Crítica: Excelentíssimos (2018, de Douglas Duarte)

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Excelentíssimos é um registro por trás da maior crise política desde a redemocratização do Brasil: o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. O longa é a segunda obra a retratar esse mesmo tema ainda esse ano. Em maio, nós tivemos a estreia de O Processo, o maravilhoso documentário de Maria Ramos, que foi aclamado no Festival de Berlim, faturou prêmios na Argentina e Espanha, e agora está na lista de pré-indicados ao Oscar de Melhor Documentário. É impossível não comparar Excelentíssimos com O Processo. Apesar dos dois documentários retratarem o mesmo tema, O Processo foca suas atenções nas estratégias desenvolvidas pelo PT para que o impeachment de Dilma não acontecesse. Excelentíssimos, por sua vez, possui um olhar mais abrangente da história, um olhar sobre o comportamento dos parlamentares e as suas articulações para que o impeachment, de fato, acontecesse.



Enquanto O Processo tinha um trabalho de montagem minucioso, no qual as imagens falavam por si próprias, Excelentíssimos possui uma narração em off que explica os fatos e se posiciona politicamente. O que não é ruim, mas O Processo deixa que o próprio espectador tire suas conclusões e veja o óbvio diante das imagens. Não precisa ter uma narração que explique isso. Na verdade, os dois documentários possuem propostas diferentes. O diretor Douglas Duarte segue uma linha cronológica em seu longa, explicando os fatos. É um excelente documentário a ser exibido nas escolas antes que o projeto Escola sem Partido vingue no plenário. De qualquer forma, revisitar acontecimentos de dois anos atrás nos faz entender melhor como toda a crise política e econômica do Brasil gerou a figura popularesca de Jair Bolsonaro, um ditador, que conseguiu se eleger como Presidente da República. Em uma das cenas do filme, Bolsonaro define o Brasil como "o país dos coitados". Segundo ele, não existem diferenças entre homens, mulheres, negros e gays: "Todos somos iguais e temos os mesmos direitos". O documentário também mostra o desconcertante momento em que Bolsonaro homenageia Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador de Dilma Roussef, minutos antes de revelar seu voto favorável ao impeachment.

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É impossível assistir Excelentíssimos totalmente imune. O espectador tem que estar pronto para a enxurrada de sentimentos ruins que esse filme desperta. É uma jornada de horror do início ao fim, uma crise que polarizou o país e que perpetuará por anos em nossa história. Um dos pontos altos do filme é salientar a presença de pobres, negros e gays nas manifestações contra o impeachment e mostrar que a maioria dos apoiadores da queda do governo eram um grupo majoritariamente formado por homens brancos, héteros, influentes e abastados.

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Excelentíssimos seria um excelente filme de terror se aquilo tudo não fosse verdade. As cenas do filme nos fazem perguntar se realmente vivemos em uma democracia. Uma "democracia" em que as leis possuem pesos e medidas diferentes para quem está sendo julgado, uma "democracia" que utiliza a Constituição ao seu bel prazer, que derruba uma presidenta democraticamente eleita em "nome da família brasileira", que prende o político mais popular do Brasil com medo de que ele volte ao poder, que manipula leis, absolve culpados (...).

O povo brasileiro, cansado de sofrer, caí em promessas oportunistas, elege políticos com discursos radicais e clama por soluções mágicas e imediatas. O momento mais emblemático do filme é quando um dos políticos afirma que, caso Dilma tivesse roubado um picolé, ele votaria à favor de sua queda. Em outra cena, um manifestante pró-impeachment vangloria Eduardo Cunha e o chama de "meu malvado favorito". Ou seja, nunca foi uma luta pelo fim da corrupção. Qualquer desculpa era válida, o importante era derrubar o PT e 2019 será o ano em que veremos os efeitos reais de toda essa crise política mostrada em Excelentíssimos. Como disse Eduardo Cunha em seu discurso favorável ao impeachment, "que Deus tenha piedade desta nação"! E que mais obras como essa sejam produzidas para que futuras gerações entendam o perigo de desestabilizar a democracia.


Título Original: Excelentíssimos

Direção: Douglas Duarte

Elenco: Dilma Rousseff, Lula, Aécio Neves, Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro.

Sinopse: Retrato da democracia brasileira em um momento frágil de polarização política no Congresso Nacional, acompanhada durante quatro meses por uma equipe de filmagem. Processos que permitem cerca de 600 pessoas influenciar nas decisões do país, legisladores corruptos que se transformam em delatores, uma presidente que defende seu mandato com um pedaço de papel e falcões que traçam sua subida ao poder enquanto multidões cantam e protestam.

Trailer:

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Marçal Vianna

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