Crítica: Poderia Me Perdoar? (2018, de Marielle Heller)


Aos 51 anos na Nova York dos anos 90, a jornalista Lee Israel (Melissa McCarthy) vê sua carreira e vida pessoal desmoronar um pouco mais a cada dia frio que vem e vai. Recém demitida de seu emprego, com o aluguel atrasado e sua velha gata apresentando problemas de saúde, Lee precisa de uma rápida solução para resolver seus problemas porque, aparentemente, ela, as palavras e a crítica não se dão mais bem, mesmo após anos de profissão. 

Ela encontra seu bilhete premiado dentro de um livro sobre a comediante Fanny Brice, enquanto fazia uma pesquisa para seu novo trabalho. O bilhete, na verdade, era uma carta assinada pela comediante e seria a porta de entrada para Lee descobrir o milionário mundo dos colecionadores que pagam qualquer preço por material inédito de famosos já falecidos. Assim, depois de Fanny Brice, várias outras personalidades da literatura dos anos 50 foram ganhando voz através de palavras escritas por Lee, totalizando mais de 400 cartas forjadas pela jornalista.

Desde o começo do filme não é muito difícil adivinhar qual o desfecho da história, por isso, a diretora Marielle Heller teve o trabalho de dar uma dinâmica maior ao longa, apresentando o cotidiano da cidade que nunca dorme, os, às vezes maus, hábitos da protagonista e mostrando os possíveis motivos que tornaram Lee uma pessoa tão amargurada e insensível.


A diretora Marielle Heller e Melissa McCarthy
Justamente por ser uma personagem carregada de ironia e solidão, Lee não cativa o público de primeira, mas depois de observarmos com mais atenção os eventos que ajudaram a tornar o que ela é, conseguimos, pelos menos, sentir compaixão por ela. Melissa McCarthy que estava acostumada a fazer o papel de engraçada em comédias quase sempre questionáveis, prova que mereceu sua indicação ao Oscar de Melhor Atriz dando vida à uma protagonista recheada de camadas dramáticas.

Outro ponto que ajuda na conexão do espectador com a história é a inesperada e desengonçada amizade que surge entre Lee e Jack Hock (Richard E. Grant). Os diálogos entre os dois são despretensiosos, trazendo verdade e até um toque de humor ácido para o filme. Richard E. Grant rouba a cena em diversos momentos com seu personagem debochado por fora, mas sensível por dentro. Assim, Grant se torna um dos mais fortes na categoria do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.


Richard E. Grant e Melissa McCarthy em cena
Quando se trata da vida pessoal de Lee, o filme também aborda a orientação sexual da personagem de forma simples e sem muita explicação, o que não significa que é um tópico esquecido ou sem importância, mas sim uma camada a mais na construção da protagonista. A parte suave do longa fica por conta de Anna (Dolly Wells), uma elegante mulher que algumas vezes parece ser boa demais para seu próprio bem. Lee a encontrou na busca por pequenas livrarias novaiorquinas que poderiam comprar o material forjado pela jornalista sem chamar muita atenção.

O roteiro do filme é bem amarrado, sabe lidar com o lado trágico e cômico da história, e foi adaptado do livro homônimo escrito pela própria Lee Israel que consegue se conectar novamente com sua habilidade de escrita após toda sua jornada criminosa. A boa adaptação feita por Nicole Holofcener e Jeff Whitty também concorre na 91ª cerimônia do Oscar.



Poderia Me Perdoar? conta a história de uma jornalista e biógrafa que entra para o mundo do crime para conseguir dinheiro fácil, mas também para reencontrar sua voz no mundo do jornalismo e da escrita, justamente por isso, acredito que o filme possa ter uma conexão especial com quem exerce essa profissão, assim como eu. Afinal, todos nós temos um pontinho de medo de não conseguir triunfar na carreira, porém o maior receio é chegar ao ponto em que perdemos nosso feeling e encontrar palavras que deem sentindo às nossas histórias se torna algo muito penoso.



Título Original: 
Can You Ever Forgive Me?


Direção: Marielle Heller

Duração:
106 minutos

Elenco: 
Melissa McCarthy, Richard E. Grant, Dolly Wells, Ben Falcone, Gregory Korostishevsky, Jane Curtin e outros.

Sinopse: 
Passando por problemas financeiros, a jornalista Lee Israel decide forjar e vender cartas de personalidades já falecidas, um negócio criminoso que dá muito certo. Quando as primeiras suspeitas começam, para não parar de lucrar, ela modifica o esquema e passa a roubar os textos originais de arquivos e bibliotecas. Baseado em uma história real.


Trailer:

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Larissa Lago

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