Crítica: Promessa ao Amanhecer (2018, de Eric Barbier)


Sou completamente apaixonada por filmes biográficos, e mais apaixonada ainda pelo cinema francês, mas algumas combinações superam as expectativas e as histórias são contadas de uma forma tão genial que ganham meu coração sem qualquer resistência. 

Promessa ao Amanhecer (La Promesse de L’aube, em sua língua original) é aquele francesinho fascinante a que me referi. A história de Romain Gary (1914-1980) é contada pelo diretor Eric Barbier, por uma ótica muito especial e a mais íntima de todas.

Gary foi muitas coisas em sua vida: diplomata, aviador, diretor de cinema, romancista... Mas essa história não foi simplesmente documentada assim, ela foi retratada a partir da relação doentia e até edipiana que tinha com sua mãe. Nascido na Polônia, onde viveu sua primeira infância, abandonado pelo pai assim que chegou ao mundo, o menino aprendeu desde muito cedo que a palavra de sua mãe era lei e a colocou num lugar intocável, quase como uma Santa. 

Por sua vez, Nina, sua mãe, era uma mulher forte, dura e passional, que escolheu nunca mais se relacionar com outro homem e dedicar a vida somente ao filho. O via como alguém muito especial, alguém que não poderia errar, que tinha que alcançar todas as suas expectativas para ser feliz. Não haveria na terra mulher que estivesse a sua altura, mas ela parecia sentir prazer em assistir às aventuras do filho e em ver que essas mesmas mulheres o desejavam. Ela sempre repetia tudo o que sonhava para o filho e ele, dentro dessa loucura, fazia dos sonhos insanos da mãe uma realidade em sua vida, até mesmo as peripécias mais absurdas.

Temos aqui uma relação tão nonsense quanto rica, ao mesmo tempo. Um amor que está acima de todas as coisas, que cuida, que doa, que obedece, mas que também briga, se desequilibra, agride, faz os pedidos mais malucos e está sempre por perto custe o que custar. Essa história nos traz um drama que me angustia, quando pensamos que estamos falando de algo real, mas que faz rir e apaixona pelos mesmos motivos. Essa última frase pareceu coisa de louco, né? ! Eu sei, mas você vai entender quando assistir!

O filme tem um roteiro muito bom, com algumas pequenas falhas, mas nada que comprometa sua grandeza. É daquelas histórias que você não quer nem piscar para não perder nada. Cada fato é contado com exímio cuidado e um toque de humor numa empolgante crescente, e ainda conta com atuações sensacionais.

Charlotte Gainsbourg , que é uma das melhores atrizes francesas (a eterna musa de Lais Von Trier), de fato, foi a melhor escolha para fazer essa mãe tão neurótica e passional. Ela está maravilhosa no papel e te atropela com tanta emoção e tanta intensidade na pele de Nina. Ela não interpreta, ela vive! Chega com facilidade onde muitos nesse mundo jamais colocarão seus pés. Diva!!!


Os três atores que interpretaram Gary foram incríveis, mas Pierre Niney se destaca, sem dúvida com tanto talento. Aqui ele te entrega o homem mais atormentado, apaixonado e perdido, o homem que vive pelo único propósito de fazer sua mãe feliz acima de qualquer moral ou seus próprios princípios e desejos. Completamente envolvente na loucura entre sua busca por si mesmo e a simbiose vivida com Nina.

A trilha sonora dança com o filme com sutileza, mas não se destaca em nenhum momento. É bacana ver um filme tão bom que a trilha sonora não faz falta, mas é melhor ainda quando ela acrescenta uma dose a mais de energia à história. Uma pena, mas iremos sobreviver!rs

O figurino é impecável e inspirador que vai nos dando a noção de passagem do tempo com muita beleza, aliás, como alguém que aprecia a moda e tem tendências um tanto nostálgicas como eu, os anos em que essa história foi vivida são os mais espetaculares nesse ponto. Acompanhando a impecabilidade da direção de arte desse filme temos uma ambientação primorosa e uma fotografia tão bem documentada que te transporta para dentro da história sem pedir permissão. Amo filmes com essa paleta de cores que me transporta para outro tempo e não me deixa voltar por dias. Apaixonante!

Promessa ao Amanhecer é arrebatador e me fez sair do cinema como há muito não saia. Passei um dia inteiro digerindo toda aquela vida que passou diante dos meus olhos, toda aquela emoção exacerbada que me acertou como uma marretada na cabeça diante de existências tão grandiosas. 


Título Original: La Promesse de L’aube

Direção: Eric Barbier

Elenco: Pierre Niney, Charlotte Gainsbourg, Nemo Schiffman, Lou Chauvain, Catherine McCormack, Didier Bourdon, Pawel Puchalski, Jean-Pierre Darroussin, Finnegan Oldfield, Alexadre Picot.

Sinopse: A história de vida de Roman Gary contado sobre a ótica da relação com sua mãe no decorrer dos anos. A forma com que ela se dedica inteiramente a seu filho, o guiando por cada dia de sua existência rumo a grandeza da qual ela acreditava que ele estava destinado. Gary, por sua vez, tinha uma relação de medo, angustia e um profundo amor e admiração por sua mãe. Dedicou toda sua vida a ela e aos seus desejos.

Trailer:


Você já conhece a história de Romain Gary? Tem alguma curiosidade pra dividir com a gente?

Fernanda Rodrigues Ramos

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