Crítica: No Coração da Escuridão (2018, de Paul Schrader)


Diversas produções experimentaram, ao longo da história do cinema, abordar a relação do ser humano com Deus, com a religião, ou até mesmo com a própria fé. Seja ela através da recriação histórica de figuras como a de Jesus Cristo (como em A Última Tentação de Cristo, de Scorsese, ou O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini) ou através de diálogos filosóficos verbais e imagéticos de pessoas quaisquer com as questões metafísicas acerca de Deus colocadas pela existência (como no magistral Luz de Inverno, de Ingmar Bergman). O novo longa de Paul Schrader, mais conhecido como roteirista de filmes como Taxi Driver e Touro Indomável, traz, porém, uma abordagem muito original à essa conflituosa e saturada relação, introduzindo um personagem eclesiástico (um pastor) repleto de angústias e dúvidas sobre si, sobre sua fé e sobre o mundo.

No Coração da Escuridão - cujo título original, First Reformed, remete à Igreja em que o personagem habita - acompanha a narrativa do pastor Toller (interpretado por Ethan Hawke), em primeira pessoa, sobre eventos que estão acontecendo em sua vida conforme escreve um diário. O filme possui duas linhas narrativas paralelas, porém que se entrelaçam: ao mesmo tempo em que acompanhamos a crise existencial do pastor em seu diário, que logo no começo já é anunciado como um "experimento" que será destruído em um ano, seguimos também os eventos que se intercalam entre a vida de Toller durante este período. E é aí que o espectador entra na real trama que move a história. A pacata rotina do pastor é perturbada quando Mary (Amanda Seyfried) busca o pastor para resolver o problema de seu marido, Michael (Philip Ettinger), que está à beira de uma depressão profunda por conta dos problemas ambientais do mundo. Após conhecer Michael, a vida de Toller, então, passa por uma completa reviravolta quando o pastor vai adquirindo para si os problemas e as reflexões existenciais do marido de Mary.


O roteiro de Schrader é elaborado com propósitos bem estabelecidos e quando isso se alia à direção sólida do realizador, temos um filme em que as ideias do diretor conseguem ser firmemente expostas. O personagem de Hawke, o pastor em uma crise existencial, carrega em si diversos sentimentos conflitantes acerca do homem e seu poder sobre a natureza, sobre si mesmo e sobre o filho que perdeu nas forças armadas. E é justamente ao incorporar as dores e angústias de Michael em relação ao destino do planeta Terra que acompanhamos uma guinada na personalidade até então esclarecida do personagem. Trata-se, esta obra, de um fascinante estudo de personagem. A forma como Toller incorpora a decadência física e mental por conta de seus anseios (que mais para a frente se transformará em desilusão e, finalmente, raiva) é esplêndida tanto por conta da ponta do lápis de Schrader, quanto pela sublime atuação de Hawke.

O ator consegue transmitir todo o conflito interno de Toller em sua trajetória de um começo pleno a pequenos detalhes corporais que se transformam ao final. Desde expressões faciais à voz serena do pastor, Hawke aplica uma profundidade a um sujeito que, ao perceber os males do homem e do mundo, vai, aos poucos, enlouquecendo. E aqui se encontra um dos motivos de paralelos com Taxi Driver surgirem pela crítica (além do fato de possuírem o mesmo escritor), por vezes o personagem de Hawke consegue lembrar o Travis Bickle de De Niro. As atuações secundárias são muito bem conduzidas também, Seyfried consegue transmitir a inocência de uma personagem ingênua, mas cheia de preocupações e com camadas, assim como Ettinger é muito eficiente ao construir um homem angustiado e sem esperanças.


A direção de Schrader é precisa em passar o tom que o diretor procura, ainda que deslize em alguns momentos no meio do longa. O realizador opta por utilizar um formato de filmagem popularmente conhecido como "academy ratio", onde as dimensões (1.37:1) da tela deixam-na em um formato similar a um quadrado. Esse recurso estético, além de trazer uma atmosfera de retrato, remetendo à simplicidade do local e à uma antiguidade suspensa no ar, enclausura ainda mais Toller, trazendo uma dramaticidade maior ao seu sentimento claustrofóbico e angustiado. A fotografia, realçada também pelo ótimo design de produção e pela construção de cenário, é soturnamente pálida, conduzindo um forte sentimento de melancolia e solidão às cenas, sem nunca trazer muitas cores vivas, a não ser em momentos específicos. Momentos esses onde temos uma visão diferente de Schrader e que se configuram em duas cenas belíssimas ao longa: o diretor desprende-se do realismo melancólico e utiliza um recurso fantástico para explorar a intimidade de Toller em uma poesia visual incrível em uma cena pela metade do filme, e na cena final. É notável o fato de que, durante a maior parte do longa, a câmera se encontra estática, com exceção desses dois momentos fantásticos, onde o espectador e Toller podem, de certa forma, respirar.

E é justamente com essa direção firme que podemos adentrar nas camadas de discussão que são colocadas por Schrader. O diretor explora diversas facetas através do personagem: angústia existencial, desilusão com o mundo e com o homem, hipocrisia da Igreja, problemas ambientais, fragilidade e condição humana. Um dos méritos do filme é que a maioria desses temas conseguem ser expostos de uma maneira conjunta e verossímil, conseguindo suscitar debates internos na mente do espectador. Porém, também a película peca em não conseguir construir substancialmente uma linha sólida para seguir durante o segundo ato um pouco bagunçado do filme. E é aí que nos confrontamos também com a falta de objetividade do roteiro no mesmo ponto, criando alguns momentos um pouco desinteressantes. Contudo, Schrader consegue retomar a mão em um terceiro ato poderoso e metafórico, que decide, enfim, qual caminho seguirá para suscitar sua discussão e suas críticas.


E nesse terceiro ato é onde No Coração da Escuridão consegue se estabelecer e demonstrar todo seu poder. Trata-se de um filme que busca transmitir, através de uma melancolia eclesiástica, um incômodo ao espectador fazendo-o repensar suas hipocrisias, problemas ambientais e, justamente, sua existência. E tudo isso sob um cenário religioso, onde Schrader aproveita para destilar diversas opiniões sobre o funcionamento sujo e corrupto de certas instituições religiosas aliadas de grandes empresas sem ética. O realizador não segura a mão ao transportar para um personagem beato uma crise para com seus próprios preceitos morais estabelecidos ao perceber o quão sujo é o mundo em que vive. Toller precisa se confrontar triplamente: com as angústias expiadas em seu diário, com a descrença em sua instituição (porém, fato interessante: Toller nunca abandona sua fé em Deus) e com seus sentimentos que surgem em relação à nova situação com Mary, que se confrontam com sua nova natureza. Novamente, trata-se de um exímio estudo de personagem sobre a desilusão de um homem contra tudo que já lhe está estabelecido.

No Coração da Escuridão não é um filme fácil, seu ritmo é um pouco devagar, seu tom é melancólico, porém é poderoso em seu propósito e eficaz em transmitir seus ideais através de um personagem muito bem escrito. Tem seus benefícios tanto em seus questionamentos filosóficos e sociais, quanto em sua estrutura narrativa elaborada, para transmitir ao espectador o interior de alguém perturbado. Estabelece-se assim como um dos melhores filmes de 2018 até o momento, uma obra profunda e magistral, com dimensões sobre a condição humana exploradas de uma forma original e esteticamente muito bela, mais um ótimo produto da A24 para se conferir no cinema.


Título Original: First Reformed

Direção: Paul Schrader

Duração: 113 minutos

Elenco: Ethan Hawke, Amanda Seyfried, Philip Ettinger, Michael Gaston.

Sinopse: O ex-militar capelão Toller (Ethan Hawke) sofre pela perda do filho que ele encorajou a se alistar nas forças armadas. Um outro desafio começa quando ele faz amizade com a jovem paroquiana Mary (Amanda Seyfried) e seu marido, que é um ambientalista radical. Toller logo descobre segredos escondidos de sua igreja com relação a empresas inescrupulosas.

Trailer:


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Gabriel Zupiroli

Gosto de duas coisas, cinema e literatura, à parte disso, de vez em quando perco o tempo de me interessar por coisa ou outra.

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