Crítica: PO (2017, de John Asher)


Essa é uma daquelas histórias tristes e até um tanto clichês, mas que nos abre um mundo de possibilidades e tem muita sensibilidade a oferecer. Esse filme divide o protagonismo entre Po, um garoto autista que vive em seu mundinho com suas dores, alegrias e a grande dificuldade em lidar com o mundo externo, e seu pai David, um homem que, já na primeira cena, esta passando pela perda de sua esposa e o medo de tudo o que vem pela frente. Vivências totalmente diferentes, em mundos paralelos, mas que estão visceralmente ligadas e influenciando uma à outra.

Com um movimento completamente novo para David, onde ele se vê, do dia para a noite, tendo que dar conta de uma casa, de contas, de seu trabalho que o exige muito e do fato de ser pai de uma criança com necessidades especiais, ele começa a viver seu inferno pessoal na mais absoluta solidão. Sua vida se torna uma ode ao sofrimento e tudo a sua volta começa a ruir. Com tantos conflitos internos e externos, David se vê perdido e, apesar de todo o amor que tem pelo filho, não sabe muito bem como lidar com ele; ao mesmo tempo fica evidente todo o afeto e a tentativa de dar o melhor de si, também fica claro que existe uma distância dolorosa entre eles e uma imensa falta de sua esposa, que era quem sustentava essas relações.

Toda a trajetória de David nesse filme nos dá a nítida sensação de que a vida precisa ser essa coisa pesada e que a gente tem que sofrer muito para merecer ser feliz e receber uma recompensa lááá no final, e esse é um olhar que me traz um tanto de desconforto e me demanda um certo esforço para aproveitar os pontos positivos que a obra tem a oferecer, mas, felizmente, ela tem muitos.



Já da ótica de Po, o mundo tem outras cores e outros valores. Ele sente dor quando sofre bullying do coleguinha maldoso da sala, se sente desconfortável diante de algumas abordagens, sente de alguma forma a dor do pai, mas ainda assim, encontra em suas divagações toda a fantasia necessária para ser feliz. 

É nos momentos de solitude que o menino Po se transporta para outras dimensões, e isso acontece com a ajuda do lenço de sua mãe, como se o contato com ela fosse o passaporte que o leva a outras dimensões com realidades que não pertencem a ele no mundo real. Nesse lugar, Po é uma criança como todas as outras que se expressa com clareza e convive em harmonia com o externo, esse lugar é onde existem lindas paisagens, piratas, astronautas e também o lugar onde faz amigos. Nesses momentos, a única mensagem que me soava aos ouvidos era: "sonhe, porque teu sonho é o que te salva da realidade dura e cinza", e foi encantador ver isso de forma tão lúdica diante dos meus olhos e através dos olhos de uma criança tão pura. Ouso dizer, até, que esse ponto do filme poderia ter sido melhor explorado para termos uma história mais rica, sensível, interessante e menos triste... mas aí sou só eu querendo mudar a obra alheia!



Os vínculos familiares são claramente algo muito importante e decisivos na vida de Po no decorrer dessa história. Sendo uma criança autista, não é uma de suas habilidades exteriorizar o que sente, mas isso vai ficando claro com os acontecimentos na sua rotina. Da mesma forma que Po se entrega às viagens em seus sonhos através do amor e da saudade de sua mãe, também vai ficando cada vez mais distante do mundo externo pela relação conflituosa com seu pai. Toda essa dança dentro da cabeça desse garotinho vai enriquecendo sua história, mas também traz ao pai os aprendizados que são necessários para a trama, mas um tanto óbvios para nós. 



Po tem um roteiro mediano e extremamente previsível na maior parte das situações, além de nos prender bastante tempo ao sofrimento de David, mas também é um filme doce, que fala de gentileza, de descobertas, de sonhos, fantasias e superações, é uma história de amor entre pai e filho que não se limita a nada e é também uma lição de empatia. 

Quanto às atuações, senti que  foi entregue o que o filme promete. Vi em Christopher Gorham um homem que carrega o peso dos acontecimentos na feição triste e cansada, evidencia sua falta de paciência e competência em lidar com as demandas da vida sem precisar dizer uma só palavra, e é também sem dizer nada que ele expressa seu contentamento e seu amor em ver o filho sorrir, quando recebe dele o primeiro abraço, ou o encanto que demonstra por uma nova pessoa em sua vida, mas nada se compara a Julian Feder que rouba seu coração desde a primeira cena com seus olhares, seus sorrisos, sua expansividade e até com seus surtos e momentos de profundo silêncio e melancolia. Ele flui com perfeição entre as questões que envolve seu autismo no dia a dia e os sonhos onde ele pode ser e fazer o que quiser. Está tudo ali, tudo o que precisa ser dito ou demonstrado você encontra nos olhos perdidos de uma criança autista.



Título Original: A Boy Called Po


Direção: John Asher


Elenco: Christopher Gorham, Julian Feder, Sean Gunn, Kaitlin Doubleday, Caitlin Carmichael, Andrew Bowen, Bryan Batt, Fay Masterson. 


Sinopse: David é um homem jovem que acabou de perder sua esposa e vê toda sua vida falir diante dos seus olhos. Com tantas dores e questões para lidar, ainda precisa ser pai em tempo integral de Po, uma criança autista que demanda uma atenção e habilidade que ele ainda não possui. Po, mesmo com sua pouca facilidade em conviver com outras pessoas, tem uma rotina escolar como como a de qualquer outra criança e convive com toda a dificuldade e problemas que vem disso, mas também é dono de um universo particular de sonhos cheios de fantasia que tiram da vida qualquer limitação e peso que possa existir.    

Trailer:

PO te convida a sonhar! Permita-se!

Fernanda Rodrigues Ramos

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