Crítica: Vice (2018, de Adam McKay)


Adam McKay começou sua carreira no Saturday Night Live, como roteirista e diretor entre 1995 e 2001, quando então, migrou para o cinema. No cinema, McKay se destacou por seu humor ácido, que notoriamente é sua principal característica. Em 2015, o diretor e roteirista havia atingido seu ápice com o maravilhoso A Grande Aposta. Será que agora com Vice ele se supera?



Vice começa mostrando os sucessivos fracassos de vida de Dick Cheney, trabalhando em serviços perigosos fisicamente e se embebedando em botecos antes de voltar para casa. 

Sempre existe uma pessoa que atua de forma transformadora na vida das pessoas, seja pro bem ou pro mal, e o roteiro de McKay enfatiza isso, mudando a forma da narrativa e começando de fato o longa, após uma discussão de Dick e sua esposa Lynn Cheney. A narrativa foca o período em que Cheney chegou à Casa Branca e começou a trabalhar para Donald Rumsfeld (interpretado por Steve Carell em mais um excelente trabalho do ator), e sua ascensão até ser convidado, quando já havia se retirado da política, por George W. Bush para ser seu então Vice Presidente.

McKay talvez tenha ficado refém do seu estilo ácido de contar histórias, e acaba tendo um deslize, que apesar de não comprometer o filme, compromete a genialidade do roteiro. O primeiro ponto fica por conta do corte entre a introdução do filme e posteriormente sua entrevista para Casa Branca, e é claro que aqui ele usou da criatividade para separar os dois momentos pelos créditos iniciais, dando uma sensação menor de vazio entre o buraco que Cheney se encontrava e sua primeira entrevista para um emprego relevante. Outro fica no arco dramático criado com sua filha, que incomoda por parecer mal idealizado e mal executado.



Se o roteiro, ainda que genial, deixa algumas arestas, o que não brinca em serviço é o trabalho de montagem. Aliás, vale lembrar que o montador escolhido, Hank Corwin, trabalhou com McKay em A Grande Aposta, e já realizou outros filmes, como A Árvore da Vida. A impressão é de que o trabalho aqui consegue ser superior ao do já excelente A Grande Aposta. Alguns dos momentos de grande gargalhada, e destaco um no meio do filme, são graças ao trabalho preciso da montagem.

Outro grande trabalho técnico do filme, e talvez o mais impressionante, seja mesmo de maquiagem e penteado. Os atores ficaram idênticos às personalidades que interpretam. Os 18 kg ganhos por Christian Bale sem dúvida alguma ajudaram, mas, não só ele ficou bem caracterizado: Sam Rockwell assusta na primeira cena que aparece pela semelhança com George W. Bush (e vamos aplaudir o trabalho do casting, por que jamais imaginei que ele pudesse parecer o Bush) e Steve Carell exige um trabalho de evolução também de maquiagem e cabelo para envelhecer num hiato entre a saída de um governo e retorno anos depois.


Bale, num mundo ideal, deveria levar o Oscar para casa com sobras: é o melhor trabalho entre os indicados com chances. Rockwell está ótimo, mas, seu papel é mais conduzido pelo excelente apoio da caracterização. Talvez quem tenha sido esnobado aqui seja Steve Carell, que tem um trabalho excelente e sutil, de parecer mais ordinário que Cheney no início; e no final, se assustar com o quanto o pupilo superou seu mestre.

No entanto, a grandiosidade das atuações está longe de ficar concentrada nas mãos dos três atores. Amy Adams, como bem sabemos, é daquelas atrizes que roubam a cena ainda que não seja principal, e aqui não é diferente. Ela constrói uma Lynn doce, mas igualmente forte e até manipuladora. Apesar de ser, talvez, a menos favorecida no trabalho de maquiagem, adota trejeitos e uma postura assustadoramente idênticas à da Lynn Cheney.

Existe um bônus impagável de Naomi Watts durante o filme, no melhor estilo Margot Robbie em A Grande Aposta.


O filme, por fim, é uma deliciosa comédia de um assunto extremamente sério, e que, para quem acompanhou bem na época, sabe a beira do caos que o mundo e as democracias estiveram envolvidas. O grande mérito do filme é justamente conseguir fazer rir a partir deste absurdo, que realmente parece apenas ficção, mas, chamando atenção para realidade e nos convidando para pensar em como neste exato momento, meia dúzias de pessoas, sabe-se lá com que intenção, estão redefinindo toda a dinâmica do mundo. Não é um filme que bata o antecessor do diretor, mas sem dúvidas, traz à tona um assunto de igual importância.

Ah! E não saiam do cinema antes da cena pós-créditos. É imperdível.




Título Original: Vice

Direção: Adam McKay

Duração: 132 minutos

Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Tyler Perry, Naomi Watts e outros.

Sinopse: Acompanhe a ascensão de Dick Cheney ao se tornar o homem mais poderoso do mundo. Vice presidente de George W. Bush, ele remodelou os Estados Unidos e o mundo, gerando mudanças que permanecem até os dias de hoje.

Trailer:

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João França

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