Crítica: O Quebra-Cabeça (2018, Marc Turtletaub)


Puzzle é aquele filme que te surpreende logo de cara. A princípio, achamos que é uma história boba, mas que nos engana direitinho. Conforme o filme passa, percebemos que o “quebra-cabeça” é algo muito mais profundo e complicado. Muitas peças faltam para completar o quadro da vida da nossa personagem principal. Um drama muito bem feito para os amantes do gênero. Se quiser saber mais, leia nossa crítica. 

A história começa mostrando o dia a dia de Agnes (Kelly MacDonald), uma mulher profundamente infeliz que, aparentemente, não tem ideia dessa infelicidade, já que tudo o que ela sabe sobre a vida é aquilo que a ensinaram. Uma mãe amorosa, predestinada a viver pela família e somente pela família. Submissa aos desejos dos outros, sem nunca se por em primeiro lugar. É como se ela fosse um reflexo dos outros, mas que não reflete a si mesma. Sem identidade própria ou desejos próprios, o que é realmente triste e difícil de assistir às vezes.


Mas isso muda após ela ganhar um presente inusitado de aniversário, um quebra-cabeças de mil peças, que ela descobre ser um hobbie muito divertido e que, pela primeira vez, ela é boa em algo que não envolve lavar roupas e fazer o jantar. Então, ela faz algo inesperado e viaja até Nova York escondida da família para comprar outro jogo. Lá acaba descobrindo que um homem precisa de alguém para ser sua dupla num torneio de quebra-cabeças. E mais uma vez, inesperadamente, ela resolve entrar em contato com esse homem misterioso. 

Robert (Irrfan Khan) é um homem solitário e melancólico, obcecado por notícias trágicas em jornais. Um homem que ficou rico pelo acaso e vive sozinho em sua casa. Ao conhecer Agnes, ele logo de cara fica interessado por essa figura. Uma mulher católica, casada e que aparentemente vive em um mundo paralelo ao seu. Seu interesse por ela cresce a cada encontro e, percebemos que isso também afeta Agnes, que começa a ver e viver outras coisas que nunca imaginou em sua vida. Começando então a questionar todas as atitudes que vimos até então no filme.


Seu marido é o primeiro a sentir essa mudança; Louie (David Denman) é um homem simples e sem ambição, estagnado em sua vida e que vê em Agnes o seu grande amor, mas ao mesmo tempo, espera que ela seja a responsável por todos os cuidados da casa, como uma boa mulher deve fazer. Os conflitos são gerados quando Agnes começa a se colocar em primeiro lugar e deixar em segundo seu marido e seus filhos, um exemplo é quando ela esquece de ir ao mercado, gerando um clima tenso com seu marido, porque o mesmo ficou sem comer seu queijo preferido. Depois ela esquece de fazer o jantar e assim, sucessivamente, as pequenas coisas vão se tornando grandes coisas e que por fim, acabam por mostrar o quanto infeliz eles eram. 

Não vou mentir, há momentos no filme que incomodam profundamente, como a forma dela pensar, a forma dela agir para com os outros, como se ela fosse obrigada a ser gentil e doce a todo momento. A forma como inconscientemente Louie a controla e acha que não o faz, a forma como a própria Agnes se desconhece como pessoa. E ao mesmo tempo que ela vai se descobrindo, seu casamento vai desmoronando e tudo bem. Torcemos para que isso aconteça. Não que Louie seja um marido ruim, ele apenas a trata como foi ensinado a tratar uma mulher. O patriarcado nunca sai de cena. Além de seu marido, ela tem dois filhos e apesar de tudo, eles a entendem melhor do que ela mesmo. O que é irônico.


O título diz muito mais sobre a vida da personagem do que propriamente do jogo em si, o filme é sobre uma mulher que não se encaixa na própria vida e precisa se encontrar sozinha. Ser ela mesma, sem ninguém dizendo o que fazer e como fazer. É um filme para refletir sobre a vida, sobre as escolhas que fazemos e principalmente sobre sonhos que nunca realizamos e negligenciamos durante toda uma vida.



Título Original: Puzzle


Direção: Marc Turtletaub

Duração: 90 minutos

Elenco: Kelly MacDonald, Irrfan Khan, David Denman, Bubba Weiler, Austin Abrams

Sinopse: Agnes é uma mãe suburbana na casa dos 40 anos que tem todo o seu tempo consumido e dedicado ao cuidado dos homens da sua família. Quando ela descobre o dom de montar quebra-cabeças, seu mundo muda completamente. Com novos horizontes, toda sua família é forçada a se ajustar e mudar junto com ela, que passa a participar de competições de montagem de quebra-cabeças.

Trailer:


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Natália

Nada do que eu disser será verdade

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