Crítica: Thunder Road (2018, de Jim Cummings)




Thunder Road é um filme de drama-comédia que conta a história de um policial, Jim Arnaud (Jim Cummings), à beira de um colapso nervoso. Vivendo a pior época de sua vida, por conta da morte de sua mãe e o sentimento de ser sido ingrato por tudo o que ela fez por ele, seu recém divórcio, a relação complicada com a filha pequena, a distância de seus irmãos, as dificuldades de seu emprego como policial e ainda as dificuldades de socialização e aprendizado por conta de sua dislexia, Jim tenta lidar com esse turbilhão de emoções e seguir com sua vida. Para isso, decide fazer no velório de sua mãe uma dança performática da música Thunder Road de Bruce Springsteen, a preferida da falecida, como forma de agradecimento.


Sim, a ideia da dança performática é tão ruim quanto parece, e é desse ponto que o filme começa. O enredo passa, e muito bem, essa sensação do personagem de, desesperadamente, superar tudo o que está acontecendo em sua vida, principalmente a morte da mãe. O jeito que Jim tenta consertar as coisas, ou manter o otimismo, não pode ser melhor expresso do que com a frase "rindo, mas de nervoso". São situações em que o personagem se coloca em um momento de vexame tão grande que para quem está assistindo fica engraçado e trágico, ao mesmo tempo. Toda essa vontade de enxergar uma continuidade nas coisas deixa Jim como um pobre coitado, um inocente que ninguém dá seriedade.
 

A atuação de Jim Cummings é sensacional ao trazer esse sentimento. Em vários momentos dá vontade de abraçar o personagem e prometer que tudo ficará bem, ou mesmo ter uma conversa nada educada com aqueles que o cercam. Ver a vida do policial desmontando aos poucos e este tentando juntar os cacos para não cair em desespero, gera a dúvida de que se de fato estamos vendo um filme de comédia com pitadas de drama ou um drama com pitadas de comédia. Essa dualidade deixa o filme extremamente complexo e realista,  e se somos capazes de sentir empatia ao ponto de querer cuidar do personagem, sinal que a atuação, a direção e o roteiro são bons, que aqui por coincidência são feitos pela mesma pessoa.

Mas, ainda bem, nem todas a relações de Jim são problemáticas ou tóxicas. Um amigo de Jim é digno de ser mencionado em uma crítica do filme. Seu parceiro de profissão Nate Lewis (Nican Robinson), acompanha a vida de Jim e tenta, ao máximo, mostrar ao protagonista que não está sozinho quanto às vezes possa sentir. Mesmo em momentos em que Jim não está ciente do que está fazendo ou sentindo, descontando sua raiva e frustração em lugares e pessoas erradas, Nate ainda o acolhe e entende a situação emocional do amigo, até em momentos que nós mesmos queremos substituir o abraço por um puxão de orelha.


Para um filme que é composto basicamente por cenas de diálogos entre dois personagens, sempre Jim com algum conhecido, algum membro da família ou amigos, este possui uma fluidez impressionante. A câmera várias vezes começa em um plano que capta toda o ambiente e vai, aos poucos, se aproximando do rosto de Jim, dando não somente a sensação de intimidade com o protagonista como também a clareza de o que o personagem sente, até mesmo o que o personagem pensa. Mesmo quando começa a parecer irônico e não triste, cai exatamente onde o diretor/ator/roteirista queria: na ambiguidade de sentimentos.


É importante ressaltar que o filme fora baseado em um premiado curta, de mesmo nome e também produzido por Jim Cummings. Com o dinheiro das premiações,  a fama que permitiu um crowdfunding (famosa vaquinha online) e dinheiro do próprio Jim Cummings, o filme fora feito com um orçamento de apenas 140 mil dólares. Isso é um marco bem interessante: fazer um filme de qualidade, bem executado e trabalhado, com um orçamento que, se comparado a algumas produções, é quase um trocado. Thunder Road também foi vencedor de vários prêmios de festivais independentes do circuito de cinema. Uma pena que, até o momento, não tenha ganhado a devida visibilidade.


Um ponto do filme que poderia ter sido melhor colocado está na construção do roteiro que, em alguns momentos, ficou ligeiramente confusa. Estas específicas cenas deixam alguns acontecimentos circundantes ao enredo com determinado mistério que ficam na tênue margem entre o proposital e o acidente. Mas que fique claro, não atrapalha o texto principal do longa.

Thunder Road é um filme simples, ambíguo e sensível, que significa muito embora feito com pouco. Causa risadas, momentos de pura vergonha alheia e até algumas lágrimas, um marco para a capacidade do diretor estreante no mundo dos longas. Com certeza, um dos pontos altos de 2018.


Título Original: Thunder Road

Direção: Jim Cummings

Duração: 92 minutos

Elenco: Jim Cummings, Kendal Farr, Nican Robinson, Jocelyn DeBoer

Sinopse: O policial Jim Arnaud fica responsável pela organização do velório de sua mãe. Sem a ajuda dos dois irmãos, com dificuldades tanto para lidar com a atual situação de sua vida, tanta para aceitar a partida da mãe, Jim decide homenageá-la com uma dança performática que não sai exatamente como o planejado, deixando a situação em que se encontra ainda mais problemática e o próprio Jim à beira de um colapso nervoso.

Trailer:

BÔNUS: 

A tal da música Thunder Road 

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Igor Motta

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