Crítica: Operação Overlord (2018, de Julius Avery)



O contexto da produção de Operação Overlord é interessante. Começa em 2008, quando a gigante Paramount e a pequena - mas eficiente - Bad Robot, produtora do nerd J. J. Abrams (da série Lost e dos novos Star Trek e Missão Impossível), lançaram o primeiro Cloverfield. O longa misterioso foi uma surpresa, literalmente, não apenas em possuir qualidades e ser uma boa produção found footage (efeito por trás das câmeras, falso documentário como A Bruxa de Blair), mas por ser lançado nos cinemas sem saber-se muito bem sobre o que era a trama, até o momento de vê-lo. 

Eis que, em 2016, novamente de surpresa, Rua Cloverfield, 10 foi lançado como uma continuação. Mesmo que utilizando trama e técnicas diferentes do primeiro filme, surpreende pela alta perícia técnica ao se construir um thriller de primeira linha. Corta para 2018 e o aguardado terceiro filme intitulado O Paradoxo Cloverfield é lançado de surpresa direto na Netflix. E junto dele veio o amargor de uma franquia tão boa ser diminuída a ideias tolas. Ainda há pequenos momentos interessantes no filme, mas o resultado é aquém do esperado, revelando assim o motivo da obra ter sido vendida à Netflix em vez de ser lançada nos cinemas. 

Ainda no início de 2018, foi lançado o sucesso Um Lugar Silencioso, considerado o grande terror do respectivo ano, salvando assim o saldo desta equipe criativa. O filme chegou a ser cotado para também pertencer ao universo Cloverfield. Apesar da ideia descartada, até poderia ser bem encaixado. Então, eis que chega o Halloween de 2018, época proeminente para filmes de horror. E a equipe criativa ataca de novo, lançando o longa em questão nesta crítica. Porém, passou despercebido da maioria, não rendendo como o planejado, o que é uma pena. Operação Overlord foi um dos melhores filmes de horror do ano que passou.


Na trama, um grupo de paraquedistas da Segunda Guerra Mundial tem a missão de descer na França ocupada pela Alemanha e detonar com uma torre de comunicação, para facilitar a passagem de aviões que estão auxiliando no lendário dia D. Mas ao serem abatidos, um grupo de soldados chegará ao tal local sem imaginar o terror que os aguarda: o lugar é um laboratório de experimentos nazistas, onde estão sendo criados supersoldados, uma espécie de zumbis mais fortes e ágeis do que conhecemos em outras mídias. 

Com esta premissa, notamos que não há nada de inovador na sinopse. Seria então uma obra clichê? Sim, é bastante na verdade. Mas é um clichê bem realizado, onde no meio de uma trama que já vimos outras vezes, há pequenos detalhes que tentam fazer diferente, há um esforço em "diferenciar o clichê", por assim dizer. Numa mistura insana da franquia A Noite dos Mortos-Vivos (do George Romero) com O Resgate do Soldado Ryan, Operação Overlod é uma agradável surpresa. 



O roteiro é redondo, sabe-se onde quer começar e terminar. Existem problemas na sua construção, como o fato de ser previsível como algumas coisas ocorrerão, quem morrerá e quem usará o experimento e se tornará um "soldado zumbi". Existe essa facilidade em se saber que rumo a história tomará, devido à estereotipação de alguns personagens secundários. 

Mas, em contrapartida, há alguns acertos interessantes. O contexto e ambientação históricos estão corretos. Os roteiristas não amenizam ou romantizam os nazistas: eles são de fato monstros (literal e metaforicamente). Diante isso, há uma sutil representatividade em cena: os protagonistas são um homem negro e uma mulher francesa, duas figuras que representam núcleos que foram vítimas dos nazistas. Ele parece ser um soldado fraco diante seus companheiros sanguinários, isso porque ele é humanitário. Ela parece ser uma vítima fraca dos nazistas, sendo usada por eles, inclusive assediada sexualmente. Mas no momento certo, ambos mostrarão suas forças e explodirão com os "malditos nazis", literalmente.


Ver tais personagens recebendo tal poder, mesmo que numa produção descerebrada e com um viés fictício, é no mínimo incrível! Afinal, poderíamos ter apenas mais uns heróis típicos, homens e brancos em cena. Jovan Adepo e Mathilde Ollivier conseguem ser excelentes protagonistas, algo bem acima da média para este tipo de filme. E apesar de haver certa química entre ambos, o longa acerta em não abordar romance, focando na união pela sobrevivência. Afinal, tem uma Guerra Mundial, nazistas, gente morrendo e zumbis em jogo, não é o momento para romance. Nesses pequenos detalhes que a obra vai marcando pontos.


O longa se divide muito bem entre a ação e o terror. Com um ritmo alucinante, temos batalhas selvagens, bombardeios e até tristes perdas, que evocam a emocionantes filmes de guerra, como Platoon e o já mencionado O Resgate do Soldado Ryan. Mas é no terror que a obra ganha força. Primeiro, há a criação da atmosfera, a ambientação da vila, da igreja, do laboratório. Tudo de aspecto velho e sujo, que causam uma impressão realista. Temos a apresentação dos personagens e do mistério, que começa a criar certa tensão. Daí, com as teorias estabelecidas, o filme caminha num campo aberto de terror à moda antiga. 

Abraça-se totalmente o gore, com cenas violentas e gráficas. Nada horrível a ponto de ser proibido em alguns países por aí, mas em anos recentes de filmes mais brandos e sutis, Overlord vai logo pro horror gráfico. E tudo sem o CGI. Em vez de efeitos de computador artificiais, grande parte dos ferimentos, sangue e fraturas são feitos pelo uso de maquiagem e efeitos práticos. Assim, visualmente falando, soa como uma obra retrô, que resgata aqueles efeitos "lindos" típicos de filmes dos anos 80. 



A direção da obra é do novato Julius Avery. E puxa, já quero o próximo filme dele! Mantém-se aqui ritmo, balanceando-se muito bem o horror com a adrenalina. Há alguns planos-sequências sensacionais, especialmente um bem no início do filme. Faz-se transições bem interessantes entre algumas cenas, com alguns takes que na primeira hora do filme geram um mistério, mas na hora final focam no expositivo, privilegiando e mostrando o trabalho empregado na maquiagem. Nas cenas de ação, a câmera mantém-se nervosa, mas sem nos confundir. A geografia nas cenas de ação é bem posta, sabemos o que está acontecendo e não nos perdemos. A trilha sonora consegue embalar muito bem toda maluquice que se assiste, casando muito bem com as cenas seja para expressar tensão, seja para eletrificar a ação. 

Operação Overlord é bobo, foca na diversão para quem é amante de filmes de terror à moda antiga. Resgata efeitos incríveis dignos de clássicos, ao mesmo tempo que sua trama lembra aqueles obscuros filmes lançados direto em VHS que a geração dos anos 90 alugava. É um clichê bem temperado e bem produzido, às vezes com cara de superprodução. Quase fez parte do universo Cloverfield, mas a ideia foi deixada de lado sabiamente. Funciona muito bem sozinho, não necessita nem de continuação. Uma obra que passou batida nos cinemas, mas que deve ser redescoberta a partir de então. 


Existe chance de se tornar um filme cult com o passar do tempo, merecidamente. Bastante ágil, bem editado e muito bem dirigido, é um filme que não te deixará no tédio de maneira alguma. Embora esperasse mais do final (gostei tanto do que vi até a metade que esperei demais), não compromete em nada quem quer se divertir. Com pequenos traços de originalidade em meio a um mar de clichês, é uma obra para quem não é exigente e é amante do gênero. Ao menos não subestima a inteligência do público. Bom representante dentro da abordagem "filmes de zumbis", Overlord funciona como uma sátira sangrenta aos horrores do nazismo e seus fetiches com superioridade, armas e soldados. Apesar de ficção, tais fetiches estão cada vez mais em alta hoje em dia, o que acaba tornando Overlord crítico e atual. 




Título Original: Overlord

Direção: Julius Avery

Duração: 110 minutos

Elenco: Jovan Adepo, Wyatt Russell, Pilou Asbæk, Mathilde Ollivier, John Magaro.


Sinopse: Uma tropa de paraquedistas americanos é lançada atrás das linhas inimigas para uma missão crucial. Mas, quando se aproximam do alvo, percebem que não é só uma simples operação militar e tem mais coisas acontecendo no lugar, que está ocupado por nazistas.

Trailer:



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Léo Costa

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