Crítica: Intimidade Entre Estranhos (2016, de José Alvarenga Jr.)


Inspirado na letra de Leone e Frejat, Intimidade entre Estranhos fala sobre a relação entre 3 pessoas por um curto momento de suas vidas, sobre suas interações, suas mentiras e suas verdades, sobre acolhimento e solidão, sobre desconfortos e alegrias, sobre infidelidade, perdão e lealdade... a riqueza das trocas humanas e o incrível e inesgotável universo de cada um.

Maria é uma jovem mulher que já não se sente tão jovem assim. Vive em busca de uma alegria que não encontra com frequência dentro de si, aliás, passa seus dias lutando contra sua impiedosa depressão. Nasceu no Rio de Janeiro, mas mudou-se para São Paulo para fugir dos traumas que geraram os fantasmas que a perseguem até hoje mas, nesse momento da vida, volta ao Rio, mesmo contra sua vontade, para estar presente num dos momentos mais importantes da vida de seu namorado, por quem é completamente apaixonada e grata por todas as barras que ele já enfrentou ao seu lado.

Pedro, o namorado, é um menino grande em busca de seu sonho de ser um grande ator. Por muito tempo fez pegadinhas para programas populares de TV e teve que se virar das maneiras mais inusitadas para pagar as contas por nunca ter tido muita sorte na carreira, mas agora recebeu um convite para um papel de destaque numa novela bíblica portuguesa e investiu aí todas as suas fichas.

Por fim, Horácio, um adolescente melancólico e solitário que, por não saber lidar com seus próprios sentimentos e com o vazio dentro de si, se isolou dentro de seu mundo. Perdeu os pais ainda muito criança e foi criado pela vó, que foi quem o educou e deu a ele todo o amor de que tem lembranças, mas a vida dela também chegou ao fim e, completamente sozinho no mundo, só pode contar com a herança que recebeu e com a música que sempre foi sua companheira, mas que agora se tornou seu refúgio.


No primeiro momento de Maria em seu novo lar no Rio de Janeiro, ela já precisa enfrentar um desconforto com o rabugento Horácio que é o dono de todos os outros apartamentos do prédio e, também por herança, é o inusitado síndico que impõe a ela suas regras. Cria-se de cara um tremendo mal estar, mas apesar disso, Maria e Horácio se aproximam muito rápido e criam uma forte relação de empatia onde começam a dividir seus dias e um encontrar no outro o conforto de que precisavam dentro de suas tristezas.

Pedro está tão focado nas idealizações de sua carreira que passa a ficar cada dia mais distante, entregue aos sonhos e a euforia do que esse novo momento pode lhe oferecer, assim sendo, Horácio acaba se tornando um abrigo para Maria. Ele, como adolescente que é, logo começa a se encantar pela beleza, liberdade e pela maneira de pensar da nova vizinha e esperar dela bem mais do que uma companhia. O menino claramente se sente envolvido por essa mulher mais velha e tão especial aos olhos dele, mas também se sente um tanto intimidado e, tudo o que não tem coragem de dizer, expressa à ela através de suas composições cheias de sentimento.

Eu gosto de filmes feitos com simplicidade, sabe? Esses despretenciosos, mas com muito o que dizer, e Intimidade entre Estranhos é assim. Vai trazendo de forma natural os medos e as aspirações dos seus personagens, seus abismos e suas questões passadas, vai arranjando e desarranjando os caminhos e certezas entre eles, traz toda a paixão visceral sentida por cada um, mas expressada de acordo com suas peculiaridades, vem devagar e te joga um caminhão de emoções no colo, principalmente a depressão, que é o foco central de todas as questões que emergem aqui. O tema do século e um beco sem saída para a personagem central.



Essa não é nenhuma obra prima do cinema nem tem um roteiro revolucionário, mas é um filme que te dá a oportunidade de um bom estudo humano e de uma interessante observação sobre neuroses, dores e até sobre tentativas desesperadas de manter a sanidade. Conta com atuações convincentes de Rafaela Mandelli, Milhem Cortez e o jovem Gabriel Contente além de a trilha sonora cantada pelo garoto ser inteirinha composta por Frejat e Leoni.

O diretor José Alvarenga Jr. fala sobre o filme como uma criação conjunta onde foi permitido muito improviso e também a possibilidade de cada ator contribuir com suas opiniões na construção dos personagem de acordo com a experiência pessoal de cada um. Nada como a liberdade de por um pouquinho mais de si no seu trabalho, não é?


Título Original: Intimidade entre estranhos 

Direção: José Alvarenga Jr. 

Elenco: Rafaela Mandelli, Milhem Cortez, Gabriel Contente, José Dumont, Giovanna Lancellotte, Jayme Periard 

Sinopse: Maria, uma jovem mulher, enfrenta seus maiores fantasmas do passado para estar presente no momento mais importante da vida de seu namorado Pedro, um ator frustrado e sonhador que acaba de receber o convite de um papel importante em uma novela bíblica portuguesa. Os dois vão morar num prédio onde Horácio, um adolescente melancólico e sem nenhuma habilidade em se relacionar, é o inusitado síndico e, a primeira vista a relação entre eles é agressiva e cheia de conflitos, mas logo eles começam a descobrir que tem muito mais em comum do que imaginam e um convívio muito rico começa a nascer.

Trailer:

Se você, assim como eu, é um apaixonado pelas relações humanas e o que advém delas, assiste esse filme com carinho e depois divida conosco sua opinião!

Fernanda Rodrigues Ramos

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