Crítica: Roma (2018, de Alfonso Cuarón)


Antes de qualquer deliberação é importante ressaltar aqui, neste primeiro parágrafo, como o poderio dos serviços de streaming alcançou patamares não só envoltos nos lançamentos de grande público com temas batidos e montanhas de dinheiro, como também na realização de obras escaladas para importantes festivais ao redor do mundo. A memória coletiva da crítica estrangeira já foi agraciada por produções como Okja (2017), Ícaro (2017) e Beasts of no Nation (2015), ambos campeões de elogios. Premiações foram dadas e estatuetas recebidas: tudo nos cabíveis termos para a tristeza dos executivos que maquinam nossa indústria. O que podemos, então, esperar dessa revolução já tangível? Bem, vamos falar sobre o futuro.


Roma é, acima de tudo, um estonteante e feroz grito ressoado no coração de um México esquecido pelo tempo. Essa voz permeia distintas vidas e acontecimentos que propulsionam o caminhar da história, como um canto caótico, agindo de plano de fundo para a trajetória de nossos personagens. Alfoso Cuarón, também diretor de Gravidade (2013) e Filhos da Esperança (2006), parece ter recebido o dom de encontrar, na pequeneza das coisas, o grande significado do existir. Nunca antes, em suas mãos, uma história inibida de fantasias se materializou em algo fantástico. Famoso por odisseias, Cuarón desta vez assume o papel de menestrel por sua necessidade em mostrar que a vida real, e todo pecaminoso acontecimento que a acompanha, se torna algo muito maior que o próprio infinito, ou a falta dele.


Sobre os personagens: podemos resumi-los e inclui-los ao nicho que pertencem. O filme consegue separar de forma sútil a presença de diferentes personalidades sem que pensemos em generalizá-las: mulheres agem como mulheres, homens agem como homens e as crianças agem, por livre e espontânea vontade, como toda criança costuma agir. Pretendo, então, abordar cada um desses grupos, para mostrar que essa facilidade de enquadramento na construção dos personagens não foi por descaso, mas sim uma tentativa de tornar digerível a verdadeira essência do bicho homem.


As crianças Toño (Diego Cortina), Paco (Carlos Peralta), Pepe (Marcos Graf) e Sofi (Daniela Demesa), como dito antes, acabam por ser personagens praticamente inertes aos acontecimentos do filme. Mas não em totalidade, já que, eventualmente, tais causas vão nivelando suas camadas até o ponto onde torna-se impossível não esboçar a deprimência pela realidade onde vivem. Percebemos com o decorrer da trama que cada um deles carrega uma personalidade única, influenciada pelo meio e consequentemente pela vivência. Sem nada a criticar, somos apresentados aos extremos da mesquinhez e do sentimentalismo excarcerado, da forte personalidade estruturada numa boa condição financeira à miséria de notar que riquezas não preenchem os vazios da alma. Pode parecer, escrito dessa forma, que as crianças do filme possuem uma densidade irreal, porém, o acerto de Cuarón é que ao deixar isso subentendido ao público, possamos finalmente encontrar a nascente dos traumas infantis.


Os homens: Antônio (Fernando Grediaga) e Fermín (Jorge Guerrero) são excentricamente o estereótipo do pai recluso. Em ambos os lados e regida por diferentes estilos de vida, notamos a presença do homem em Roma como algo rarefeito, uma nuvem abissal pairando como a catalisadora dos conflitos, que se retira ao conforto da fugacidade assim que a merda bate no ventilador (da forma mais chula a ser dita). Tanto Antônio, quanto Fermín, são apresentados com superioridade à trama, o roteiro alavanca suas habilidades excepcionais de força e poder para que, no final das contas, o público perceba que essa máscara de lama esconde a podridão de suas verdadeiras faces. Se perguntássemos a Cuarón qual o verdadeiro vilão de sua história, apostaria eu, que ele fielmente consentiria que esse cargo é ocupado pelo protagonismo masculino. Mas também pelo contexto histórico.


O protagonismo aqui é feminino. Palmas a Cuarón. A presença feminina não é só forte, como também é motivante. Cleo e Sofia representam dois lados extremamente opostos socialmente, mas que por natureza, se atraem; de forma única as mulheres parecem possuir esse poder. Enxergamos o vazio da falta de homens mais velhos onde se estende a imensidão na existência de um filme vendido como uma obra feminina, dirigida e escrita por um homem: criado por mulheres e que escreve sobre elas, as maiores de sua vida. A vida quase sempre imita a arte. E se a vida se revelasse verdadeira como em suas infindáveis lembranças não acreditaríamos que Cleo e Sofia aguentariam passar pelo que passaram: a submissão, que em Roma é uma realidade, felizmente, superável. Mas, de início, percebe-se logo como a presença masculina abafa o outro lado da moeda. Eventualmente, com o desenrolar da trama e o distanciamento entre esses dois lados crescendo cada vez mais, o filme ressignifica a presença feminina no roteiro e todo o drama é depositado à elas, que carregam nas costas de forma firme os papeis de uma diarista sem sonhos, que, forçada a projetar seu futuro, passa a provar de um sonho, e de uma dona de casa que sonhou alto demais, com casamentos idealizados e o requinte do lar patriarcal de costume. Sonhos aqui são ração para cachorros vorazes.


Todos os aspectos visuais são sublimes, ponto. A fotografia ampla e arejada revela, eventualmente, a qualidade na performance de nossos atores, além de possibilitar também que o cenário crie vida para se mesclar aos passos lentos e vigorosos da trama. O uso do preto e branco proporciona ao espectador uma nostalgia, dentro dos conformes ao que o diretor desejava, uma memória vaga e efêmera de uma época nunca vivida, imaginável e completamente realista. As lacunas e os breus criados por cenas longas e enquadramentos subitamente abertos não é um adendo para o cansaço, mas sim uma carta na manga para a apreciação, todo elemento que retorna, toda figura que se estranha, todo acontecimento desconcertante e inusitado captado pelas lentes de Cuarón e excepcionalmente coreografado pelo mesmo são um convite para o imaginável, um transporte compassado e imersivo por câmeras fixas, luz ambiente e todos os requintes das simplicidades da natureza nas mãos de alguém hábil o suficiente para saber como usá-las.


Mesmo que, propositalmente, o filme se estenda, levando uma parte do público bem específica a querer desistir nos primeiros trinta minutos, ainda assim, restam pessoas engajadas por todas as linhas e sub-linhas que se entrelaçam até que se possa enxergar uma figura destoante e esmaecida. Sem trilha sonora, os sons das cidades se tornam graves, buzinas, tambores, gritos e tiros vagueiam caoticamente em um filme a princípio tranquilo. Acredito que uma das intenções do diretor fosse essa, altos e baixos, o caos e a paz, como em um sonho vivido onde se prova das duas vertentes constantemente.

Roma é uma lembrança projetada, construído por ideias e histórias, posicionado entre verdades árduas e mentiras que camuflam a monstruosidade do homem, como em um sonho tão real quanto a própria realidade onde se acorda sem que a história termine, restando apenas ao nosso imaginário dar sequência a ela, semeando, assim, a probabilidade de um desfecho feliz, que quase nunca vem e eventualmente termina mal. Esperança a todas as Cleos e Sofias e a todas as crianças no alvorecer da juventude, pois Roma é uma história encaixável, moldável à culturas, tradições, pessoas e ambições diferentes, que misteriosamente compartilham algo parecido: esperança.


No início desta matéria foi dito que aos poucos, a Netflix inaugurava um novo espaço no paladar de críticos e no holofote das premiações, desta vez, mais do que nunca, temos um filme com altíssima propensão para a grandeza, nada arcaico e desenvolto de fórmulas. Esperamos que surpresas dessas sejam mais reverenciadas no futuro, pois hoje a arte se funde ao dinheiro numa espiral infinita que vagueia uma grande margem de produções. As comparações de Roma com Que Horas Ela Volta? (2015) são ponderáveis, tramas parecidas reafirmam esse ponto, mas é rapidamente perceptível a dissonância entre essas odes à imperatividade das classes, algo no olhar das protagonistas insinua que o que as separa de si e nos separa delas é a simples ocasionalidade. Além do mais, toda casa vive sua história, a sua ocasional história.


Título Original: Roma

Direção: Alfonso Cuarón

Duração: 135 minutos

Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Andy Cortés, Daniela Demesa, Diego Cortina, Carlos Peralta, Jorge Guerrero, Marco Graf, Nancy Garcia e mais.

Sinopse: Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.

Trailer:

Gostou da matéria? Deixe seu feedback!

Matheus Valencia

Interessado por cinema. Não o bastante para ter assistido todos os filmes do mundo, mas o bastante para poder falar sobre eles.

Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário