e que nosso Sul do Brasil tem, sim, uma representação cultural. Ela entrega uma obra apaixonada, uma carta de amor aos cães. Mas nunca oportunista, não temos aqui cães de raça e marcas caras de produtos pet. Pelo contrário, o filme assume um caráter social, fazendo um alerta e conscientização sobre a cruel exploração humana em cima dos animais. 

É preciso quebrar a venda de animais, na maioria das vezes lucrativa, mas exacerbada e má. Precisa-se urgentemente mostrar a importância da adoção responsável, da castração que previne superpopulação nas ruas, que animais são vidas, ficam doentes e possuem necessidades básicas por anos, assim como os humanos. 

E é justamente esse o ponto que a equipe da obra traz. Tais pontos revelam um maduro roteiro escrito por Taíla Soliman, além de uma direção técnica impecável, de fazer inveja a muita comédia nacional cuja edição e montagem são horríveis. A edição visual de Takeo Ito traz belas cenas, com filtros que revelam uma bonita Pelotas, às vezes em tons belamente envelhecidos, privilegiando o cenário dos clássicos casarões e pontos turísticos da região. É bonito ver nosso Mercado Central ou a Praia do Laranjal sob um ponto de vista artístico e cuidadoso. A bela fotografia da obra, com a junção de momentos poéticos na narrativa, tornam Cachorro uma experiência contemplativa. Determinada cena de um cachorro à beira da praia observando o horizonte é a concretização do contemplativo mencionado. 


Alguns takes possuem breves plano-sequências, que dão realismo às cenas e nos colocam perto dos animais. A sonoplastia consegue  captar bem os sons dos ambientes, seja a turbulência do trânsito no centro, seja a calmaria das ondas e canto dos pássaros em locais mais sossegados. Em determinado momento, conhecemos mais da ONG que cuida de diversos cães abandonados. Tal sequência é emocionante e é um dos pontos altos da produção, estimulando assim a adoção destes pobres cães e o respeito às pessoas iluminadas que dão  muito de si em prol da vida dos animais. 

Filmes com cães tendem a forçar à emoção, o que espanta alguns que acusam isso de um artifício baixo. Aqui toma-se cuidado para não ocorrer isso, dosando a emoção no ponto certo, justamente para evitar o caminho piegas, mas mais uma vez estimular a adoção e o carinho para com os animais que estão nas vias públicas da cidade. Você pode não adotar todo cão de rua que ver, mas tem o dever, como cidadão, de respeitar e prezar pela vida destes, que fazem parte do cenário urbano de praticamente todas cidades. Aqui são cães, mas se aplica a todos os seres vivos. Aqui é Pelotas, mas se aplica em cada cidade que você, leitor, habita. Em tempos em que uma gerência e funcionário de um estabelecimento comercial maltrataram e mataram uma pobre cadelinha em 2018, tal mensagem é relevante e atual. 

A diretora Taíla Soliman e sua equipe entregam um belo documentário social, uma carta de amor aos cães da cidade, que historicamente datam como os mais velhos do Brasil, segundo arqueólogos que encontraram ossadas de mais de dois mil anos aqui na região, oficialmente os vestígios mais antigos da relação homem/cachorro aqui nas terras tupiniquins. 

Sendo assim, com esta contextualização histórica, torna-se simbólico e certeiro que o filme se passe aqui, mas sua mensagem transcende a isso, é uma relação mística universal. Belo, tocante e poético, Cachorro é imperdível, merece ser conferido pelos pelotenses, mas acima de tudo, merece ganhar o mundo. Aguardarei os próximos projetos dos envolvidos, dos quais acompanharei a carreira. Até lá, anseio assistir novamente a obra, que futuramente deverá ser disponibilizada em alguma plataforma. Até lá, prestigie a cultura local e ame, ame seu melhor amigo de quatro patas. Ele nunca o abandonaria, não faça o mesmo. Seja como ele, doe sem esperar nada em troca, ame como um Cachorro.


• O filme terá exibição gratuita dia 16/03, 10:00 da manhã, no Cineflix Pelotas.

• Dia 27 a exibição será no mesmo horário, entrada será mediante 1Kg de ração que será direcionada a ONG.

• Dia 30 será realizada a feira de adoção no Shopping Pelotas.

• Não perca o filme. E adote um amigo!


Título Original: Cachorro

Direção: Taíla Soliman

Duração: 30 minutos

Elenco: Mara Loureiro (voz) e cães de rua de Pelotas

Sinopse: A população canina de Pelotas descende do cachorro mais antigo do Brasil. Hoje,
milhares de cães vivem nas ruas lutando para prosperar e fazer parte da comunidade.


Trailer:


É de Pelotas e tem contato com os animais da cidade? Assistiu a este belo projeto ou pretende assistir? Não é da cidade, mas sua região também possui diversos cães nas ruas? Comente, participe:

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Léo Costa

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