Crítica: Apocalypse Now Redux (1979, de Francis Ford Coppola)


Apocalypse Now é um filme baseado no romance Heart of Darkness, de Joseph Conrad, que ganhou sua versão para o cinema em 1979, com roteiro adaptado por John Milius e dirigido por Francis Ford Coppola.

Este é, talvez, um dos filmes mais famosos desde que fora lançado em 1979. Quem o conhece sabe que é impossível não lembrar de Apocalypse Now quando o assunto é filmes de guerra. 

Agora, senta que lá vem a história!

Foto: Reprodução. Guerra do Vietnã.
Aqui temos como pano de fundo a Guerra do Vietnã. E fazendo um super resumo, após a Conferência de Genebra, em 1954, a França reconheceu a independência de alguns países, incluindo a do Vietnã. Isso parece ótimo, que país não quer a sua independência? Pois é. Na prática não foi tudo tão lindo. 

Devido às divergências políticas e ideológicas que aconteciam dentro do Vietnã, o país acabou se subdividindo em dois: Vietnã do Norte (Socialistas) e Vietnã do Sul (Capitalistas). 

Em 1959, os guerrilheiros vietcongues (Vietnã do Norte) atacaram uma base norte-americana que existia no Vietnã do Sul, e a partir de então foi dado início a Guerra do Vietnã. Em 1964, os Estados Unidos assumiram que estavam ao lado do Vietnã do Sul e começaram a enviar armas e soldados. 

Os armamentos modernos e helicópteros que os EUA usavam e se orgulhavam de ter não foram o bastante para os vietcongues, que conheciam muito bem seu próprio território repleto de florestas tropicais fechadas e um clima extremamente chuvoso, além de se utilizarem de táticas de guerrilha que apenas eles dominavam. 

Com o passar do tempo, após anos e inúmeras mortes e protestos, em 1975 os EUA aceita o Acordo de Paris e se retira da guerra e, por óbvio, deixam o Vietnã do Sul completamente desamparado e desprotegido do Vietnã do Norte. No fim das contas, após a vitória do Vietnã do Norte, o país fora reunificado sob o regime comunista e aliado à União Soviética.

Calma. Respira fundo. A aula de história acabou. 

É importante contextualizar de vez em quando, principalmente para quem não lembrava muito bem desse período histórico, ou desconhecia, para que se entenda as sátiras e críticas que o filme faz às guerras e à esta em específico.

Em Apocalypse Now, como eu já disse, nós temos essa guerra como pano de fundo e pelo ponto de vista dos americanos. Fica um tanto quanto sutil os motivos da guerra em si no filme, mas para quem conhece a história, consegue acompanhar e ver os fatos ao assistir. No entanto, não é um filme puramente biográfico, é um filme que se utiliza de um evento - sem sentido - para questioná-lo e criticá-lo. 


Em plena Guerra do Vietnã, o Capitão do Exército dos Estados Unidos e veterano das Operações Especiais, Benjamin Willard, está em um hotel aguardando desesperadamente sua próxima missão. Seu desejo é realizado quando os oficiais da Inteligência Militar lhe passam uma missão. Era para atacar alguma base inimiga? Não! Era para por fim à vida de um americano, o Coronel Walter E. Kurtz.

Coronel Kurtz tinha uma carreira exemplar, cheia de mérito, mas que passou a não significar mais nada para o Exército Americano quando se deram por conta de que ele havia "enlouquecido". E isso era uma preocupação porque essa loucura que diziam que Kurtz tinha, era por conta de ele ter começado a questionar a guerra, a humanidade, a civilização, e também por ter "trocado de time", torcendo agora para os vietcongues, mas não só isso, agora ele também comandava sua própria tropa como um semideus, sem deixar de achar que aquele cenário todo era um completo horror.

"[O horror]"
Quando os oficiais da Inteligência Militar dizem a Willard que todo cuidado nessa missão era pouco, uma vez que ele era a segunda pessoa a ir tentar realizar essa missão, pois o primeiro não havia voltado, e não porque havia morrido, mas porque adotou a filosofia de Kurtz e se juntou à sua tropa. Ao saber disso e receber constantemente uma série de dossiês que constavam que Kurtz era O Cara, Willard ficava cada vez mais destinado a ser o Capitão fodão que acabaria com a vida desse traíra. 

Willard, porém, não segue nessa missão sozinho, ele pega uma carona com a Patrulha de Barcos da Marinha, comandada pelo Chefe Phillips e alguns tripulantes. Estes não ajudariam o Capitão com o assassinato, o único dever deles era apenas conduzi-lo até o Coronel Kurtz, ou melhor, encontrá-lo em qualquer lugar que ele estivesse escondido. Mas é óbvio que uma série de eventos aconteceram que não facilitaram a saída ilesa deles dessa missão.


Há paradas no meio do caminho, como o encontro com o Tenente-Coronel Bill Kilgore, que comanda um esquadrão de helicópteros de ataque. Willard precisa de ajuda - e recebe - mas também há muita idiotice envolvida nesse encontro e eventos que decorrem dele, diga-se de passagem. Porém, foi desse momento do filme que surgiu uma das frases mais icônicas do cinema: 

"I love the smell of napalm in the morning."
[Eu amo o cheiro de napalm pela manhã]
O filme inteiro nos propõe uma expectativa imensa no encontro batalha entre Willard e Kurtz, mas quando este finalmente acontece, ele vem para dar uma rasteira em nossas expectativas, que estavam altíssimas. Enquanto a gente esperava uma série de ação envolvendo os dois, nada disso acontece. Eles se enfrentam de um jeito morno, cansado, sem propósito. 

De um lado temos Coronel Kurtz cansado, sem esperança na humanidade, abominando aquela situação por mais que esteja fazendo parte dela. A única coisa que ele quer, é paz, mesmo que esta seja dada com a sua morte. Kurtz basicamente se entrega e nós ficamos com aquela sensação estranha diante disso, porque esperávamos encontrar outra pessoa e assistir a outro tipo de conflito. 

Por outro lado, quando vemos Capitão Willard chegar ao seu destino e dar de frente com O Poderoso Chefão (entenda o trocadilho, por favor), aquela bravura vai escorrendo pelo ralo junto com a certeza de que queria fazer o que lhe fora ordenado. Há um conflito de vontade/ideologia entre Willard e os oficiais que lhe mandaram nessa missão. Vemos Willard discordar que Kurtz fosse um louco e, no fim das contas, ficamos com umas pulgas imensas atrás da orelha: será que o Capitão irá contra o que acredita e matará o Coronel só para massagear o ego e poder dizer que completou tal missão, se tornando, assim, o típico soldadinho que faz o que repugna em nome da pátria; será que ele irá matar Kurtz por pura compaixão, para acabar com o sofrimento daquele "respeitável" homem; será que ele não ia fazer nada disso e acabar morrendo; será que ambos chegariam a algum acordo; será, será, será? 

Só assistindo ao filme para saber e tirar suas próprias conclusões!



No meio de tudo isso, nós vemos uma crítica imensa no propósito inútil dos EUA nessa guerra. De que adianta ter uma tecnologia sendo usufruída por um superior que entende - mas que nem sempre é tão sério - sendo seguido por uma legião de panacas despreparados? Antes fosse só isso, conforme acompanhamos aquela destruição da natureza e a execução em massa de tantas pessoas, ainda existe um questionamento, um contato com o que há de humano em nós, mas claro que isso não sobressai, porque o mais importante é sair metralhando todo mundo sem propósito, mas com a mão no peito fazendo reverência à pátria. E claro que quem discorda desse massacre, principalmente se esta pessoa for um membro do Exército, é considerado louco, óbvio, por que, afinal, qual é a função do exército senão segurar uma arma e dispará-la quando for necessário?

O problema está em: nunca é necessário. Os caprichos de uma nação não valem a vida de uma pessoa sequer. Infelizmente, não aprendemos isso até hoje.


Apocalypse Now tem uma coleção de prêmios: Oscar, BAFTA, Globo de Ouro, Palma de Ouro, National Society of Film Critics Award, London Film Critics Circle e Prêmio David di Donatello. Foi muito premiado principalmente pela direção, fotografia, mixagem de som e trilha sonora. De fato, todos estes foram para lá de merecidos! 

A fotografia, juntamente com a trilha sonora, elevam a experiência de assistir um filme sobre essa temática. Por mais que imagens de guerra e toda a destruição que ela causa não seja algo agradável de ver, mesmo que seja fictício, o filme consegue captar muito bem a essência. Então não é "nossa, que coisa maravilhosa estamos assistindo", está mais para "nossa, eles conseguiram captar muito bem uma partezinha do que aconteceu em uma parte obscura de nossa história"


O roteiro é muito bom, consistente e profundo. Ele dá margem para você refletir sobre inúmeros assuntos e atitudes. Não é somente um filme sobre guerra, como você já pôde perceber ao longo dessa crítica. É muito além disso e você tem que se deixar refletir para absorver tudo que ele aborda, até mesmo suas linhas mais tênues. 

Quanto às atuações, por mais contraditório que seja, eu só tenho o que reclamar das duas principais: a do protagonista (Willard) e a do antagonista (Kurtz), Martin Sheen e Marlon Brando, respectivamente. 

Martin, como Willard, parece não suportar seu personagem. Não discordo que ele seja um bom ator, mas para esse papel em específico ele se manteve morno demais. Para um filme onde a gente espera, no mínimo, algumas reações - afinal, estamos em meio à guerra, não em uma expedição de turismo chata - essa reação o tempo todo blasé dele, como se nada que estivesse acontecendo lhe afetasse, ficou forçada e irreal demais. 


Marlon Brando só tem peso pelo nome, porque em Apocalypse Now ele apenas sentou e existiu nas poucas cenas em que apareceu. Qualquer um, até mesmo com menos experiência, poderia ter feito esse papel e se saído muito melhor do que Brando, que além de entregar um trabalho mediano, foi um completo otário com o diretor. Brando, além de receber US$ 1 milhão adiantado, ameaçou abandonar o projeto antes mesmo de começar, não leu o roteiro, nem o livro em que fora baseado, e após ler, recusou. Passados dias de insistência, Brando concordou em atuar, mas claro que seu aceite veio com condições: exigiu uma fotografia cheia de sombras que lhe escondesse o máximo possível, pois estava 40 quilos acima de seu peso normal e não queria que o público lhe visse daquele jeito. No meio desse conflito todo, Coppola já não ligava mais caso Brando desistisse, pois tinha Jack Nicholson, Robert Redford ou Al Pacino em mente para este papel. E eu fico aqui me perguntando: por que diabos insistiram em Marlon Brando? Por que diabos Marlon Brando não desistiu??? Aff...


Fora estes dois, todos os demais entregaram trabalhos satisfatórios, especialmente Dennis Hopper, que interpreta um fotojornalista que está vivendo com a tropa de Kurtz. Dennis consegue dar vida à uma personagem que vive imersa em questionamentos filosóficos sobre a vida e usa seu poder de oratória para convencer Willard a acreditar que Kurtz é um gênio.

P.s.: Ao ser traduzida, a sentença acima perde o sentido.
[Você sabia que "se" é a palavra do meio em "vida".]
Apocalypse Now é um filme extenso e grandioso, e falar sobre ele é deveras complexo, pois não importa o quanto se fale, a sensação que fica é que sempre estamos esquecendo de mencionar algo, de bom ou ruim. Por isso que vale a pena assisti-lo, para que se tire as próprias conclusões, pois um filme dessa magnitude, embora não seja perfeito, merece ser visto e refletido, independente de sua opinião final sobre. 

Esta versão "Redux" é a estendida do filme, que tem 49 minutos a mais de cenas que haviam sido removidas do original, que chama-se apenas Apocalypse Now (2h40). 

Há inúmeras curiosidades a respeito desse filme, e caso você, leitor, queira saber, deixa um recadinho aí nos comentários, pois será um prazer trazer essa matéria especialmente para você! 😁 


Título Original: Apocalypse Now

Direção: Francis Ford Coppola

Duração: 153 minutos

Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando, Robert Duvall, Dennis Hopper, Laurence Fishburne, Harrison Ford, Frederic Forrest, Sam Bottoms, Scott Glenn, Albert Hall, Colleen Camp, G. D. Spradin, Cynthia Wood, Jerry Ziesmer, Bill Graham, Linda Carpenter, Glenn Walken, Aurore Clément, James Keane, Kerry Rossall, Tom Mason e mais. 

Sinopse: Capitão Willard (Martin Sheen) tem a missão de encontrar e matar o Coronel Kurtz (Marlon Brando), que aparentemente enlouqueceu e se refugiou nas selvas do Camboja, onde comanda um exército de fanáticos.

Trailer:

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HELEN SANTOS

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