Crítica: Modigliani (2004, de Mick Davis)



Italiano, nascido num lar judeu à beira da falência, Modigliani já teve seu nascimento marcado pelo caos. Numa época em que era lei que credores não poderiam levar nada que estivesse em cima da cama de uma mulher grávida ou que tivesse um bebê recém nascido, ele chegou salvando o pouco que sua família ainda possuía. 

Sua infância foi marcada por muita pobreza e diversos problemas de saúde que o acompanharam até sua prematura morte. Também pela saúde frágil, Modì não pôde ir à escola e tinha aulas com sua mãe, que também foi quem incentivou seu já aparente interesse pela arte.



Mas o filme tem como foco retratar sua vida adulta em Paris, que foi onde Modì viveu, de acordo com essa história, os maiores acontecimentos de sua vida. Foi lá onde se entregou à vida boêmia, às drogas, mulheres e também onde mergulhou de cabeça em sua arte. Foi lá onde foi visto como um verdadeiro artista, e também onde conheceu sua Jeanne, sua maior musa e também quem se tornou sua esposa e mãe de seus filhos; viveram juntos uma vida conturbada por muitos altos e baixos e uma imensa veneração.

Temos aqui um Modigliani vivendo em uma linha tênue entre suas profundas dores e desesperanças e uma imensa alegria e fascínio pela vida e por tudo que o cercava. Quase uma relação esquizofrênica entre os extremos dentro de si, mas completamente apaixonante e envolvente para quem vivia a sua volta.

Esta não é uma biografia fiel e nos mostra um Modì mais provocador com uma relação um tanto agressiva com Picasso que, na maioria dos momentos, traz uma atmosfera de humor à trama, o que foi extremamente necessário para que eu pudesse lidar com todos os seus conflitos internos. E por falar em conflitos, há algo nessa história que foi, na minha opinião, um ponto riquíssimo para desenrolar do lado sombrio de Modigliani: a personificação de sua criança que andava ao seu lado e lhe dava conselhos sobre os acontecimentos que mais o angustiavam. Por muitos momentos essa criança era muito mais madura do que o homem formado que estava ao seu lado.


Andy Garcia, com toda a certeza desse mundo, foi a melhor escolha possível para esse papel. Ele é genial, sedutor, conquistador e, na falta de uma palavra melhor, apaixonante!!! Te envolve do início ao fim e te faz rir e chorar (muito) com ele. Consegue trazer todas as emoções de cada fase desse artista tão genial. Senti a dor daquela criança tão pobre e doente, a dor daquele escultor frustrado por não poder exercer sua arte por conta de um pulmão adoecido, a dor por dedicar toda sua existência a pintura e nunca ter tido o mínimo de notoriedade precisando vender seus retratos em troca de um prato de comida ou uma cama para dormir, a dor da frustração por ter tanto talento e inspiração, mas passar seus dias suportando sua própria miséria, e também tive a possibilidade de sentir com ele toda a alegria de viver, todo o amor por sua criação, toda a vida que transbordava explícita eu seu sorriso,  toda a veneração por sua Jeanne, toda a criatividade que corria em suas veias e sua grande generosidade. Foi intenso e arrebatou meu coraçãozinho para todo o sempre!


Elsa Zylberstein, foi a belíssima mulher que deu vida a Jeanne. Ela, que em nada se parecia com a real Jeanne, mas era absolutamente idêntica à que Modì retratava em seus quadros com cada traço fino e delicado e seu pescoço longo.
Uma excelente escolha para retratar tão claramente a sutileza e fragilidade desta mulher que era obcecada por esse homem e parou sua vida para viver a dele. E foi esse amor doentio que permeou a vida do casal com tantos dramas e dores, mas também momentos da mais profunda felicidade.

E não fica por aí, porque temos outras excelentes interpretações, como a de um Picasso extremamente arrogante e esnobe vivido por Omid Djalili, que dá um novo tom à história trazendo competitividade, humor e uma grande admiração velada por sua imensa vaidade. Parece fútil, mas é um personagem extremamente importante e complexo em todas essas teias da vida tubulenta do nosso protagonista.

E além de tudo isso, ainda tem uma trilha sonora clássica, feita especialmente para o filme, por Guy Farley, que acrescentou  toda uma atmosfera melancólica que te toca lá no fundo trazendo ainda mais emoção à cada cena.

Amadeo Modigliani, o palhaço atormentado por sua escuridão, o gênio perdido por sua falta de confiança em si mesmo, o criador que não viu em vida a glória de sua criação, o amante arrebatado pelo amor, a sensibilidade de um homem que não podia pintar os olhos sem enxergar a alma, a poesia de uma existência repleta de emoções viscerais. Ele que foi muitos em um, foi tudo! 
   

Titulo original: Modigliani

Diretor: Mick Davis

Elenco: Andy Garcia, Elsa Zylberstein, Omid Djalili, Hippolyte Girardot, Peter Capaldi, Louis Hilyer, Udo Kier, Eva Herzigová, Susie Amy, George Ivascu, Miriam Margolyes 

Sinopse: Amadeo Modigliani foi um famoso pintor italiano que teve uma vida repleta das mais intensas emoções. Um homem que apesar de toda sua fragilidade e dores de sua alma, viveu a mais profunda paixão pela vida e se dedicou de corpo e alma a tudo o que fez. Viveu uma relação doentia com a musa da maioria de seus quadros, encontrou na arte o mais profundo significado de sua vida e em suas relações, tudo o que lhe trouxe o máximo da completude que pode encontrar. Viveu atormentado pelas dores que carregou desde sua infância, mas sempre manteve a chama acesa e encantou a todos por onde passou.

Trailer:


Se você gosta de filmes de arte e tem uma veia dramática como a minha, esse filme precisa entrar na sua lista! Desfrute e depois divida comigo suas impressões!

Fernanda Rodrigues Ramos

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