Crítica: O Banquete (2018, de Daniela Thomas)



O Banquete é um dos diálogos mais famosos escrito por Platão. Nele, várias figuras importantes da época discursam sobre Eros, o amor, em todas as suas nuances. Indo de conceitos mais simples até aqueles que demonstram profundo pensamento filosófico e até mesmo explicações de certo modo condizentes para as formas do amor, este discurso amplifica os significados e instiga questionamentos deliciosos.

Baseado nisso, e com um pano de fundo de política instável e ameaça à liberdade de um de nossos personagens, Daniela Thomas (co-roteirista do inigualável Abril Despedaçado) nos entrega uma trama envolvente e instigante. Porém, ao fim, temos um desfecho que pode não agradar ao paladar.

Somos apresentados inicialmente à Nora, personagem de Drica Moraes, que dispensa apresentações e elogios. Ela está promovendo um jantar em sua maravilhosa casa para comemorar o aniversário de casamento dos amigos Mauro e Bia e contrata um buffet, em que Ted (Chay Suede) servirá aos convidados. 


O marido de Nora, personagem de Caco Ciocler, chega, já alcoolizado e toma um banho, a contragosto para participar da cerimônia que se aproxima. Logo mais, Maria (Fabiana Gugli) e Lucky (Gustavo Machado) chegam, temendo pelo objetivo daquele banquete, que seria inicialmente uma festa, preocupação essa que assola mais Maria do que Lucky. Na sequência, Mauro (Rodrigo Bolzan) chega, seguido, pouco tempo depois, por Beatriz/ Bia (Mariana Lima), sua esposa. Logo mais, Batwoman (Bruna Linzmeyer) também comporá a mesa e a última a chegar é Cláudia (Georgette Fadel), amiga de Bia.

Nessa introdução de personagens, gradativa e demorada, vamos entendendo o elo que cada um possui com os demais, bem como, à medida que o vinho vai subindo à cabeça, suas visões sobre demasiados assuntos, todos ligados ao amor, em todas as suas formas de expressão.


O roteiro é certeiro nesse aspecto, com uma levada gostosa que realmente nos conduz facilmente por suas ideias, nos deixando apreensivos em certos momentos, arrancando algumas risadas em outros e tornando toda a tensão sexual presente na mesa, deliciosamente palpável.

Entretanto a mistura de vários elementos que são interessantes por si só, não culmina em um desfecho à altura, beirando à excessividade desnecessária para arrebatar o espectador, se valendo de um argumento, a meu ver, pouco convincente e vergonhoso.

As atuações se apresentam em um leque que vai do excelente ao deplorável. Por excelente temos Drica Moraes que cumpre bem seu papel de anfitriã louca subversiva, mas que peca um pouco na sequência inicial. Mariana Lima é a que mais brilha, que mais passa verdade em sua personagem, uma famosa atriz de teatro. O personagem Lucky é uma delícia de se ver e é um dos responsáveis pelas muitas cutucadas ácidas presentes no diálogo, trabalho ótimo de Gustavo Machado. 


Chay Suede e Bruna Linzmeyer estão no ponto com seus personagens, muito embora a presença de Chay Suede não apresente uma justificativa muito plausível para toda a trama. Fabiana Gugli nos apresenta uma Maria que quando achamos que vai engatar de vez, volta aos maneirismos teatrais que muito me incomodam no cinema. Rodrigo Bolzan é somente ok! em seu personagem, um editor de uma revista (inspirado livremente em Otávio Frias Filho) que compra briga com o então presidente Collor, e não traz nada de muito memorável, assim como Georgette Fadel também o faz. 


Contudo, o que mais peca em cena é Caco Ciocler. Com uma atuação de teatro de iniciantes, o marido bêbado que Nora tanto despreza não convence e chega a ser vergonha alheia.

A ideia de filmar em praticamente um único ambiente, com toda a névoa de fumaça de cigarros, espelho ao fundo, planos-sequência e closes nos rostos dos personagens contribui ainda mais para aproximar o espectador de todo aquele ciclo de gente rica aparentemente jogando conversa fora enquanto se embebedam. 

O que a cena inicial, no entanto, pode sugerir é que a aparente 'conversa fora' é na verdade uma armadilha voraz, arquitetada para expor e ferir. Mas volto a dizer que o argumento é bem pouco convincente. E por se vender em parte como um suspense, deixa bastante a desejar; a não ser pela trilha sonora proposital e gratuita, que inspira toda uma tensão acabando por não culminar em nada muito satisfatório.


Em suma, um drama com um roteiro bem bolado, que mesmo com algumas atuações que em nada convencem, pode despertar questões adormecidas, fazer relembrar (mesmo que vagamente) de um período político instável (o que seria bem propício para nosso presente) e escancarar o vazio existencial que tantos tem.
 

Título Original: O Banquete

Direção: Daniela Thomas

Elenco: Drica Moraes, Mariana Lima, Caco Ciocler, Chay Suede, Rodrigo Bolzan, Fabiana Gugli, Gustavo Machado, Bruna Linzmeyer, Georgette Fadel.

Sinopse: Neste banquete, onde jogos de poder e erotismo estão colocados à mesa, as vidas dos convidados serão transformadas para sempre. Entre eles está o poderoso editor de uma revista, que celebra seu aniversário de casamento. Ele pode ser preso nesta noite, já que escreveu uma carta aberta com graves denúncias contra o presidente do país.

Trailer:

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Eduarda Souza

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