Crítica: Atypical - 2ª Temporada (2018, de Geeta Patel, Joe Kessler e mais)


Não sou o tipo de pessoa que se afina muito com séries, e isso costumeiramente acontece por eu ser uma pessoa muito ansiosa que fica à beira de um colapso esperando por desfechos, mas isso não aconteceu com Atypical.

Assisti à primeira temporada por ter me interessado pelo assunto principal e me apaixonei de cara, mas a segunda temporada superou minhas expectativas. Existem muitos valores a serem vistos aqui. Você, com toda a certeza, termina essa temporada querendo ser alguém melhor ou, ao menos, questionando seus julgamentos.

Nessa produção da Netflix, criada pela sensível Robia Rashid, Sam continua sendo nosso protagonista, mas agora dentro de um contexto maior onde enxergamos mais sobre sua família e amigos e isso é muito rico. Claro que eu ficaria mais feliz se pudéssemos ter mais profundidade em cada personagem, e acho até que dava pra fazer duas temporadas com tanto assunto. Definitivamente, 10 episódios de cerca de 30 minutos cada, foi pouco para tantas emoções que entrei em contato.

No final da primeira temporada tínhamos um Sam que estava começando a vislumbrar o desconhecido, e isso inclui o amor. Vimos a traição da mãe e o transtorno que isso começou a gerar na família. Contemplamos o amor e o zelo de Casey pelo irmão, mas também o quanto ela se anulava e se sentia solitária por ter tão pouca atenção por toda uma vida. Vimos um pai muito amoroso com a filha, mas distante de Sam por não saber como lidar.


Na segunda temporada as relações se intensificam diante das dores, do crescimento e de tanta mudança. Sam, mesmo dentro de suas limitações, começa a entender que não se encaixa mais nos planos que foram feitos para ele e anseia por mais, quer desbravar sozinho seu próprio mundo, quer sua independência, quer ir para uma faculdade, entender mais sobre o mundo dos sentimentos e conhecer sua sexualidade. Kier Gilchrist toma pra si a vida de Sam com tamanha sensibilidade e expressividade que as dores e alegrias do personagem também serão suas. Apesar de ser um menino de 18 anos dentro do espectro do autismo, vemos que muitas vezes temos os mesmos medos e as mesmas dificuldades. Aliás, se tem uma coisa que essa série me inspirou, foi a empatia.  

Além disso, nessa temporada, Sam nos presenteia com um detalhe riquíssimo: faz uma narrativa, na maior parte da vezes, sobre a vida dos animais no polo em paralelo com os acontecimentos da própria vida e de sua família. São analogias lindas e poéticas que fazem toda a diferença.


Elsa (Jennifer Jason Leigh), que até então julguei tanto, começou a me fazer pensar. Ela vive, nesse segundo momento, uma saga de arrependimento e tentativas de recuperar seu casamento. Sempre tive uma questão moral muito forte em relação à traição, mas, depois dessa história, as coisas mudaram um pouco pra mim. Comecei a notar que Doug (Michael Rapaport) nunca a traiu com outra mulher, mas a deixou completamente sozinha lidando com todas as questões de Sam. Desde o diagnóstico, Elsa abraçou seu filho com todo seu amor e buscou saber tudo o que pode sobre o autismo, levou seu filho para terapia, buscou grupos de apoio e dedicou sua vida à maternidade, e enquanto isso, Doug se afastava e se limitou a prover sua família enquanto ignorava tudo o que se passava ao seu redor. Eu que critiquei tanto, começo a me questionar quantas vezes Elsa também não foi traída e abandonada por ele enquanto se sobrecarregava para dar conta de tudo.  Aqui só há pessoas bem humanas que são boas, mas também más, que são corajosas, mas também covardes, que amam, mas também sentem muito ódio, e eu adoro histórias em que vejo o mocinho e o vilão na mesma pessoa.


Chegou a vez de Casey, a irmã mais nova que encontrou na rebeldia a forma de ser vista, que também se sentiu traída por sua mãe e a julgou e puniu, a menina que está se descobrindo, que nesse momento está enfrentando grandes mudanças como o início em um novo colégio, como iniciar novas relações com pessoas de mundos tão diferentes, que está lidando com seu amadurecimento e com inúmeros questionamentos sobre si mesma.  Brigette Lundy-Paine dá a vida à uma menina forte, firme, decidida, mas que ao mesmo tempo é doce, amorosa, extremamente maternal com seu irmão, frágil e cheia de medos.  Ela me fez pensar no quanto a vida pode ser angustiante às vezes, e mesmo assim a gente segue lutando para que nos aconteça sempre o melhor em meio ao caos.

Julia (Amy Okuda), a ex-terapeuta, dessa vez em uma participação menor, mas ainda de muita importância; é a pessoa em que Sam procura segurança e apoio em suas decisões, mesmo que à distância. Ela vive aqui sua pequena trama com a gravidez e sua negação, os rumos de sua vida e seus questionamentos sobre si mesma em todos os aspectos da sua vida.  Desta vez ela participa da trama com mais sutileza, mas acrescentando sensibilidade e delicadeza em todos os momentos. Julia é sensata, tem um imenso coração e desejo de ajudar, mas também proporciona momentos muito cômicos.


E por falar em cômico, Zahid, o melhor amigo de Sam, dessa vez ganha mais espaço nessa história, espaço esse que ele aproveita com muito carisma e graça. O jovem Nik Donani é um talento à parte e nos presenteia com os momentos mais divertidos, os comentários mais insanos, as atitudes mais inesperadas e as piadinhas mais sem sentido. É a amizade mais improvável e engraçada que eu já presenciei. Genial! Ele traz toda sua malandragem para a vida de Sam e é quem o ensina a paquerar (da forma mais insana) e a mentir, mas é também quem é parceiro para todas as horas, quem aconselha, mesmo que à sua maneira, é alguém que se pode contar. Como já disse antes, é a amizade mais improvável, mas tão complementar e cheia de amor que emociona.

As atuações são, num geral, excelentes, sensíveis e tocantes, até mesmo os  personagens de menor peso, até porque, definitivamente, todos eles têm sua razão de existir. As tramas cotidianas cheias de emoção fazem com que um seja indispensável na vida do outro e presenteie a quem está assistindo com muito conteúdo, muitos questionamentos e um balanço sobre seus valores  na vida.

Atypical fala sobre traição, ressentimento, dor, dificuldades, medos, angústias, frustrações, mas também fala sobre amor de todos os tipos, fala sobre dedicação, sobre cuidado, sobre determinação, fala sobre força de vontade, fé em si mesmo e no outro, sobre conquistas, sobre lutar pelo que acredita, fala sobre a importância do perdão, de parceria, de delicadeza, de se abrir para o novo, mesmo que às vezes a missão não seja fácil. Fala, acima de tudo, sobre empatia, e como se já não fosse o suficiente, ainda é muito educativo.


Título Original: Atypical

Direção: Robia Rashid

Elenco: Jennifer Jason Leigh, Keir Gilchrist, Michael Rapaport, Brigette Lundy - Paine, Amy Okuda, Nik Dodani, Graham Rogers, Jenna Boyd

Sinopse: Nesse novo momento da vida desta família, podemos acompanhar o grande desenvolvimento de Sam, seus novos anseios como um adulto e como isso afeta a trama individual de todos os que o cercam. Uma série cheia de lindas lições.


Trailer:



Se você não se emocionar e não terminar essa séria ansiando por ser alguém melhor, reveja seus conceitos sobre si! rs
Divida comigo suas impressões!

Fernanda Rodrigues Ramos

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